Lista de Honra

De facto, Ariel, há coisas que preferia não saber. Ver figurar na lista "Jovens por um Portugal Maior" (sic), o nome de Vítor Baía não é algo que se faça sem angústia. Tal como toda a gente, ao princípio pensei que isto era um apoio político de Vítor Baía a Cavaco Silva, mas logo percebi a minha ingenuidade (ah! reles Bruno!; desculpa Baía, fui fraco e deixei-me levar pelas espuma das evidências).

A história é bem mais complexa. Como sabem Baía tem uma Fundação que tem por objectivo catalisar recursos para apoiar pessoas desfavorecidas. Nesse trabalho, a que Baía se vem dedicando, o confronto com a precariedade por essas áleas afora é uma constante, certamente dolorosa. E acredito que por vezes a escassez de meios de resposta a essas situações seja agonizante. Imagino portanto que Baía guarde uma leve esperança de que o novo Presidente da República use a sua magistratura para um apoio mais cabal a esse trabalho. E, talvez por isso, perante as sondagens e as urgências com que a sua fundação se cruza, tenha recebido o convite de Cavaco Silva para integrar a sua comissão de honra como uma oportunidade. Se foi inocente ou não, não me cabe discutir, importa reter que na sua leitura talvez o apoio a Cavaco Silva tivesse sido um sapo necessário de engolir em prol de valores que no momento quis perceber mais altos. Este foi um gesto que lhe custou muito, mas fê-lo por esperar tempos mais prósperos para a fundação que criou e para as pessoas a que ela se dedica. Não ponho de parte a possibilidade desta versão ter algo (ou tudo) da minha imaginação. No entanto esta é a história que me permite lidar com este evento e não estou disposto a ouvir outras versões, quiçá mais informadas, sob pena de me expôr a uma gravíssima crise ontológica.

Geertz explica que na sua acepção de trabalho a cultura é isto: uma história que nos ajuda a viver com o que acontece, por mais desconcertante que a realidade possa ser. Como sempre digo, os meus heróis por muito que se esforcem nunca me conseguem desiludir o suficiente. Eu esforço-me por eles. É essa imunidade cerzida pelo génio fundador que os define como meus heróis. Em todo o caso não dramatizemos, Cavaco Silva até é visto por muitos como alguém de esquerda e até parece ser uma boa pessoa (este é o auge da minha demagogia e falta de carácter retórico sempre que toca a futebol). Grave , grave, era se o Baía fosse seleccionador de Portugal e confesso admirador de Pinochet. Aí ficava realmente na merda.



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