4 da Manhã

A mulheres cuja aparição nos ecrãs nos desassossega. É este o tema, devidamente ilustrado, que JPT me propõe (a mim ao Masson e ao Rui).

No que me toca, esse fascínio com as mulheres distantes, bem patente nos arquivos deste blog, tem, na verdade, tanto de um encantamento vivido como de actualização de uma dívida antiga.

Explico. Foram as mulheres do ecrã me iniciaram na sexualidade e no romance. Foi com a Bruna Lombardi que eu ensaiei a minha primeira paixão. Carré Otis prestou-se os meus enredos masturbatórios. São ligações fundas cuja reciprocidade cumpro com grato atraso. O ecrã representa, portanto, o tempo das impossibilidades vividas e superadas pela imaginação à vez romântica e erótica. É por isso que ainda hoje as figuras dos ecrãs se substanciam também como metáforas de outras distâncias mais reais e realmente vividas. Mas, para poupar o latim, pergunto-vos: já conhecem As Atrizes do Chico Buarque (música recentemente composta para um programa de televisão que circula agora em DVD)? Passem lá os olhos pela letra que vale a pena: está lá tudo.

As Atrizes

Naturalmente ela sorria
Mas não me dava trela
Trocava a roupa na minha frente
E ia bailar sem mais aquela
Escolhia qualquer um
Lançava olhares debaixo do meu nariz
Dançava colada em novos pares
Com um pé atrás
Com um pé a fim
Surgiram outras naturalmente
Sem me olhar a minha cara
Tomavam banho na minha frente
Para sair com outro cara
Porém nunca me importei
Com tais amantes
Os meus olhos infantis
Só cuidavam delas
corpos errantes
Peitos assaz
Bundinhas assim
São tantos filmes
Na minha mente
E natural que toda atriz
Presentemente
Represente muito pra mim
.
Chico Buarque



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