2006. Feliz. Desejos.


2046

Esta manhã, no dia primeiro de Julho de 1969, quero experimentar uma oração que seja pessoal, não herdada.
Borges

Honrarias (act.)


Ao Almocreve das Petas
Ao Francisco Curate do Daedalus
Ao Cafajeste
Ao José Pimentel Teixeira do Maschamba
Ao Walter Rodrigues do Fórum Comunitário

A minha sincera gratidão por terem mimado este blog nos balanços anuais.

O Captain! my Captain!



O Captain! my Captain! our fearful trip is done;

Walt Whitman





A crise de identidade que nos últimos anos o Porto vem condecendo, a mim e a muitos dos portistas que um dia se entregaram a esse belo mitopoema de alma, gentes e bola, obriga a novas leituras interpretativas. Dolorosas. E assim, por essa nova luz, esconsa, poderemos dizer que aquela braçadeira um dia atirada à relva em aparente despropósito terá sido afinal a cintilante declaração simbólica: as vidas que seguram símbolos forçosamente se diluem com eles, na glória, na agonia. Tanto e de tal modo que quando aquilo que é simbolizado lentamente naufraga, apenas o exílio da vida-estandarte pode salvar algo da ficção original. Jorge Costa é o primeiro exilado de um clube que soube aproveitar os ares da democracia para tudo vencer. Naturalmente vivi muitas saídas de jogadores nobres e talentosos, mas nenhuma me mereceu tamanha revolta e, também por isso, nenhuma se imiscuiu tanto na afeição biográfica que me liga ao Porto. A nostalgia revoltada é agora uma marca incontornável da minha forma de ser portista. O tempo das grandes vitórias lembra-se com saudade, o tempo de homens como Jorge Costa, assim tratado, lembra-se com terrível amargura. É muita história aspergida de mágoa. Demasiada. Se ao fim de ano e meio não forem buscar o Jorge Costa para a equipa técnica eu tudo farei por esquecer que um dia fui portista. Percebam, isto para mim é novo, não sei ser de um clube que não me merece lágrimas.

Beira II


Beira, Novembro de 2005

Os mangais da Praia Nova resistem como veias salgadas irrigando o corpo da memória. As pequenas canoas - os conchos e as almadias - vencem as águas lamacentas do esquecimento. O índico ficou na margem da minha alma. Nesse lá eu nasci. Nasci tanto que, agora, os meus sonhos são anfíbios. (...) E a Beira, a minha Beira, essa que eu lembro da mnha inacabada infância, é um lugar inventado à medida do meu sonho e da minha saudade. Mia Couto

O homem que amava as mulheres

L'Homme qui aimait les femmes, François Truffaut, 1977




É ténue a linha de fronteira entre aquilo que é um homem apaixonado por mulheres e um misógino. Tudo depende de como a devoção ao plural vinga em acautelar a integridade do singular nas marcas da passagem. Exercício complexo senão impossível. Para ser pulha o Don Juan nem tem que ser machista, basta que seja um fetichista dessa coisa chamada mulher. Como em tudo, as pessoas muito certas daquilo que querem semeiam ruínas de gente sem darem por elas - pelas ruínas.

Coisas complicadas

Não consigo ler um texto em espaço simples.

Profiteers

"A maior desgraça de uma nação pobre é que, em vez de produzir riqueza, produz ricos."
Mia Couto, Pensatempos

Subtil distinção tantas vezes negligenciada por conveniência de um certo liberalismo.

Romantismo pós-moderno

Confessou: "Amo-te desde o dia em que te despi."



Anna Koudella: Foto de

Acompanhar

Aquele balanço do Francisco José Viegas.

Resoluções

Percebeu que a felicidade lhe andava a molestar a escrita e retirou as devidas consequências.

Confissões


Li.
Escreverei brevemente sobre o assunto (i.e. livro e facto social que fez germinar).

Feliz Natal



(...) and adapt to local histories. Clifford Geertz

Prendas

Aderir ao consumismo ritualizado ou assumir-me como um pulha. São estas as opções natalícias.

Maradona e Ronaldinho




Começa a surgir para aí, qual murmúrio, uma cobarde tentação de comparar Ronaldinho Gaúcho a Diego Armando Maradona. Calma. Aqui e ali convém um pouco de juízo. Incomensurabilidade é a palavra. Além de insuperável génio - não estou disposto a discutir, e por favor poupem-me ao Pelé - Maradona nutria-se de uma épica vontade vencer, de um absurdo sentido de limite, de uma tenebrosa intimidade com o sublime; todo o seu futebol, cada pequeno gesto, coreagrafado na improvisada esteira de Artaud, escorria, órfico, para abismo do impossível. O futebol, o jogo, era a mera forma expressiva de algo bem mais fundo, algo que as efabulações da bola sabiam indizível.

Reverencio o deleite que Ronaldinho concede, assombroso, impressionante, lúdico, mas, perdoem, falta ali algo de uma aparição profética. Maradona foi um avatar hegeliano, o fim da história no que ao futebol diz respeito. Perdeu contra os Camarões e eliminou a Itália. Deixou o futebol e voltou para fazer aquele golo contra a Nigéria (não há doping que faça aquilo). Convulsivamente chorou ao receber a medalha dos vencidos sob o gáudio italiano. Convulsivamente chorou nos States ao ver, da bancada, a Roménia acabar-lhe com a vida. A Ronaldinho não faltam só golos e fintas, falta a incapacidade, a frustração e a dor de fracassar os desígnios que só os deuses decifram. A morte e a ressurreição. Falta-lhe essa distância que no seu futebol jamais se sente. Maradona vivia o frémito de uma cena que só ele via escapar-lhe. Ronaldinho compraz-se nas mais belas fintas, consola-nos com devaneios mirabolantes. Poucos desassossegos nos deixa: não sabemos como reagiria à cocaína, não sabemos como seria se fosse argentino. É tudo.

Pudor

Na sequência do texto de Pacheco Pereira sobre Louçã, Miguel Portas publica no Dn uma interessante crónica* sobre a relação de JPP com as figuras de esquerda. O registo do texto é analítico e bem conseguido para arqueologia do um fascínio. Mas, tal na como crónica de partida de JPP, até mais, o último parágrafo, pejado de agressividade, era dispensável. Percebam, o que a mim me fascina, e a esquerda também tem essa relação com o fôlego intelectual de Pacheco Pereira, é a essa incómoda admiração entre adversários, quase sempre inconfessa.

Permitam-me Borges:

Do outro tributo a um inimigo lembro-me nos últimos capítulos dos Seven Pillars of Wisdom de Lawrence; este gaba a valentia de um destacamento alemão e escreve estas palavras: «Então, pela primeira vez nesta campanha, orgulhei-me dos homens que tinham matado os meus irmãos.» E acrescenta a seguir: «They were glorious.»

O Pudor da História, 1952, Outras Inquirições

Ler, também o texto que Nuno Ramos de Almeida escreve no Aspirina B (adendarei outros subsídos ao tema).


*Obrigado ao homem das neves pelo link
ao artigo

Trânsitos

Com tais prosadores de conversa um almoço pode bem tocar as 4 horas de tempo. Inestimável adejo na memória de Maputo.

Aparições iconoclastas

Via mail, sou abordado por uma mensagem abastecida de humor e sentido de presença. Propõem-me que aceite ser fotografado para um projecto que visa dar cara aos fazedores da bloga. Sem muito hesitar, recuso. Não só por caridade (fica sempre bem este tipo de auto-depreciação). Para mim um dos fascínios da blogosfera remete para a natureza incorpórea da comunicação no modo como a densidade estílistica e biográfica dos sujeitos se desenha - mesmo quando algumas das faces são conhecidas (quando não o fascínio pode dialogar com o enigma). Ou seja, as corporalidades ausentes ou desconhecidas acrescentam algo, creio, ao mesmo tempo que ilibam a espuma comunicacional da precisão do corpo consentido. Não obstante a minha esquiva pessoal, reputo de genial e fadada ao sucesso a ideia que move os autores do projecto. Mais: infelizmente sou demasiado curioso para não ir espreitar.

Ler esta a reflexão do Luís Rainha sobre engates/enlaces, questão que toca ao de leve esta, a da identidade corpórea.

Questão

Se um sujeito não quiser ter filhos pode, após a realização de uma vasectomia, gozar uma licença remunerada de não paternidade?

Beira

Vou descendo por todas as ruas
E vou tomar aquele velho navio
Gal Costa, Vapor Batato
Banda Sonora, Terra Estrangeira


BSM

Spreading the new





Ler

Pacheco Pereira sobre Louçã.
Pedro Mexia sobre Alegre.

Ler

O insuportável encanto das verdades simples.

Ou, porque apoiarei Angola, México e ... o Irão (eu sei, eu sei...).

Scolari, Ricardo e restantes patriotas estejam à vontade para fazer de Portugal uma reles metonímia futebolística: há sempre tristes gentes para se comoverem com estas figuras de estilo. Eu que um dia chorei ao ver o Rui Costa ser injustamente expulso contra a Alemanha sigo essa ideia de nação exilada pela prepotência dos poderosos, ideário de que Baía é a pós-moderna concretude. Mantorras: just do it.

Going Native

Mesmo nas condições de vida mais precárias eu vingo em fazer a diferença entre os autóctones pela assombrosa desarrumação que confiro aos "aposentos". É uma forma de levar comigo algo do meu quarto. É a tranquila aceitação do quanto a busca de ordem deve a um mundo sempre indomável - nos seus termos.

Chama-me desarrumado quem obstinadamente fracassa em captar esta questão afectiva e epistemológica da maior grandeza.

Paradinha reflexiva por motivo de...

"é fatal, a meio, pôr-me com coisas."

Roubo esta frase, assim sem contexto, para prestar homenagem, à vez, ao Afonso Bivar (extensível ao blog) e à contingência que a faz sublime. Nesta pequena frase está todo um tratado sobre o destino, a tragédia e, se quisermos encarecer os termos, sobre a teleologia da catástrofe. Duas ideias simples ressaltam pujantes.

1- A fatalidade tem mais a ver com o meio das coisas do que com os fins, estes sim, são meros muros de Berlim, edificações que caem sintomáticas quando as razões da sua erecção (a palavra não está tomada, acho) há muito cessaram de fazer sentido.

2- A fatalidade tem na biografia uma constante: nós, sujeitos aliados a um nome, e, mais ou menos extensivamente, as coisas com que "fatalmente" nos pomos (devaneios, manias, pessoas, efabulações, cinismos, ansiedades, orgulhos, ambições, desalentos, you name it). A incómoda persusasão de que nada está predestinado senão uma lírica vocação para a asneira.

A corrupção dos anos

Por muito ingénua que seja a divisão entre maus e bons há um passo interrogativo, digo eu, que infunde essa dicotomia grosseira de alguma densidade. Avanço. Perante a distopia e o desencanto de pouco valerá questionar porque é que os maus ganham sempre no fim. Mais profícuo será indagar o que foi feito dos bons.

Maringué II


Maringué 9-12
Como que fugindo do sol acabado de despontar, abandono a vila de Maringué. Parece impossível que esta terra lindíssima, achada por quilómetros sem pista de alcatrão, de gente que me soube tão amorosa, fosse outrora o centro nevrálgico da guerra encetada pela Renamo. ― Força nascida do entusiástico patrocínio do Zimbabué (então Rodésia do Sul) e da África do Sul, regimes investidos em estancar a ameaça negro-independentista na África Austral. Importava, enfim, na perspectiva daqueles, suster ventos da mudança que sucessivamente a guerra de libertação e o 25 de Abril trouxeram a Moçambique.

Maringué 9-12
Abandono Maringué à sua lassidão tropical. Nela, bicicletas e caminhantes espraiam-se, em vagares, por essas machambas afora. Carregam uma pequena enxada de que se fará mapira, maxoeira, feijão, mandioca, batata-doce. Na carrinha que me afasta há cabritos a cobrir o tejadilho enquanto que galinhas e pessoas recobrem cada centímetro dos interiores. Afortunado madrugador, sigo à frente, onde me cabem os joelhos, junto do condutor. Acompanha-nos, nesse posto real da Hiace, um rapaz que abraça a aparelhagem ardilosamente ligada à bateria do veículo, música para toda a viagem, é o que promete aos agradecidos companheiros de caminho, comunidade peregrina para as 7 horas que se seguem. No volume máximo canta agora Celine Dion. Eu, dobrado sobre a minha caneta, reparo, a despropósito, que enquanto escrevo esta nota no bloco de apontamentos me surpreende uma infame melancolia. Inocentada que está Celine Dion, talvez culpe as histórias contadas ontem à noite, essas vidas de Masena caridosamente traduzidas, a penúria daquele belíssimo jantar - pães e fantas partilhados sob o ibondeiro anoitecido-, o peso do nunca mais no “estamos juntos” que despede, as cores veladas no sul, as horas por dormir, a piedade dos cabritos que gemem sobre nossas cabeças, a vinda disputada ao terror da valeta, a clara noção que algo de indizível me assoberba. Sincretismo extenuante e o infantil orgulho de nele ser parte.

9-12-05

A aquecer

Do Público

O dirigente do BE tentou também deixar no ar a impressão de impreparação de Cavaco Silva em questões, tais como a Segurança Social. Fê-lo depois de Cavaco Silva ter sugerido um estudo sobre o actual estado da Segurança Social,após seis anos de alterações substantivas. "Esse relatório já está feito e está disponível na Assembleia da República. Esse estudo já existe, eu conheço-o e era
bom que todos os outros candidatos o conhecessem, disparou o economista do BE".

"Há momentos em que um político se deve elevar à altura das circunstâncias. Um político pequeno fica calado", resumiu Louçã sobre a invasão do Iraque.

Louçã tentou também apresentar Cavaco Silva como o candidato mais próximo do primeiro-ministro José Sócrates: Até agora, excepto o meu adversário, não encontrei quem se identificasse tão abertamente com o primeiro-ministro."Uma colagem que a resposta do ex-presidente do PSD a Louçã não conseguiu contrariar.

A discussão da lei da nacionalidade proporcionou os momentos menos conseguidos de ambos os candidatos. Do lado de Cavaco Silva, esse momento foi quando afirmou que os "portugueses poderiam ficar em minoria", caso os partidos não fossem "cuidadosos" na alteração da lei."A entrada de dez milhões de imigrantes em Portugal, de um momento para outro, é um momento divertido do debate", reagiu sorridente Francisco Louçã.Este candidato não conseguiu, no entanto, evitar trazer para o debate uma criança, quando afirmou ter conhecido o "Nélson" que tinha "chorado com a derrota de Portugal contra a Grécia", mas que estava impedido de de jogar futebol federado por ser estrangeiro.


Nao assisti ao debate, mas fica a curiosidade, continuaram a chamar a um Prof. e a outro Dr.? Apesar do que aqui bem lembram?


Maringué


Viagem inaudita. Estive nas bordas do fim mundo. Estou convencido.

Verdade e Reconciliação

Às vezes acontece, a propósito sabe-se lá do quê, uma frase perdida começa a cristalizar-se no nosso pensar em insólito protgonismo. A frase que justifica este post expiatório germina do filme In My Country. Nele Juliette Binoche e Samuel L. Jackson desempenham o papel de dois jornalistas que acompanham o processo de Verdade e Reconciliação na África do Sul. O filme é bastante bom sem ser brilhante, mas tem Binoche que é brilhante sem precisar de ser boa (é-o, for the record). Binoche, após várias sessões pelo país a ouvir atrocidades de todo o tipo, instala-se no autocarro que levará a Comissão de Verdade até à próxima paregem. É então que murmura, para a intimidade do gravador áudio:
How much more pain can we take on board?

Relatos de guerra

Falei ontem com uma senhora que me contou ter presenciado, no seu distrito de origem, onde viveu a guerra, um episodio amiúde perpretado pelos guerrilheiros da Renamo. Ja tinha ouvido falar dessa cena impossivelmente macabra. No fundo, talvez a quisesse crer parte de uma mitologia do horror. Privar com uma testemunha directa e com a densidade de real que isso confere. Absolutamente desconcertante.

Vazios rituais

Abrir o ar da 4l.

Literacia sentimental

Regresso.

Soterrado

Se um dia a vida se me tornar intolerável reclamarei por uma morte assistida: asfixiamento sob mamas melancólicas. No fundo, guardo a certeza salvífica que quando principiados os preparativos verei a vida cintilar dos mamilos assassinos e a morte, essa sim, se tornará então intolerável. Partirei como vivi, esmagado pela tangível evanescência do que mais amo.

Hipergamia, colonialismo, colonialidade, etc, explicam

Nests áleas, urbanas e pós-coloniais, reparo que mulheres mais bonitas têm filhos mais claros.

1:1 Notas soltas



1- O Porto jogou muito e bem, bom tecido de bola, jogadas deslumbrantes, joagadores de excepção. E no entanto o empate com o Sporting para mim é lisonjeiro. Modesto? Humilde? Não, apenas tenho a noção do perigo que mora lá atrás. A defesa do Porto está bem para um futebol de ataque: 90 minutos no meio campo do aversário, não como ideologia, mas por carecer de nunca ser experimentada.
2- É bom que o Porto seja eliminado daLiga dos Campeões porque com aquela defesa as humilhações perante os grandes da Europa podiam colocar-nos na casa dos sete de Vigo. Estão a imaginar o Chelsea ou o Barcelona com Ricardo Costa, Pepe, Pedro Emanuel e César Peixoto pela frente? Que fartote.
3- C.A percebeu a importância de um médio defensivo e Paulo Assunção tem resultado muito bem. Mas atenção, Paulo Assunção não tem a versatiliadade e a capacidade de ler o jogo de Costinha. Não podemos esperar dele que no decorrer da partida se desdobre, se necessário for, como terceiro central. Razão porque no comparativo com as pretéritas épocas estamos ainda mais dependentes da qualidade dos dois centrais. Dada a amostra (Pepe, Pedro Emanuel, Ricardo Costa, Bruno Alves) esta conclusão configura-se uma tragédia digna da pena de Sófocles.
4- Apesar de estar mais capacitado para jogar com os pequenos do que com os seus pares (escuso de lembrar a patética derrota com o Benfica) o Porto pode bem ser campeão nacional. No entanto, o simples facto de uma equipa com tamanho poder financeiro, poder de aquisição, massa adepta, história recente e, digamo-lo, com tamanha mitologia heróica de minoria oprimida, ter que lutar pelo campeonato nacional português com Benfica e Sporting é humilhação bastante para qualquer postista ciente da desproporção entre meios e resultados.

5- Falta liderança, falta manha, falta a inteligência de saber usar o bom futebol (que existe e muito, nunca disse o contrário) para granhar jogos. Perante o quadro do início de época cintila, gritante, a ausência de Jorge Costa. Só por essa demonstração da estreiteza do seu saber futebolístico jamais perdoarei a C.A. E como se vê, o deus futebol não perdoa os que veneram outros ídolos (fala do deus de barro:"futebol de ataque" - ainda por cima nos momentos cruciais é cobarde, como se viu em Milão).
6- Como podem perceber não estou muito entusiasmado. Ando triste. deprimido. Em crise identitária. Mas é nestes momentos, em que mais precisamos, que o futebol envia um dos seus para nos doar algo que só marginalmente trafica com pontos, campeonatos e flash interviews. O Porto até podia perder todos os jogos - quero mais é a saída de C.A - mas, por favor, por piedade, ponham a bola nos pés do Quaresma. E deixam-no jogar. Neste momento só Ronaldinho é capaz de magia comparável. Elegância: não conheço. Anotem isto: a bola de ouro chegará um dia.

Ganges neste mar


Um dos mais interessantes fenómenos paralelos com que flirtei em Moçambique refere-se às migrações encetadas por apelo ao ordenamento dos espíritos. Não é infrequente uma pessoa ir ao curandeiro e chegar à conclusão que os males assoladores se prendem com uma situação geográfica pouco abonatória, no que respeita as intervenções das forças espirituais. Já por mais de uma vez ouvi o relato biográfico de pessoas que mudaram de distrito ou de província em busca de coordenadas mais favoráveis; muitas vezes fugindo de incumprimentos rituais aquando da estabelecimento da família no lugar pretérito (por exemplo, se a casa não foi “fechada”, i.e. protegida, de acordo com o ritual local), outras vezes apenas sustentados na sedimentada ideia de que ali Morungo (Deus, nalgumas das línguas locais) e os espíritos não haveriam de ajudar. Estas migrações comovem-me, pela desestruturação a que as pessoas se sujeitam em nome da crença, pela subterrânea convicção de que em algum lugar a vida se compadecerá de tanta caminhada. Mas sobretudo, porque, como o sugere o eterno retorno das peregrinações, cobardes na escala biográfica, apenas os perdidos, desalojados da espera, podem fazer morada nos lugares onde crêem conspirar a benquerença do além. Na verdade, tudo isto me toca pelo que há muito me comove o conselho que, num qualquer cruzamento, alguém deixou à personagem de Marguerite Duras: “No seu lugar, menina, eu ia para o sul, onde dizem que Deus é melhor”. Devidamente desgraçada e perdida, ela assim fez.