Coisas que nos fazem pensar

Dias da Cunha apoia Soares.

Presidenciais

Bloco e PC. E agora?

Manuel Alegre

Por vaidade fez de si uma fraca figura.

De Salazar a Scolari

Depois da ditadura e do colonialismo, é Scolari que leva a violência do despotismo autoritário para a iconografia da nação. Este país já merecia que as pessoas fossem respeitadas pelo seu valor, independentemente das suas origens. A exclusão de Baía da selecção é, pois, representação emblemática de um país onde a meritocracia e a justiça social capitulam perante o compadrio, um país onde tantas vezes parecemos perder a capacidade de nos indignarmos com a pulhice instalada. Baía, ao contrário do que lhe chegou a sugerir Mourinho, nunca renunciou à selecção, assim mantendo vivo, no seu silêcio, o ideário de uma "legalidade ferida". Há valores maiores que a nação, ou por outra: a nação merece valores maiores. Seria tempo de eles estarem representados nos símbolos que mais fortemente representam o imaginário (ou a imaginação) nacional. Recusar acompanhar o hino que agora embala o épico da injustiça scolariana não é anti-patriotismo, é a assunção solene (e exuberantemente simbólica, bem sei) de que é outra a pátria que sonhámos. No dia em que o Scolari der uma razão válida para não convocar Baía, calamo-nos. Até lá sejamos, alternativamente, atenienses, gregos, e cidadãos do mundo.

Ana Sousa Dias

Excelente entrevistadora, diz-se. Curioso, por muito que me interessem os convidados sou incapaz de acompanhar uma entrevista dela até ao fim. Aquele "estilo" de entrevista revolve-me o interesse em algo só passível de ser resgatado por uma espátula. Mas, dado que foi canonizada como a entrevistadora da televisão pública, devo ser mesmo eu.

Against falologocentrism

Deliciosa écriture maternal em tão insuspeita casa.

O efeito Figueiras


Depois de alcançar a titularidade à boleia da exclusão administrativa de Nuno Valente, César Peixoto bisou ontem apontando os tentos que valeram a vitória do Porto. Segundo aquilo que nos é dado a acompanhar pela capa da Nova Gente, supõe-se que o momento de forma do Peixoto esteja intimamente ligado à motivação achada na "palavra amiga" da sua noiva, Isabel Figueiras. Será que as/os sportinguistas são mesmo assim, altruístas?



Três vacinas depois

Qual prestável garçon, o senhor de óculos e bata branca deu-me o catálogo das várias formas de morte que me poderiam esperar. Minutos depois fui deslocado para uma sala onde vi alinhadas várias agulhas a salivar pelos meus braços. Não, não foi ainda a última caminhada. Chamam-lhe eufemisticamente "Consulta do viajante".

"Fique com o troco"

A rapariga não quis receber os dois cêntimos: “Deixe lá estar isso”, disse.
Não foi generosidade que se ficou com o troco, percebeu-se pela voz lassa, foi uma desistência profunda de tudo. “Deixe lá estar isso”. Assim mesmo. Estávamos na pastelaria e ela tinha comprado um bolo cheio de creme e 2 pães. Só os solitários condoídos compram dois pães pela manhã. Se lhe entregassem o boletim premiado do euromilhões certamente diria «deixa lá estar isso» com a mesma indolência de alma com que um dia se deixou cair. Adivinhamos. Pedi um Ice Tea e esperei pelos poucos cêntimos de troco. Não por convicção, mas não quis deixar sinais de negligência para outros devolutos desta vida

Silêncio

A superioridade moral dos portistas afere-se no silêncio sobre as falhas dos outros, no reconhecimento de que há um ser humano em cada guarda-redes e na asserção informada de que ninguém está livre dos seus momentos. A imortalidade de Baía, esse homem que também falha, fez-se de muitas mortes e, sobretudo, de muitas tentativas de homicídio. Foi a capacidade de resistir à desgraça e à crueldade de muitos que lhe concedeu o estuto sobre-humano que os anos fracassarão em apagar. O modo como muitos o vilipendiaram, anos a fio, vigiando a mínima falha, negando-lhe a honra e o valor, cristalizou a imagem que talvez ele não mecesse, a imagem de um jogador transcendental, um ícaro cuja ousadia de voar comoveu o amparo dos deuses. O Ricardo, esse, precisa agora do apoio daqueles que ainda há uns tempos o carregavam em ombros. O apoio que nós deste lado nunca deixámos de dar ao nosso herói.

Para este Ricardo.

Ligia*

Há tempos um amiga minha contou-me que acabara com o namorado após uma relação de anos. Não aguentava mais. Demasiada exigência, demasiada pressão, demasiado conflito, demasiada incompatibilidade. A verdade é que a inevitabilidade desse desfecho era há muito exuberante. A única dúvida para mim, como para os demais conhecedores das danças do casal, estava em perceber como é que ela tinha aguentado tanto tempo de irremediável infelicidade. Mas, já se sabe, quando o amor é invocado os esquemas de inteligibilidade são outros, liças onde as questões do costume deixam de fazer o mesmo sentido. Quem descreve um sentimento ou uma relação socorrendo-se do ideário romântico -- o idioma da moda nos últimos séculos -- logo deve à coerência narrativa o imperativo de dar tudo por um amor. Tudo bem. O problema é outro: muitos há que, quando já não conseguem honestamente acreditar nesse amor, se obrigam a lutar; lutam aquele suficiente para poderem desistir com a consciência tranquila. Era por isso que a minha amiga lutava há muito, pela sua consciência. Uma consciencia exigente. Ficou-lhe a dor e essa estranha paz: a paz romântica de ter dado mais do que podia.

*nome ficcional

Fins

Se houvesse algo parecido com um «Notícias da Blogosfera» lá constaria, estampado em letras garrafais: PEDRO MEXIA E FRANCISCO JOSÉ VIEGAS ABANDONAM. Mas a mim, a mim pouco me dizem os cabeçalhos ou os «notáveis» da praça. Indiferente a esta sangria? Longe disso. A visitação do Fora do Mundo e do Aviz ocupava lugar solene nas minhas derivações pela bloga. E isso sim, isso ocupa-me alguma tristeza. No entanto, ficando por apurar o quanto há nisto de wishful thinking, acredito que este êxodo redundará no «regresso de dois estranhos». Vejamos.

Cumprindo o desígnio da abraçada diáspora, no ritmo descompassado das suas viagens, FJV sempre retornou à escrita do Aviz. Mais belicoso na bola e nos arremessos da política brasileira, voz sempre indignada perante a «crueldade de acolhimento» servida aos emigrantes, atento e irresistivelmente militante na atenção prestada aos temas israelo-judaicos, sempre deixou, na espuma das letras, a ternura das palavras, a adivinhada candura de um charuto fumado sob a lua, esse jeito de quem sempre volta para perguntar pela noite. Esta será apenas mais uma viagem até que a noite convoque um dos seus eleitos ao lugar de ancoragem.

O Pedro, pelo «intimismo de risco» que pratica na continuada invenção/exposição de verosimilhanças pessoais, nos desabafos gizados como quem descalça a bota antes de ir para a cama, é talvez ─ quando considerada a genealogia com o Dicionário do diabo ─ o meu blogger preferido. O abandono de Mexia, por um lado surpreende, por outro não é de levar demasiado a sério ─ arrisco ciente que o meu tom assertivo mais favorece o efeito de uma profecia que não se cumpre. Mas explico. Aquando da publicação do livro que deu materialidade ao Dicionário do Diabo pôde-se temer que a escrita online havia terminado com esse epílogo na gala do papel. Perante essa perspectiva o fim dos posts diários e o delete do Dicionário dificilmente surgem separáveis da desconfortável sensação de que um «projecto curricular» se havia cumprido, sedimentado que estava no Fora do Mundo (livro). Ora, todo o registo do dicionário, longe de se tratar de um espelho de alma ─ ressalva importante ─ sempre cativou pelo modo como o seu autor ali parecia estar implicado num jogo sem chave de «semiótica biográfica», e numa reflexividade ─ fosse a pretexto de livros, cinema música ou transeuntes ─ ostensivamente passional no modo como parece germinar do profuso manto inspirador das angústias pessoais. Portanto, ao mesmo tempo que esse registo intimista de risco jamais poderá ser confundido com a exposição da intimidade, a possibilidade de após o livro ocorrer uma desvincução pessoal automática podia sugerir um pragmatismo excessivo na relação com a escrita. Portanto, os arquivos arriscavam ser apreendidos por um renovado olhar onde a noção de ficção biograficamente informada deixava lugar para um sentimento retrospectivo de «farsa». Ou seja, para o intimismo do Mexia resultar cabalmente é tão necessário que se perceba que o blog depende de perto da vida e dos estados de espírito de quem o escreve, como necessária é a persuasão de que, em certa medida, o próprio autor depende do blog como espaço para uma escrita pública não formatada, não constrangida do ponto de vista temático, e com uma forte compleição narcísica. Assim postas as coisas, a equação livro-publicado=fim-do-blog deixava um certo travo de farsa, dado estarmos perante o êxito de um registo cujo capital central era exactamente uma forte implicação pessoal.
Por isso, o Fora do Mundo, na assiduididade escrivinhadora do PM, veio repor, para lá de uma qualquer calculismo livresco, essa ideia de uma co-dependência entre blog e autor, ideia que o lastro da escrita sempre havia insinuado. Entendo que o atractivo da história de bloga do Pedro carece da ideia de que o blog cumpre um papel identitário importante como espaço para aleitamento de angústias, auto-depreciações, e reflexões biograficamente dotadas. Quando Mexia deixar de blogar ficaremos com a ideia que um homem razoavelmente resolvido foi à sua vida. Ora, essa hipótese molesta de morte a memória do Dicionário do Diabo e do Fora do mundo. Dependa ou não o Mexia de blogar, a verdade é que a sua estética depende da ficção dessa necessidade. Voltar será, por isso, um imperativo de estilo.

Até já, caros.

Dormir assim


Artes de fogo

Trágica ironia: o pôr-do-sol surge singularmente belo posto um dia em que o fogo se entretém a consumir verduras e casinhas. Desconheço se entre pirómanos, imobiliárias e governos displicentes há estetas investidos no culto ao sol que se põe. Hoje, enquanto bombeiros, residentes e pássaros deambularem no desespero do grande cinzeiro europeu, um punhado de homens estará sentado junto ao rio a ver o sol pôr-se. Vermelho. Belo. Ah, país de poetas!

Com a bênção do novo papa 400 mil jovens de todas as nações estão reunidos nas jornadas mundiais da juventude. Assim à distância, é de supor que a organização não tenha tido a preocupação de distribuir preservativos -- mais facilmente o Manuel Alegre conseguia assinaturas para se candidatar à Presidência de República. O fenómeno da fé cristã não me perturba, pelo contrário, até porque, devidamente despida da ganga conservadora e institucional, a acarinho na minha subjectividade. Já a fé na castidade de 400 mil jovens católicos, amotinados em êxtase, nuns poucos quilómetros quadrados, é algo que está para lá da minha sensibilidade transcendental. É uma forma de fé que só está ao alcance da hierarquia católica, dirão, justamente, os seus acólitos.

A auto-imolação como vaidade

Para muitas pessoas a auto-comiseração trazida por um abandono confunde-se, talvez secretamente, com esse desejo impossível de imitar quem parte. É uma espécie de tranquilidade relacional -- a assunção de uma inevitabilidade -- nutrida pelo desassossego auto-reflexivo. Como quem diz: "Compreendo que me abandones. Na verdade invejo-te. Eu terei que viver comigo até ao fim." Pergunta-se: precioso catalizador de mudanças para que cicrano não se repita relacionalmente naquilo que dele menos aprecia? Talvez. Concedo. Mas, por outro lado, e isso é curioso, esta inveja pode corresponeder a algo de insuportavelmente ego-centrado, assim reverta para esse antigo e inacabado projecto da negação do eu. A vaidade também é isso.

Sejamo-lo

É de todo em todo desanconselhável ler poesia antes de ir jogar à bola. Percebi-o no último jogo. A certa altura, depois de ter deixado dois defesas para trás com a finta 17, confronto-me com o guarda-redes. No preciso momento em que vislumbro a baliza expectante, um assomo de lirismo pessoano invade-me: "Eis o momento, sejamo-lo, para quê o pensamento?". Lembro este chamamento e sou acometido por uma vontade de ser o momento. A vontade de coreografar a minha existência num golo merecedor. Ironia. É que ao evocar tal linha já estava a pensar, e o momento... foi-se. A bola foi recolhida pelo guarda-redes que se atirou com sucesso aos meus pés. Mal saberá que foi salvo por um verso.

É claro que eu podia ter falhado a baliza no curso natural das coisas (muito provável). Mas, se as palavras cintilantes não nos salvam do fracasso -- e não -- pois então que nos ajudem a dar-lhe redentor sentido.


Muitos posts no caderno de apontamentos (AKA cabeça). Volto Breve.

Co

O Jorge Costa é o quinto central do Porto. Quem o diz só pode ser uma besta. É-o até averiguações mais precisas. Pena que lhe tenham dado uma equipa para treinar. Detesto déspotas revolucionários que julgam que a genialidade técnico-táctica tem que ser contra-intuitiva. Que sejas feliz com essa defesa. O pior é que do resto até estava a gostar.

Em busca do mar. Por lá postarei. Até já.

A ansiedade infantil perante o mamilo.

Uma das marcas da juvenília contemplativa revela-se no modo como alguns homens fitam, em indecorosa falta de pejo, as pistas das mamas precariamente refugiadas sob tecido veranil. Deve ser desagradável manter conversa com alguém que privilegiadamente entabula diálogo visual com as mamas. Por outro lado, o não olhar de todo é uma falta de educação: sobretudo se o top for giro. Penso que o acordo social que vigora nos remete para estes termos: importa fingir indiferença ao corpóreo* de tal modo que, olhando fixamente nos olhos da "senhora das mamas", se perceba que essa fixação continuada não se faz sem um certo desvio do olhar. Ou melhor, importa que se perceba que os olhos são centro nobre e subjectivo de um sistema comunicacional que disputa com os mamilos, os seus mais notáveis epicentros.
*Corpóreo aqui recebe um sentido de carnal, numa oposição que recolhe da inventada não corporalidade dos olhos, porque tidos como espelho da alma.

Mundanidades que partem o tempo em 2

Hoje, pela primeira vez, recebi um mail ... da minha mãe.

Comércios

Sabemo-lo. A blogosfera é um meio que namora o registo intelectual. Ora, fica bem ao registo intelectual um alheamento dos comércios da vida. Só assim se explica que ninguém use o blog para vender o carro, arranjar férias, alugar casa ou vender móveis. Quando muito aparecem uns quantos a procurar aquele livro ou aquele filme.

Os silêncios que nos habituamos a tomar como naturais dizem muito sobre as lógicas dominantes por aqui instaladas, a partir de uma registo marcadamente intelectualista.

Deitar os búzios

A submissão ao tangível destrói
o sonho da linguagem. Luís Quintais
Haja Quintais. E que dizer, por exemplo, da memória das línguas que se tocaram em tangíveis coreografias? As línguas -- que não as outras -- rugosas e vermelhas com gosto a pastilha de canela. Não é isso submissão a um tangível numa linguagem onírica? Dir-me-ão fugaz a memória do tangível. Falarão do estatuto já-espectral do ex-palpável (ou docemente apalpável). Matéria volúvel posta ao uso das descrições que dão carne à nossa história. Muito bem. Mas bem sabem: as liguagens sonhadas e memoradas perseguem-nos e esmagam-nos tanto quanto são abolidas pelos mundos da vida. Deitando os búzios com a outra mão, poderíamos aventar, ao invés, que o refúgio no tangível -- o prosaico, logístico -- não olvida esse outro tangível, feito real, porque espesso nas suas consequências memorativas, um tangível pós-lapsário que encontra idioma nos sonhos livremente esboçados.
Sob o peso as edificações da nossa tribo, pois.

Homofobia

Já não faltava aquele Solari fartar-se de marcar ao golos contra o Porto e sempre virem as apreciadoras elogiar-lhe as feições e lembrar o seu interesse pela literatura. Estava agora um gajo a ler posts culturais e assim num canto insuspeito e dá com isto. Também tu, Ricardo.
Curioso. Começo a reparar que sou uma espécie muito particular de homofóbico: não consigo reconhecer virtudes estéticas ou outras num gajo que marca golos ao Porto.

Um post de intervenção

Tu. Compra um central. Repito. Um central de classe mundial.
Tu. Metes esse central mais o Jorge Costa. Estás a montar uma boa equipa, mas essa defesa à base Ricardo Costa e Pedro Emanuel é o design avançado do desastre. Quando muito um deles ao lado do capitão. Ainda é tempo. Repito. Ainda é tempo.

A lot like love

Numa comédia romântica as correntes amoroso-libidinais entre os dois actores são decisivas. Foram-no nesta.

De caminho as leitoras (e leitores) irão perceber a razão da quase-pedofilia de Demi Moore: o efeito Ashton Kutcher, logo se percebe.
Os leitores (e leitoras), esses, perceberão o desconsolo que Bruce Willis terá sentido ao contracenar (só na tela) com Amanda Peet.

p.s. É tão engraçada quanto perversa a tendência para as comparações -- "quem é que se safou melhor" -- quando um casal acaba. Por isso admiro os que, fugindo à prova social da superação (leia-se, novo relacionamento) a seu tempo fazem o luto que têm a fazer.