neste papel descripto


"D'este viver aqui neste papel descripto": ali se coligem as cartas escritas por Lobo Antunes, entre 1971 e 1973, desde a guerra em Angola, à sua mulher de então, Maria José*.
Após a leitura do livro que agora nos chega, recuperar o trecho, que em baixo transcrevo, das "Conversas com Lobo Antunes - María Luisa Blanco" pode ser um tanto desconcertante:
Separámo-nos muito cedo em 1976, e muito estupidamente. Ela nunca voltou a viver com ninguém pensando que eu ia voltar. E voltei, mas quando já estava doente à beira da morte, só para tratar dela [em 1999, depois de diagnosticado cancro]. Era uma mulher lindíssima, de uma beleza incrível, e não sei porque me separei. É absurdo, mas a época influiu: era a pós-revolução e as pessoas faziam isso.
Fui um estúpido porque me separei, gostando dela, para viver só e deprimido e afectou-me mesmo na escrita, nesse momento não era capaz de escrever. Sim, a Memória de Elefante é a história dessa separação e é um livro em que se adivinha um grande sofrimento. A minha tradutora sueca ironiza dizendo que me separei porque precisava de material para trabalhar.
O "D'este viver..." e a relação que narra sabe melhor sem esta vantagem do tempo. É sempre angustiante saber do ocaso dos amores que nos fizeram vibrar e comover (sim, os nossos também). Devemos, talvez, como sugeria Coleridge, exercitar "the willing suspension of disbelief" e calibrar, por omissão, por voluntária ignorância, o amor à eternidade. Certo que há naquelas cartas uma intencionalidade outra, a visitação de quem carece do pulso quente e não se concebe sem treino de escrita, digo eu, mas, de facto, para retornar ao que aqui me trouxe, lendo aquele tempo nos seus termos, as cartas constituem - não só mas também - um notabilíssmo testemunho de amor em tempos de guerra.

*O mesmo nome que baptizaria a filha mais velha, organizadora do livro, que, menciono por curiosidade, chegou a ser minha professora numa ida licenciatura de Antropologia.



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