Crime de ódio

Os defensores da desnecessidade de juntar o crime homófobo aos crimes de ódio foram ironicamente confrontados pelo recente assassinío de uma transexual nas ruas do Porto. Apesar de poucas mentes poderem alimentar, no recato da sua consciência, quaisquer dúvidas de que o crime terá cumprido um propósito de "limpeza sexual" (para apropriar Mary Douglas), há ainda quem evoque, ao nível do discurso público, a proposta de Bloco do Esquerda como uma masturbação jurídica do politicamente correcto. Nesse sentido o Artigo de Helena Matos no público é, a meu ver, absolutamente deplorável, como lamentável é a demagogia de Pacheco Pereira, assim manifesta, que, para cúmulo, mais uma vez acusa jornalistas de tendências conspirativas (talvez preferisse a omissão pura e simples da "identidade sexual heterodoxa" da vítima). Aparentemente custa reconhecer que o crime de há poucos dias não seja uma oportuna maquinação panfletária da esquerda, mas uma cruel morte, facto trágico e definitivo que pouco se compadece com a cultura do simulacro. Às vezes acontece: a realidade suja ideias limpas, ideias que, afinal, nada mais visavam do que a glorificação devocional do politicamente incorrecto. Agora em voga.



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