Esquecimentos rituais

Escrever o corpo do texto do email a denunciar o documento que ¨envio em anexo¨ e depois não envio nada em anexo. É a minha forma de me apresentar como um sujeito evasivo.

Acentos para que vos quero

Nao obstante assumidas afinidades, o meu sentimento politico mais forte nestas eleicoes: a tristeza de ver a esquerda dividida e Soares naquela situacao.

O sonho de um esquerdalha libidinoso

Transgredir com uma conservadora.

Ora

Cito
...mesmo sendo a Igreja Católica uma entidade privada, e com um estatuto complexo de relação com a constituição política dos estados onde se insere, no mínimo, não decorre daí que deva ser imune à crítica social, seja ela qual for, nas suas temáticas e fontes de enunciação, quanto mais não seja porque é fonte de proposições culturais que afectam a construcção de imagens e representações que, neste caso, no mínimo, a quem se define/é definido, como homossexual, dizem directamente respeito.

Betas por aqui

Sao aquelas que cingem as redondezas com capulanas aos quadradinhos.

Acompanhar

Os lugares do choro. Na natureza do mal. Não pares por aí, Luís.

Au revoir

THE END
Abro a porta da rua, olho para trás e apago a luz.
José Mário Silva


A fava

Do Público (que cita o Expresso): "Santana Lopes ainda não decidiu se apoia alguém nas presidenciais". Pelo modo como as sondagens andam, talvez em apoiando o Cavaco a coisa equilibre.

In Between

Tinha acabado de chegar à Beira. Sento-me e procuro apurar o nome dos comensais calhados em sorte.
-- Eu sou o Castigo, responde o primeiro.
-- Eu chamo-me Milagre, responde o segundo.

Principiou assim a insinuar-se, sem pejo, esse mundo encantado de que falava Weber, mundo populado de espíritos e sinais dos céus.
-- Muito gosto, sou o Bruno. Disse.

Banlieus


O tal beijo

E francamente desonesta e, atrevo a dizer, desumana, a atitude daqueles que, entronizando messias Miguel Sousa Tavares, alardeiam o beijo de duas adolescentes para maldizer aquilo que entendem ser o exibicionismo gay. Estou muito longe de Portugal, facto, mas os elementos informativos que retratam o caso, assim como o proprio enquadramento, tornam obvio se tratou de um beijo roudado de duas raparigas cientes da discriminacao social e institucional a advir da revelacao do seu segredo. Posto isto cabe dizer mais. O tao perturbante exibicionismo gay faz parte de uma cultura libertaria de pessoas conscias do preco a pagar por ousarem revelar o nome dos seus amores. E por favor, nao venham com a hipocrisia das coisas que se guardam para a intimidade, porque, como bem o atestam celeberrimos icones culturais a possibilidade de celebracao do amor é constitutiva daquelo que e o amor é. A apresentacao publica, a performance e a indentidade traficam com o sentimento.

Denunciando suprema desonestidade argumentativa, importa apartar o beijo de Gaia das representacoes expressivas de uma cultura minoritaria (onde o " excesso" se resume ao onus de transgressao a que todo o gesto de afecto homo fica obrigado). Mas importa ainda perguntar: Sim. E se elas estivessem mesmo a celebrar o seu amor, digamos que de um modo ostensivo? so what?!


Reflexões paternais

Mil vezes repetia a lição. O meu professor da Primária. Dizia. Nós, como os animais, nascemos, crescemos, reproduzimo-nos e morremos. No outro dia, ao lembrar esta ensinança que tanto visitou a minha infância, percebi tudo. A falta de instinto paternal que me acomete, tal como sede de prole que a outros assola, também pode ser psicanaliticamente explicável por uma aspiração à eternidade.

Idas e Voltas


Depois de uma fascinante incursão etnográfica por Changara ― norte/interior do País, redondezas de Cahora Bassa ― regressava eu de Tete rumo a Chimóio. Pensava que o inenarrável calor de Tete era inédito bastante. Não era. O autocarro que me deu lugar havia de se despistar valeta adentro.
É assombrosa a clareza cinematográfica com que vi ser arquitectada a inevitabilidade da desdita. Uma vez desfeita a curva erige-se um autocarro ocupando a nossa via, enquanto que no sentido oposto um camião de carga hipotecava a hipótese de uma ultrapassagem de recurso. Escolha atroz. Choque frontal ou choque frontal. O motorista, quiçá trabalhista adepto da terceira via, não teve alternativa senão desviar-se para a berma. Ainda tentou esboçar uma guinada de volta à estrada, mas a inclinação foi fatal e virámos.

Aqui os acidentes nos transportes de longo curso até são bastante raros, mas, de facto, um autocarro avariado, detido na curva sem sinalização, não podia redundar noutra coisa. Dentro do autocarro não tardaram os gritos de antecipação. Sentimos primeiro um reclinar suave e depois uma queda relativamente forte. Quando dei por mim estava caído no meio de tralhas, cadeiras, estilhaços, pessoas. A partir daí tudo no meu comportamento foi insólito, para mim mesmo, creiam-me. Qual capitão do barco, levantei-me, repreendi calma a um rapaz disposto a pisar moribundos para salvar a pele, clamei às pessoas para saírem devagar. Indagando pelas as situações mais aflitivas fui recolher dos braços da mãe prostrada uma bebé ensanguentada. Incapaz de fazer o que quer fosse com ela nos braços passei-a pela janela ao tal tipo que entretanto havia conseguido sair. Recebeu-a como não tivesse outro remédio e levou-a dali. Chamei uns quantos braços para ajudar a libertar um senhor que tinha ficado preso, mas a nossa força não bastou e só o macaco havia de o soltar. Andei nestas deambulações salvíficas e às tantas no autocarro só restava eu e o homem que à falta de melhor sorte se ficou a aguardar pelo macaco. Fui em resgate da mochila e saí do autocarro com impossível frieza de sangue.
Cá fora fiquei a saber que só houve dois feridos, ambos muito ligeiros: Flávia, aquela bebé, e uma anciã a quem o motorista implorava em lágrimas: “não se preocupe mamã, vá ao hospital que as suas coisas ficam connosco”. Regressei ainda ao autocarro em busca de água para limpar a ferida da Flávia.
Naqueles poucos instantes, quatro minutos no máximo, agi como os heróis dos filmes: concedi gritos, dei colo a uma bebé, organizei forças, inquiri pelo estado dos mais combalidos. Mas uma coreografia heróica pode bem ser uma dança que busca a redenção. Pelo menos foi-o naquele dia. Suspeito que sim.
Explico. Um dos meus primeiros pensamentos quando o autocarro virou remeteu-me para mochila onde tinha alojados inúmeros materiais juntamente com o portátil. Em tal situação: pueril, bem sei. No fundo, desconfio, deambulei em busca de perdão, acolhida que foi a má consciência desse pensamento vil. Três horas depois estava a fazer entrevistas em Chimóio. Sem um arranhão. A bebé ajudou-me mais a mim do que eu a ela. À luz da narrativa narcísica, aquela que mais explica, as gotas do sangue dela que me ficaram nos calções substanciam uma outra versão daqueloutro sangue redentor. Ou o próprio.

Vazios rituais

Nos transportes públicos tugas não é infrequente termos que correr atrás do autocarro para o perder em desespero sob os olhares caridosos da assistência. Em Moçambique, no pequeno-capitalismo desenfreado, exuberantemente representado pelas chapas (autocarros-toyta-hiace), são os transportadores que perseguem o cliente. Fazem marcha-atrás para os buscar, gritam, clamam, carregam as mercearias, disputam preços e chegam mesmo a lutar entre si para garantir que nenhuns 5 contos (de meticais) escapem. Há conflitos e acidentes iminentes a toda a hora, verdade. O conceito de lotação máxima inexiste, verdade. Mas, ainda assim, reconheçamos, é toda uma civilização que ironicamente se afirma quando nos salvam dessa cena emblemática do malogro quotidiano: um autocarro que, indiferente ao nosso dedicado o esforço, segue o seu inefável caminho, vagarosamente desenhando a curva do nunca mais. na verdade, essa é uma das cenas onde a minha vida se actualiza e representa, pelo que venho sentindo algo de um vazio performativo.

Jorge Costa

Tenho a a mania de não me fazer sócio de nada para proclamar a minha independência, independente com causas, blá, blá, como se... Mas hoje é daqueles dias que eu gostava mesmo de ter um cartão de sócio do FCP. O que fizeram ao Jorge Costa dói-me mais do que uma descida de divisão. Ser portista tem a ver com um vínculo a certos símbolos e lealdades em que o pessoal e o institucional se confundem no reconhecimento das lágrimas, tanto quanto das glórias, deixadas em campo -- temas que outros nunca poderão sequer perceber. Mas quem isto faz ou permite nada merece. Algo de muito desestruturante ao nível identitário se vem passando pelo Dragão. Hoje, dizia, é daqueles dias que eu gostava mesmo de ter um cartão de sócio do FCP... Para o rasgar.Disse.

Paris II

E Portugal? Aconselho este oportuno texto de Eduardo Pitta com excelentes pistas (aproveito para elogiar o esmero e qualidade que ali perpassam em cada post).

De facto minimizar Carcavelos foi importante para temperar o oportunismo dos media e refrear possíveis escaladas de ressentimento. No entanto, num país que se dá ao insólito simbólico de ter um parlamento sem um unico negro, minorar sinais e continuar a assobiar para o lado é a mais pura estupidez. Independentemente da real dimensão de Carcavelos, poucos terão duvidas que as condições estruturais vividas pelas segundas gerações de imigrantes são lenha para uma cultura do ressentimento. Os carros queimados e a violência desmesurada não são meros constituintes de um código comunicacional ao contrário do que a boa-vontade de muitos gostaria de pensar. São sim a expressão da sua falência. Estes eventos acontecem quando os diálogos ruem, eles já não representam a voz dos excluídos, o clamor pela inclusão. Agora é mais a voz da raiva a que se junta o frémito do poder das ruas e muita testosterona. Os sinais foram sendo dados em crescendo. Um deles ia-me dando cabo do ouvido. Estive em Paris, este ano, coincidindo a minha passagem com as comemorações da tomada da Bastilha. Após os festejos e o fogo de artifício, oficiais, inúmeros jovens quiseram acabar a festa à sua maneira: com perigosíssimos rebentamentos pirotécnicos numa comemoração irónica que hostilizava transeuntes e forças de segurança. Mas estes já foram os últimos sinais. Na base de tudo: racismo (bem sucedido na marginalização dos filhos dos imigrantes) e fracasso semiológico (desgraçadamente só Le Pen percebeu o filão da falta de encaixe social). Isto já não é conversa, é ferida. Agora, cabe começar das ruínas e tentar ler as feridas.

Paris I


Políticas de integração social sensíveis à diferença cultural e promotoras de igualdade de oportunidades. Não me desagrada esta doutrina. Simples, só em aparência ― bem sei.
Ressalve-se que nela a sensibilidade à diferença cultural não equivale à benção acrítica de toda a diferença. Significa, outrossim, primeiro, a assunção da fertilidade de outras mundividências que acrescentam à nossa. Segundo, o reconhecimento de como as crenças e valores se podem tornar (e se tornam) entranhadamente estruturantes das coreografias existenciais. Terceiro, a impossibilidade de se operarem transformações culturais brandindo a iluminada superioridade dos de cá (como estratégia que vise, por exemplo, combater a subjugação feminina no mundo islâmico). Quarto, a insensatez de medidas discricionárias aplicadas em nome de uma identidade ou legado nacional (de que a relação entre laicismo francês e o véu é exemplo predilecto).

Dito isto, tem sido para mim bizarro notar como, mesmo nos discursos mais progressistas, o imperativo de acolhimento sábio aparece cumprindo, à vez: uma urgente engenharia social para minorar conflitos, um desígnio económico em face da necessidade do trabalho dos imigrantes, um imperativo de generosidade do primeiro mundo para com os das mais pobres origens.
Não obstante a valia destes argumentos, inegável, tenho para mim que a bondosa solidariedade e o calculismo dos custos-benefícios terão que se pôr na fila, bem atrás da imensa dívida histórica produzida pelos colonialismos (e seus sucedâneos) na exploração, subjugação e achincalhamento. Portanto, eis a desafiante questão que a Europa deveria pôr, uma questão que demonstraria alguma memória, para não dizer vergonha na cara : Não seria obrigação acolher os imigrantes mesmo que tal baixasse os nossos níveis de vida? (E sublinho o mesmo que, dada a inverdade que sustenta.) A justiça é um conceito histórico. Até passamos bem sem Wallerstein para perceber óbvio: aquilo que a riqueza europeia deve ao colonialismo não é mensurável com o que o que caberia à Europa propiciar às comunidades imigrantes. Não é dádiva, é dívida.

Dos filmes eleitos

Bitter Moon
O mito cantado:
Você vai me seguir
Aonde quer que eu vá
Você vai me servir
Você vai se curvar
Você vai resistir
Mas vai se acostumar
Você vai me agredir
Você vai me adorar
Você vai me sorrir
Você vai se enfeitar
E vem me seduzir
Me possuir, me infernizar
Você vai me trair
Você vem me beijar
Você vai me cegar
E eu vou consentir
Você vai conseguir
Enfim, me apunhalar
Você vai me velar
Chorar, vai me cobrir
E me ninar

Você vai me seguir
Chico Buarque - Ruy Guerra
1972-1973

Identidade sexual

Fantasiava inúmeros heterónimos enquanto se masturbava mas era sempre o ortónimo que se vinha.

Ironias editoriais

Sempre acolhi com agrado o generoso conselho daqueles que estimam os escritos deste blog ao ponto de os quererem ver coligidos em livro: "terás que tirar aqueles irritantes interlúdios futebolísticos". Dizem-me. Sempre concedi no cuidado. Eis, pois, a inenarrável ironia de uma proposta indecente.

Presidenciais

Nada que eu não tivesse por certo. Mas sim, fica muito mais claro.

Quaresma

Sento-me debaixo de uma bananeira e observo as estrelas. Sintonizo a RDP Africa. Abasteco-me de vento. E estranho, reconheco, mas o deslumbre de uma noite africana pode bem ganhar completude com novas de Pacos de Ferreira.

Eutanásia profética

Dizer que eventos que conduziram à crucificação de Jesus foram meros desígnios proféticos -- actos predestinados apartados do livre arbítrio dos actores -- equivale a dizer que Judas encetou o processo de uma morte assistida, dando, por essa logica, um empurrãozinho à vontade divina. Curiosamente os que com este bizarro argumento des-responsabilizam Judas não são la' muito pela eutanásia, cumpra ela que efeitos cumpra

As mamas da senhora do caju

Não sei se padeço de logocentrismo. O caso é bem prosaico: tenho o incontrolável impulso de fixar os olhos nos dizeres que as pessoas ostentam nas suas vestes. Aconteceu há cerca de uma semana. O último statement que me arrebatou a atenção. Envergava-o uma vendedora de caju (sou um aficionado de sempre, em Portugal ia comprá-lo ao Lidl de propósito). Na t-shirt, sobre o peito da anciã, li, tão simplesmente: “This is not a perfect world”. E com esta dura constatação tapava a senhora as magnas mamas já amolecidas pelos anos e pela adivinhável prole. Enquanto amanhava uns meticais para pagamento pensava eu como as mamas e o texto sugeriam uma sintonia, emparelhando significados em torno da passagem do tempo e da fragilidade das humanas carnes. Fiquei a zurzir o quão sublime e irónico seria o paradoxo se a mesma frase “This is not a perfect world” ocultasse hirtas e jovens mamas. Cem metros nisto, já nutrido por uns quantos cajus, é que se me fez luz: aquelas mamas caídas e envelhecidas não corroboram a imperfeição deste mundo. São, ao invés, um adversativo à citação. Um adversativo mamário. Isto não é um mundo perfeito, “mas”…
De tanto wishful thinking até forjei um amante dedicado para a senhora do caju, o homem que tem naquelas mamas a maior razão para sobreviver à imperfeição do mundo. Fiquei convencido: as mamas da senhora diziam “mas” replicando à T-shirt, Como diriam “mas” se fossem as tais mamas jovens e hirtas. Aquilo que assim olhamos e amamos, cientes da precariedade que a tudo assola, não é um texto sobre a imperfeição mas sobre as possibilidades de redenção. Neste mundo imperfeito, cada qual elege a singular forma do seu “mas”.

Clive Owen

Impressionante. Até no Rei Artur.

Decididamente, James Bond não o merece.

José Peseiro: a alma de um tempo

O modo José Peseiro se arrastou no cargo de treinador do Sporting é para mim paradigmático. Ali se marca o fim de uma era nos jogos de honra que um dia cingiram o mundo do futebol. Tempos houve em que os treinadores vigiavam atentos o infeliz curso das coisas para, quais amantes ciosos da sua auto-estima, agirem em antecipação: importava pedir a demissão antes que se abatesse a humilhação de ser demitido. Nem sempre um gesto nobre no campo dos amores, digníssimo no que toca a futebol. Mas hoje, mister supremo, vemos treinadores, esmagados pelos resultados, despojados de sopro de fé, que se deixam ficar, indecorosamente, acenando aos lenços brancos, tudo para que a demissão penosamente imposta venha permitir chorudo encaixe financeiro. Mas, calma. Lembro mais. Lembro essa dignidade que nem aos amantes. Recordam? A expressão mais comum quando um treinador se afastava era "pôr o lugar a disposição". Um amante pode acabar, fugir, desaparecer, matar-se, mas nunca pôr o lugar disposição. É demasiado doloroso pensar que depois de nós virá alguém prometendo, e quiçá cumprindo, melhores resultados. Mas era essa a consciência que guiava os treinadores a que aqui presto homenagem, e essa consciência representa uma tocante forma de humildade. A humildade de perceber a incapacidade própria, a humildade de perceber que o lugar e as circunstâncias ja não consentem qualquer golpe de asa.
Lembro ainda. Lembro mais. Lembro a narrativa sublime. Um treinador injustamente demitido voltar ao leito do amor para revelar a flor nascida da ferida, flor cujo germe afinal sempre lá esteve. Falo, claro, do título que Bobby Robson foi selar ao Estádio de Alvalade depois de Sousa Cintra o ter sido trocado por Carlos Qeiroz. Nem sempre a dignidade se recupera no lugar onde a perdemos. Com Bobby Robson aconteceu e foi dos enredos mais bonitos que já segui em futebol. Mas perdoem, paro aqui: afasto-me desenfreadamente dos compassos que zurzem os tempos de José Peseiro.

Resignação lapidar

Não pude deixar de reconhecer pertinência aos argumentos dos meus assassinos.

Seu Julinho

(permita que assim responda aos seus comentários por motivo de afundamento de post a que se adenda alguma falta de pudor). O registo que seu Julinho generosamente elege retrata um certo negligé na palavra e, por consequência, uma constitutiva falta de tempo (carência que nutre estilo) para uma auto-flexividade que aquilate coisas como níveis de seriedade. Não podia estar mais de acordo: “os diversos patamares de seriedade, ao serem convocados ao mesmo tempo, auto-curto-circuitam-se, sendo a política total da seriedade a semente da sua dissolução”. A questão profunda é que o tal alheamento das consequências receptoras do texto sabe-se ser fingido, porque, como bem frisava, sob a forma de impetuoso disparate é possível o bem medido proselitismo atento às consequências da representação.
Nesse sentido, a reflexão que circunscreve paradoxalmente os termos de seriedade tanto implode um certo magma de genuinidade como, num outro sentido menos efectivo, inverte (sem subverter) os momentos de seriedade nomeados. Aliás, esta última acepção conforma-se mais com o cuidado de onde germina a escrita: “Eu no futebol sou mesmo assim, não vale a pena levarem-me demasiado a sério”. Ora, mas de facto, este cuidado merece ser percebido, até porque, a acreditar na imersão que o paradoxo visa, seria penoso esquecer que outros momentos existem em que a linguagem do exagero impede consensos acerca de uma razoabilidade crítica ou analítica. O facto viatal é que esse excesso impetuoso coloca-se amiúde em campos férteis para fomentar cumplicidades alargadas (crítica social e achincalhamento de cromos) e onde a forma de paródia pode ser mais valorizada que o conteúdo (política) defendendo-se o autor de responder à oposição normalmente justamente erigida a um discurso onde se denota proselitismo (acontece quando este realizado na costumeira forma proselita: o bem fundamentado argumento persuasivo).
O problema é que no futebol esse consenso e o gozo da paródia discursiva não é vivido da mesma forma. O futebol é levado a sério de uma tal forma que se pode temer a criação de antagonismos apaixonados onde, ao contrário de outros momentos, a forma “excessiva” do discurso irrita mais do que diverte. Portanto, a afirmação paradoxal da seriedade futebolística é ao mesmo tempo o reconhecimento do campo minado de paixões em causa e, como bem frisa, uma exposição à dissolução de seriedade de todos os conteúdos. Mas questione-se se esse risco não aparece ele também dissolvido pela reflexividade que manifestamente oi permite, senão promove, pelo que reitero a surpreendente eficácia discursiva do dito.
No entanto, é na afirmação de “efeitos que pretende extrair (mas que pos-modernamente não pode controlar)?” que reside o carácter mais importante da auto-reflexividade que assim se afirma impotente. Ou seja, a reflexividade que convoca diferentes níveis para diferentes tipos de escrita sabe-se agonística pela insubordinação barthesiana dos leitores sempre dispostos a matar o autor no processo de acolhimento interpretativo. O querer ser levado a sério numas instâncias e querer ser relativizado pelo lúdico noutras é, como provam as reacções ao flanar analítico dos seus comentários, o sonho molhado dos autores em busca da determinação dos efeitos do discurso. Portanto, Julinho, de exibicionista equivocamente chamado, totalmente de acordo: estas trocas que aqui se trazem são mais sobre impotência do que sobre outra coisa qualquer. Assunção a que não é alheia uma certa aspiração a um eunuco bem instalado perante as condições de impossibilidade que vida deliberou.

Topos fabulados

Falam de amor os anos que passam na Rua do Girassol.