Alguém a salve



Confia. Eu sou romântica. Não falto.*

*Natália Correia

Intentos

Um dos meus objectivos na vida é ir a um beberete e não me embebedar. Bebedeiras controladas é certo. Mas, percebam, nem que seja levemente, acontece-me sempre. Não sei. Acho que há nesses momentos pomposos o germe de um deslumbramento infantil ou proletário que não passa assim. Não resisto à ideia revolucionária de que uma vez no palácio de inverno mais vale aproveitar as bebidas à pala.

Arte e Média

Defesa de Merda. Dá para o campeonato, mas na Liga dos campeões basta um sopro. No sector recuado opções ténicas e contratações omissas, tudo errado. Não sou nenhum Copérnico: detesto ter razão quando as coisas são tão óbvias.

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(...) olha, acho que estou a ficar sem bateria, se deixares de me ouvir é porque.

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Na prática, isto significa que Sokota corre o risco de nunca mais poder jogar futebol, ver ambas as pernas amputadas ou, até, na pior das hipóteses, ter que regressar ao Benfica. aqui

Regresso


Até a guerra tem uma ética. Até a guerra tem a convenção de Genebra. Apenas a tampa não tem uma ética. As pessoas são amadas e tratam quem as ama como macaquinhos amestrados.
Pedro Mexia
Bem piores que as tampas, quero crer, sãos as "alianças" alicerçadas nesse mesmo vazio ético. Muitos são os namoros e casórios que assentam numa lógica de vassalagem, neles sendo facilmente descortináveis os papéis de amo (amado) e "amador" (vassalo). O amo está lá porque se sente aconchegado nos confortos (emocionais e outros) do amor servil. Já o vassalo, e aqui jaz a triste ironia, cingido ao amor, é o único que alimenta um imaginário romântico, é o único que a vida traz junto de quem ama. A estrutura da opressão depende desse incansável apego. Apego romanticamente elaborado, não pela natureza da relação, mas pelo investimento sentimental de uma das partes. E assim, caro Wilde, e assim se vão cavando as comunicações privilegiadas entre valas e estrelas.

Lullabys de possibilidade

Percebo pelos ricochetes das coisas que aqui vou escrevendo: sugiro ser personagem algo triste. Não é verdade. Bem o oposto. Sou, isso isso, amante de uma estética depressiva que vai bem com as tristezas e perdas que ja vivi e que, inevitavelmente, aqui e ali, vou vivendo. Na verdade, quando a tristeza é demasiado funda, raro, não a consigo estetizar, fujo, evito escritas, danças que convoquem o espectro dos tangos últimos. Ausento-me. Embalar a melancolia é um luxo que só a generosidade dos deuses nos permite.

Alguém o ampare


Paris Station. Casablanca

Alguém lhe explique


Dr. Zhivago

Eleições Cleptocráticas

Decisiva para uma candidatura eleitoral será sempre cobertura mediática que alcança. Pelas estratégias de marketing que por aí se espraiam poucas dúvidas restam: para ter como garante a atenção servil dos jornalistas o melhor mesmo é ser arguido num processo judicial. Isaltinos, Avelinos, Velentins e Felgueiras que o digam. Bem, mas, lá está, aqui começam as desigualdes a que já aludia Marx. Como nem todos têm acesso aos meios de produção dos crimes de colarinho branco -- para isso é preciso tomar o aparelho autárquico (não é automático, mas quase) -- as injustiças tendem a perpetuar-se. Contudo, os canditatos ainda-não-arguidos que careçam de processos para atrair a atenção dos media não deverão desesperar. Serenos. Poderão sempre partir umas montras, deixar o carro mal estacionado ou queimar a bandeira portuguesa. São crimes menores e sem o prestígio de outros, mas, enfim, todos os candidatos-estrela começaram por baixo. Os empreiteiros e os clubes da bola vêm depois.

Henri Cartier-Bresson

Esperar ou vir esperar querer ou vir querer-te
vou perdendo a noção desta subtileza.
Aqui chegado até eu venho ver se me apareço
e o fato com que virei preocupa-me, pois chove miudinho

Muita vez vim esperar-te e não houve chegada
De outras, esperei-me eu e não apareci
embora bem procurado entre os mais que passavam.
Se algum de nós vier hoje é já bastante
como comboio e como subtileza
Que dê o nome e espere. Talvez apareça

Mário Cesariny

Companhia


Fechou portas um dos mais notáveis espaços da nossa blogosfera. Fica aqui a minha vénia para a qualidade e afinco com que o Rui M. P. tão longamente nos brindou.

O resto é com os mosquitos

Consentindo nas profecias do não acontecimento da medicina, probabilísticas e precárias no que toca às prioridades do terceiro mundo, engoli ontem o primeiro comprimido para a malária.

As violinistas de Varsóvia



Da sobrevivência à busca de público, os artistas de rua cumprem vários desígnios. Em Varsóvia três raparigas adolescentes tocavam violino sentadas no passeio. Era óbvio que, alheadas de algum fito maior, as raparigas ali estavam meramente como forma de amealhar trocos para férias ou investidas na Zara. O propósito seria mundano, mas, indiferente às motivações das suas criadoras, os violinos, magistralmente tocados, lá gemiam, mágicos, chorosos. A música tinia fundo e eu, disfarçadamente atento, ouvindo-a, preparava o imperativo ético de uma moeda. Entretanto passou um senhor, maltrapilho, alcoolizado, ar vagabundo. Demorou-se. Emocionou-se. Deixou uma moeda. Provavelmente uma das poucas que teria. Provavelmente amealhada na porta de uma qualquer igreja.

Estranha transacção: um mendigo que subsidia férias e echarpes de três adolescentes. Mas a transacção fundadora foi bem outra. No enleio da música algo de bem fundo e insólito se terá comerciado nas memórias daquele senhor mal vestido.

Para quem se habituou viver pedindo, a moeda deixada num aparente despropósito de possibilidades financeiras constituiu a reposição cénica de uma dignidade perdida.
A coragem de embalar a desgraça, uma moeda no bolso, a nossa música, a dignidade de tomar parte na dádiva. Tudo aquilo que a biografia definitivamente rouba, às vezes volta, assim, por instantes, em golpes de asa.

Fétiches culturais

Um amigo meu falava-me do efeito de atracção em si produzido pelas aparições televisivas da Anabela Mota Ribeiro. “Eu sei que ela não é assim tão especial”, dizia, “mas mexe comigo… acho que é todo aquele ambiente livresco, os óculos de massa, as entrevistas em francês…”
Tentando perceber as raízes de tão tortuoso fascínio, não pude deixar de pensar nas continuidades entre o efeito Anabela Mota Ribeiro e um fenómeno mais amplo que vai ganhando significativa relevância. Refiro-me ao crescente recurso a motivos culturais/intelectuais no comércio sexual.Prova? Basta abrir os jornais e ver a profusão de sociólogas, filósofas, e leitoras de Barthes (pronto, estas nunca vi) que aparecem nos anúncios de encontros sexuais pagos.
O património cultural ou o ambiente cultural em que alguém está inserido aparece-nos cada vez mais como chamariz para a coisa libidinal -- naquilo que é um interessante revivalismo da lógica das mulheres de Atenas. Findo o tempo em que a opinião pública e política dos intelectuais respeitados, a la Satre, era dramaticamente ouvida, cumprindo um proeminente papel no curso da sociedade, hoje o vago papel das pessoas da cultura aloja-se muitas vezes no epíteto acusatório de masturbação intelectual. No entanto, agora que o capital da cultura e da intelectualidade migra para o capitalismo sexual, assumindo cada vez mais o papel de fétiche sexuais, a masturbação intelectual dá lugar a uma dimensão convivial do sexo. Temo que os livros e os óculos de massa venham a assumir na nossa sociedade uma função semelhante aquela que é hoje ocupada pelos chicotes e pelas algemas.

Usucapião act.

E um belo conceito juridico que fala das coisas a que ganhamos direito por longo e reiterado uso. Perola. Ja ca volto para os mais que justificados devaneios.

Sem cedilhas

O drama das viagens e percebermos numa geografica concretude as tantas outras vidas que nunca viveremos.

Silencio mal disfarcado. Torrente para breve.

O soninho dos justos

No aviao ele adormece sobre o colo dela. Os seios proximos, apertados contra a lycra, mum mesmo tempo amparam turbulencia e prometem turbulencias outras. Com uma mao ela, terna, afaga-lhe o cabelo. Com a outra vai virando as paginas do codigo civil. E' nestes pequenos gestos que vemos a ternura dos amantes. Nem todo o lirismo se coreografa na margem da lei. Nem todos os juristas sao frivolos.

43/44

Não se preocupe, a sapatilha dá de si.
"A sapatilha dá de si." Desta vez o dito corriqueiro ficou-me. Dá de si. Estranho encontrarmos uma expressão tão bela no comércio do calçado. Não sei se a engenharia de materiais está preparada para acolher as consequências simbólicas de um "corpo" que em prol de outro "dá de si". Fiquei-me inevitável. A matutar no que dei de mim. No que dou de mim. Curiosas ideias me passaram. E nisto eu estava. Mas a rapariga da sapataria é que não estava para lirismos: "Então? Quer que vá buscar o acima?"

Metaphors we live by

Metaphors we live by. Trata-se de um livro escrito a 4 mãos por George e Lakoff Mark Johnson (isto presumindo que o bateram no computador, isto presumindo que ambos usam as duas mãos para dar conta do teclado. O resto. O resto foi só fazer as contas. Um prodígio. Eu sei). Quando estes dois senhores se juntam para escrever a "coisa" acontece. Se eles escrevessem um livro sobre receitas de sushi eu comprava (e o que eu gosto de sushi...aahhrrrg). Não vou falar da argumentaria deliciosa, não me deterei em odes à escrita persuasiva. Apenas. O título. Minhas senhoras. Meus senhores. Este título!

Is the concept of love independent of the metaphors of love? The answer is a loud No! The metaphors for love are significantly constitutive of our concept of love.
Podemos prescindir da poesia, dizem, mas as operações mais básicas do nosso pensamento carecem de metáforas para pôr carne numa ideia. O pensamento recorre às codificações metafóricas como estratégia de sobrevivência. Flores, é o que é. Inevitáveis. Flores. O "patétrico" da existêcia ganha substância filosófica (desgraça: notem como substância remete para uma metáfora corpórea).

Soares e Alegre

Entendo que o que se passou com Manuel Alegre só poderá ser cabalmente entendido à luz da interpretação messiânica. Vejamos. Para muitos Soares constitui algo próximo a um messias da democracia. Demos de barato para gosto do argumento. Ora, Alegre, a voz de Argel, surge assim numa situação liminar. Ele poderia incorporar tanto o papel de apóstolo como o papel de profeta. É nesta indecisa tensão que podemos captar os eventos recentes. Ao apóstolo caberá assumir o devido protagonismo após o ocaso do Messias. Já do profeta espera-se apenas abnegação pessoal em prol do eleito. Até ao fim. Foi o que fez João Baptista, o profeta contemporâneo de Jesus, que, malgrado os seus seguidores, cedo entronizou Jesus como o maior que ele, logo se remetendo à condição de anunciador.

A questão é que a certa altura Alegre leu-se como apóstolo e, portanto, sentiu que era chegado o momento de desempenhar o lugar que lhe cabia, consumada que estava morte política do messias. Não soube perceber, ou percebeu tarde, que a fatal eleição de Cavaco Silva germinou no PS uma expectativa messiânica. E assim sucedeu a ressurreição de Soares. Neste cenário a voz de Alegre ficou condenada a ser uma voz profética: a voz que na longa história é presságio anunciador de uma outra. Ficou ferido o orgulho do apóstolo que Alegre julgou ser. Quanto a Soares, Messias reempossado por amplos seguidores, veremos se consegue assumir o sentido literal do eleito.

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Crónica de um arrastão. Nova Orleães e o racismo nos Media. aqui

Essa tarde parada, por exemplo.*


Foto de Ian Jones

*Café do Molhe, Manuel António Pina.

Os trunfos de Soares

As crónicas de Luís Delgado a favor de Cavaco.

A vida e o verso

O homem consegue adpatar-se a tudo aquilo com que a sua imaginação consegue lidar, mas não consegue lidar com o caos. Qualquer sociedade primitiva tem rituais diários incorporados nas suas actividades quotidianas porque se torna necessário reasseverar a questão moral do reconhecimento da sua condição cósmica. O que vem, vem, e o que é importante é que lhe dês algum sentido. A história não se repete, mas o que é certo é que rima.
Cifford Geertz, Frazer Lecture, minha tradução
Na religião, na narrativa biográfica, na história, na psicanálise, na poesia, encontram-se algumas das rimas que conferem sentido à dissoluta cadência do existir. "A história não se repete, mas o que é certo é que rima." Domesticamos o que acontece com os nossos esquemas de inteligibilidade. A imaginação nasce deles, e nunca lhes escapa totalmente: "Imagination is not unbounded". Onde tu vês uma árvore eu vejo também a morada de um antepassado. Se essa árvore arde acontecem-nos coisas diferentes. O importante que isso rime com o modo que fomos vendo por aí as coisas. A crescer. A arder. O importante é que possamos imaginar sair do que se passou. E para isso é preciso imaginar saber o que sempre se passa. O que vem, vem.