O presidente, a pessoa e a surpresa

Miguel Sousa Tavares dizia sábado, na crónica do Expresso, que Francisco Louçã se revelou como a grande surpresa destas presidenciais: pela capacidade demonstrada e por se ter apresentado de longe como o mais bem preparado dos candidatos (falo de cor, o jornal já seguiu para a reciclagem). Dada a histórica simpatia do comentador em relação a Louçã e ao bloco tal opinião é, reconheçamos, um sapo corajosamente engolido. De facto as prestações de Louçã, passe alguma tentação demagógica aqui e ali, foram notáveis. E digo isto da perspectiva de alguém - eu, perceba-se - que estava sinceramente expectante, alojado no distanciamento cínico de um indeciso convicto.

Em boa verdade, após me ter escusado a manifestar apoio à candidatura de Louçã no início desta senda presidencial, o meu voto esteve, pela primeira vez em muito tempo, à mercê dos discursos, agendas e posicionamentos dos candidatos. Hoje, e já sem atalhos de consciência, estou certo que votarei Louçã. Mas - e isto é de se dizer - a minha afeição humana está com Soares. Lamento ver Soares na posição em que se encontra. A verdade é que, bem vistas as coisas, era expectável que Soares fosse prejudicado por ser apoiado pelo partido do governo, factor grandemente agravado pela candidatura de Alegre que, ao perorar a sua independência cidadã, inflaccionou a noção de Soares como o candidato do aparelho partidário (noção bastante injusta se tivermos presente o passado recente dos dois candidatos).

Soares só se devia ter atirado para esta piscina numa candidatura supra-partidária à esquerda, aí a aceitação popular seria certamente outra. Mas, eleito que está o meu candidato, eleita que está a minha afeição pessoal, falta eleger a minha surpresa. Ela é, pelas piores razões, e hoje tenho a consciência da minha pretérita ignorância: Manuel Alegre. De Cavaco Silva numca esperei nem mais nem menos. Avante. De Alegre só direi o seguinte: se uma candidatura não partidária é isto podemos temer que neste país só haja saída pelo fundo. Alegre é a expressão risível da desconcertante prolixidade da esquerda.



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