Os machos da Nissan

A Nissan tem uma campanha em que promove um daqueles veículos todo o terreno com os seguintes dizeres:
Para quem pensa que Blush e Gloss são jogadores estrangeiros.
[Fotografia do Jipe ou Pick Up, não recordo]
Para homens a sério!

Ora bem. A questão que me surge interessante é que todos os potenciais compradores, aqueles a quem justamente a quem este anúncio apela, são, segundo o conceito Nissan, homens que não cumprem requisitos. Explico, a mensagem deste anúncio só poderá ser capatada no seu sentido humorístico de masculinidade hiperbolizada e estereotipada se os homens do público-alvo souberem que Blush e Gloss são elementos de cosmética feminina (não necessariamente só). Portanto, este anúncio dirige-se aos homens que, não cumprindo com a desejada ignorância a de factos tidos supérfluos à masculinidade, se revêem num ideal de homem que lhes escapa. Por isso quando virem um tipo a conduzir um desses Nissans, já sabem o muito que ali está em causa, psicanaliticamente falando.

P.S. Já não falo de Blush e Gloss, mas poder dizer a "linha do teu eyliner como meu horizonte" sugere um tipo de "homem a brincar" (para a Nissan) em que me revejo.

Vila-Matas

Depois de ler o Mal de Montano ficou com imensa inveja. Ainda não tinha lido o sufiente para padecer de tão ilustre maleita.

Amor filial

Sou maluco por galões. Nestes tempos veranis dou por mim s ansiar que o sol capitule para recuperar esse prazer Outono-Inverno de um galão quentinho, escuro e com muita espuma. Hoje o verão vacilou e lá estava eu em franca esplanada a beber um galãozinho espumoso. Nas redondezas da minha mesa estava um pai conversando amorosamente com a sua filha, rapariga discreta que andaria pelos 20's. Num registo marcadamente delicodoce falam de banalidades, brincam, trocam beijos e carinhos. "Ó pai vê lá se te livras desse tijolo e compras um telemóvel de jeito!" "sabes que o pai é antiquado e com tanto telemóve xpto para aí este tijolo até tem o seu charme de velharia". E assim seguiam debruçando-se sobre prosaiquices em conversas carinhosamente entoadas. Incapaz de me deter no romance que fingia ler, tudo isto segui meio atónito, meio encantado. Linha ténue. Pais e filhas deste país, se aquilo não era incesto, que vos sirva de exemplo.

Essoutra pele

Desde que acabou o fascismo há muito mais gente a adormecer sozinha. Nesta geração temos, por um lado, os solitários profusamente semeados pela democracia dos afectos, por outro, os vínculos mais tardios ao lar maternal. Mas, como bem imaginam, não é do fascismo que eu tenho saudades.

Piratarias

Saco da net a gravação vídeo de um debate histórico. Chomsky vs Foucault. Local: Holanda. Ano: 1974. O KO assume proporções de escândalo. Vejo-o umas 7 vezes seguidas, deliciado. (É mais ou menos como fazer replay de uns certos 5-0 de uma certa supertaça num certo estádio da Luz.)

Chomsky insiste nos conceitos universais de bem e justiça fundados na natureza humana. Bem se pôs a jeito: a partir daí só gaguejou. Foucault, risonho, numa voz que eu só tinha ouvido em delírio, rebate (primeiro sonante, depois já condescendente perante o adversário no tapete): a justiça não é uma verdade auto-evidente, é, sim, o produto da luta política e epistemológica dentro de determinadas constelações de sentido. Nada podemos fundar na "natureza humana": a contingência sócio-histórica assola-nos: "na ilha da Páscoa as coisas são diferentes". Os operários não lutam pela justiça, como algo prévio, abstracto. Lutam pela sua definição de justiça, ideologicamente e culturalmente caregada, como qualquer outra definição estará carregada pelos desígnios dos seus porta-estandartes.

Faltou a Foucault dizer que determinadas constelações de sentido podem aspirar à universalidade como "ideias que viajam bem" (Harding) sofrendo mutações/articulações pelo caminho. E assim abrimos a porta aos direitos humanos fora dos seus usos imperialistas. Mas Foucault não estava para aí virado. Ele era mais do estilo de deixar tudo em cacos: não há significado sem poder, nós somos já o produto de poderes carcerários e temos uma irresistível tendência para os reproduzir. Já sem inocência, os utopistas que interessam sabem-se, nalguma medida, dignos respigadores dos cacos do pós-estruturalismo.

É o central, estúpidos!

A bonita festa de apresentação do FCP decorreu sem surpresas. Diz a imprensa. O plantel agrada-me bastante, o teinador mais. Mas há algo que não consigo comprender. Surpresas? Eu não queria surpresa nenhuma?! Queria o óbvio. Tão só ... Porque raio é que não se contrata um central de nível mundial. Pois é. Desde que Ricardo Carvalho saiu há um vazio que não foi minimamente amenizado. É natural Jorge Costa e Pedro Emanuel sigam o seu glamoroso processo de envelhecimento e que com isso percam fisicamente (reconheçamo-lo: o envelhecimento é practicamente imperceptível no Jorge Costa). Ricardo Costa é muito bom mas dúvido que alguma vez seja aquilo que se chegou a esperar dele. Pepe, esse nem na esquipa titular do benfica tinha lugar, quanto mais no plantel do Porto... Vamos lá, um centralzinho, please, please...

Aceitam-se apostas


Ritos de ficância

Al promediar la tarde de aquel dia,
Cuando iba mi habitual adiós a darte,
Fue una vaga congoja de dejarte
Lo que me hizo saber que te queria.

Leopoldo Lugones, 1922
Tem razão Lugones. Aquele aperto na despedida ritual revela pela primeira vez a magnitude do querer instalado. Mas faz mais. Vejamos. Na verdade, essa dor iniciática prefigura já a angústia a ser trazida, um dia, por uma despedida não ritual. Aí o querer não é meramente descoberto, antes feito cônscio das suas dimensões absurdas, claro está, para a medida do fim.

Santa Casa

A Santa Casa da Misericórdia criou um gabinete para apoiar os totalistas dos jogos. Como é atenta a nossa Santa Casa dando a mão a esses desamparados! A vocação assistencialista da sociedade civil portuguesa dá-me ternuras. É por monopólios como o da Santa Casa que a distribuição do pastel pela sociedade civil portuguesa nunca permitirá a agilização da democracia participativa e a capacitação das vozes continuadamente excluídas. (Atente-se a como são distribuídas as receitas dos jogos no país vizinho). E assim as transformações imperiosas para uma sociedade mais justa e atenta às diferenças são subsumidas pelo assistencialismo e pelo financiamentode projectos bem comportados, alojados nas entranhas do status quo. Já que andam numa de pôr em causa os direitos adquiridos que tal apontar baterias à Santa Casa? As conquistas pós-revolucionárias já estão fora de prazo, dizem, mas os monópolios vindos de D. Leonor, esses, estão aí para as curvas.

Ouvir (act.)


Esqueçam lá o Mané Galinha, vítima emblemática do Zé Pequeno -- esse vil assassino e violador--, a vítima da violência que viria a ser desgraçadamente incorporada como modo de justiça. Agora é Seu Jorge no violão. Muito bom.

Épicos salvíficos

Justificar cada «triste figura» como homenagem a Cervantes.
in Fora do Mundo

A parte do todo

Não nos declarou a guerra o islão, nem é um choque de civilizações ou religiões. É a declaração de guerra de uma ideologia que utiliza o islão, sequestra-o e tenta apropriar-se dele. De facto, o integrismo islâmico é tão inimigo do Ocidente como é inimigo do direito dos cidadãos islâmicos de viver em liberdade. Pilar Rahola in Rua da Judiria
Nem mais. Poucos param para pensar no islâmico pacífico que todas as manhãs apanhava o metro de Londres para trabalhar. Num certo sentido a vida livre numa cidade cosmopolita acabou. O estigma e o medo que desperta jamais abandonarão os seus passos e passeios. E isso também é profundamente triste.

Esse mecânico que os une

Hoje é um dia especial: eu e a minha mulher fomos à inspecção e as nossas duas viaturas reprovaram. O amor é uma coisa linda.
in Voz do Deserto

Vamos fugir?

Quando as pressões sociais eram mais exuberantes podíamos sempre planear uma fuga da vil sociedade e das suas aleatórias querenças. Hoje as expectivas e os ditames de sucesso assomam como pressões subtis e intrincadas onde os afectos tantas vezes se afundam. O "vamos fugir!" faz ainda todo o sentido, talvez mais. A consciência do cárcere é que se perdeu à medida que as grilhetas dramaticamente se tornaram constutivas das aspirações das gentes. Os planos de fuga merecem-me ardor, mas a esquina, a ilha ou o Brasil não bastam. À sua maneira Heideger e Foucault bem lembravam: seria preciso fugir daquilo em que nos tornámos.

Avisam-me por sms:

"Já saiu Outono-Inverno da La Redoute":

Devo dizer que a secção de lingerie desta revista cumpriu um inestimável papel na minha adolescência. O catálogo é grátis. A responsabilidade social das empresas também passa por aqui.

Paris V


Numa leitura que se ancora na mitologia dos lugares, o destino de Rick e Ilsa pouco teve a ver com o que se passou no aeroporto de Casablanca. Agora percebo. Tudo havia ficado escrito naquela estação parisiense onde uma despedida os consagrou para todo o sempre como exilados de Paris. O modo como deixamos certos lugares deverá acautelar a sua aspiração mística, passível de se revelar na ideia de eternidade negativa: o nunca mais. Casablanca é a representação sublime desta geografia da transgressão; o "we'll always have Paris" é a identificação trágica das fronteiras que recusam levantar cerco à memória. Como no episódio do Sena que vos contei, há sempre um risco mitológico em certas passagens rituais. Por isso, os outros, os que abandonam a estação de mãos dadas, podem com alguma propriedade ser chamados sobreviventes de Paris.

Paris IV

Tal é a panóplia de artefactos culturais que se foram prostrando na celebração de Paris que se torna praticamente impossível falar dela sem cair nos clichés mais que profusos. No entanto, a salvação existe. Tenho para mim que a ansiedade da vulgaridade e da repetição se concilia com esse estranho sentimento de singularidade. Como? Aceitando tão-só que tudo o que nos resta, e não é pouco, toma o nome de apropriações criativas. Refiro -- com este cliché nas minhas reflexões -- os modos de tornar "nosso" aquilo que é e foi património de tantos. Sobre Paris, não lograr um cliché é inventar (sentido pejorativo) ou passar ou lado. Por isso, reinventar humildemente as geografias do deslumbre é já criar universos de sentido, colisões de corpos e lugares que recapitulam a coreografia dos começos.

Paris III


Dans le Noir é um restaurante conceptual que sita em Paris nas proximidades do centro Georges Pompidou. A ideia é simples: as refeições decorrem na mais completa escuridão e são servidas por pessoas cegas. Sugere-se um centramento no gosto da comida pela omisão dos estímulos visuais. Mas, até porque a comida nem é o ponto forte daquele espaço (nouvelle cuisine não me comove), naquela sala escura o que mais fica é a temporária partilha "do modo de ser no mundo" com as pessoas cegas que simpática e desembaraçadamente servem os comensais. É, a todos os níveis, um desafio sensorial. A fenomenologia servida à mesa. Merleau-Ponty seria fã. Fica o desafio.

Regresso

Depois do silêncio vagamente entrecortado adivinho algo próximo de uma torrente de posts. Até já.

Paris II

Passseio junto ao Sena. Pessoas e momentos fascinantes disputam, como bençao, o testimonio das aguas correntes. O tango e o vinho partilhado sobre a calçada ilustram os ensejos que ali se espraiam. Sigo leve. Seguia. Melhor dito. Um momento perturbou-me o sossego flaneante. Olhava eu para um casal lindissimo quando, na descompassada coreografia de um gesto, vi o fim da historia daqueles amantes. Isso mesmo. No momento em que ele largou a bebida para a abraçar ela largou tudo e ofereceu-lhe os braços. Mas o olhar, esse, so eu e o Sena o vimos.

Nao sei como descrever, os olhos dela fugiam dali numa melancolia estranha. Sem nome ainda achado, quero crer. Sei que parto de muito pouco, peço-vos, ainda assim, que acreditem no que dali se me fez luz. Aquela mulher sentada junto ao Sena, sorvendo o vinho e poesia, abraçada pelo seu mais que tudo, sentiu que acordara definitiva dançando nestas palavras que roubo de memoria a Duras: Estava la tudo, mas nao valia a pena. Esse olhar doeu-me. Sobretudo por saber que naquelas margens todos os outros olhares se dedicavam a efabular eternidades. Um deles era o do rapaz que a abraçava. Mas esse eu ja não vi.

Paris

Eu sei que é estranho. Mas, em bom rigor, estou em Paris com propositos não turisticos. Conferencias e "trabalho de campo" tomam a parte de leão do meu tempo. Valem-me as aspas. Apontamentos para breve.

Partir

Parto daqui a poucas horas. Estarei uns dias na cidade onde eles foram felizes.

Conto com os Cybers para ir blogando. Até mais.

Mails

Ao princípio surgiu a assinatura do email. Alguns elementos, poucos, contendo contactos e informaçãoes passaram a seguir no posfácio de cada mensagem. Muito útil para quem usa o email nas lides profissionais, suponho. Tudo bem. Percebo. No entanto, essa inventona comunicacional começa a assumir contornos caricatos. Reparem como essa assinatura se está a converter, paulatinamente, num autêntico Curriculum Vitae. Recebemos um email, lemos a mensagem e depois somos brindados com o extenso memorando de prestígio sócio-profisional do remetente. O hábito é tão generalizado que nem adianta criticar. Terá a sua utilidade para lógicas em que a respeitabilidade curricular seja um capital e quem não se conforma está lixado. Mas... Não sei... Eu assino sempre "Bruno". Não é por uma questão de princípio ou low profille senão uma de exactidão.

Londres

Conheço melhor Londres do que Madrid. E isso basta para que, assim de repente, sem olhar a números, este atentado tenha mexido mais comigo. Estou incomodadíssimo. É terrível. Absolutamente impressionante como a nossa percepção da destruição e do sofrimento depende das nossas referências de partida. No fundo, quando exercitamos algo próximo da compaixão, a maior parte das vezes tudo o que fazemos é alargar o nosso egocentrismo e auto-referencialidade viciada como forma de compreender o sofrimento de outrem. É por isso que as vidas ocidentais valem mais no "circuito do mesmo" montado pelos media. É por isso que a destruição dos lugares familiares nos comove com maior intensidade. É por isso que nestes dias, em que os G8 se reuniam, África se arrisca a ser, uma vez mais, o continente esquecido. Longe dos media e dos jornais diários, as mortes silenciosas e a destruição por lá seguirão, suficientemente longe das nossas referências emocionais.

Aquele Verão

Por 2 anos de bloga, Parabéns.




À malta do Aba de Heisenberg.
Ao Adufe do Rui Branco.
Ao Bloguítica do Paulo Gorjão.
Ao Litle Black Spot da Claire Lunar.
À Memória Virtual do Leonel Vicente.
À Praia do Ivan Nunes.
Ao Respirar o mesmo Ar do JPN.
Ao Terras do Nunca do João Morgado Fernandes.
Ao Mundo Imaginado do Paulo.

São excelentes blogs que eu visito há muito. Dois anos. Não é brinquedo.

Relativismos

O relativismo cultural, justamente conotado com os antropólogos, é frequentemente acusado de levar o juízo moral a um extremo insuportável. Denuncia-se um crivo flexível, culturalmente calibrável, a partir do qual tudo é justificado e justificável. No fundo, o relativismo cultural mais não faz do que preconizar a compreensão das práticas culturais e das instituições sociais a partir dos mundos de sentido de onde germinaram e vivificam. Obviamente, isso leva a que se acolham e compreendam muitas manifestações culturais que de outro seriam peremptoriamente rejeitadas em nome das nossas próprias tradições. No entanto, tal não implica abraçar toda a diferença, não implica aceitar e celebrar a excisão do clitóris apenas porque existe e faz sentido para muitos homens e mulheres (sim, as hegemonias actuam assim). Implica, isso sim, o esforço de conhecer a diferença nos seus termos.

Bem, o que eu queria mesmo era estender o tapete a esta citação do Clifford Geertz que cala muita crítica mal informada ao relativismo:
Temos que aprender a aprender o que não podemos abraçar (Geertz, 2001: 81).
Pois. O relativismo cultural também é isto.

Por exemplo, eu percebi que nunca poderia ser benfiquista depois de estudar afanosamente a história do regime ditatorial português, isto com uns seis anos.

Que farei quando tudo arde?*


Underground, Kusturica
*Dezarrezoado amor, dentro em meu peito (Sá de Miranda)

A democracia e os seus inimputáveis

«Está-me a fazer sinal aí porquê? Que estão chineses aí, é mesmo bom que eles vejam porque não os quero aqui».

Caso o líder do PSD se demarque destas declarações xenófobas, tirando daí as corajosas consequências, Alberto João Jardim não ficará desamparado. As afinidades agora expressas fazem supor um caloroso acolhimento junto das hostes do PNR.

Fracassos

Apesar de cusco assumido (cusco: gosta de saber, diferente de fofoqueiro: gosta de contar), pouco falo de mim e das minhas vivências nas derivações sociais a que me ofereço. Por isso, mesmo para muitos amigos, as linhas que aqui vou escrevendo são a mais directa via de acesso aos meus estados de alma. A questão central e recorrente que por aqui procuram deslindar é, bem sei, se eu estou ou não apaixonado, e, se sim, por quem.

Reparo, não sem preocupação, que ninguém leva a sério a ambições deste blog em revelar o desapego trascendental do seu autor-personagem. Devo pois nomear como fracasso estruturante deste espaço a falhada aspiração à estética diletante, a mal sucedida aspiração à prosa do flâneur que vagueia, mirando, sem quereres de maior, as vidas circundantes.

Mudar de Pele

Que é preciso recriar o criar, meu Deus, ser truculento.
Ser simples e não o ser.
Abandonar os campos, rodopiar
a inteligência, a crueldade.
Abro a porta para não esquecer esta
absurda tarefa. (Herberto Helder)
O célebre problema dos links e o pretexto do aniversário comoveram uma querida leitora a propor-me insólita oferenda. Um novo Template, logo se percebe. Conhecendo desde logo a fina imagética dos seus espaços próprios não hesitei em aceitar. Postos alguns mails em que trocámos ideias sobre a identidade estética do novo avatares, com o cuidado de manter subtis marcas do seu ancestral, a tal leitora colocou mãos às teclas e fez o resto (o tal, vago, remetendo conhecida blogger ao anonimato, sai a pedido). Os links mantêm-se ali mesmo ao lado -- muita gente que gosto de ter por perto --, há espaço para imagens e grafismo para que textos mais longos não cansem tanto. Creio que esqueleto de escrita está com mais classe, mais sóbrio, menos impetuoso e garrafal do que o antigo (curioso como o facto de não ter sido o autor me permite elogio que doutro modo resultaria soberbo). No entanto, asseguro, a impetuosidade e falta de tento seguirão sendo nutridos via posts. Quanto à "tal leitora", um sincero muito obrigado por se ter lembrado de uma prenda tão original quanto oportuna. Obrigado Inês. Espero que gostem tanto como eu.

Partimpim

Apesar da interessante montagem do espectáculo e do lúdico que confere sentido à escorrência musical e performativa de Partimpim, é difícil assistir a um concerto de Adriana Partimpim sem um suspiro "Calcanhotto volta!". Bem distante do sentimento geral do público que -- sem nunca se deixar levar cabalmente por aquele novo espólio musical -- parecia oscilar entre o completo desalento e o conformismo de esperar apenas por aquela música ("Fico assim sem você"), eu aprecio o registo Adriana Partimpim. Ouço o cd e iria, como fui, a um concerto para a ouvir. A questão é que gosto mutíssimo mais da Adriana Calcanhoto. Por isso, por muito injusto que soe, percebo a tentação de se cobrar a um heterónimo pela ausência do outro. Nestas coisas ia reflectindo até que, depois de uma passagem pelos arquivos do Carlos Vaz Marques na TSF, fui obrigado a ceder à apologia da liberdade artística, a liberdade de "ser uma outra" que Adriana assim clama, citando Matisse:
O sucesso é uma prisão e o artista jamais deve ser prisioneiro de si mesmo, prisioneiro do estilo, prisioneiro da reputação, prisioneiro do sucesso etc. Não escreveram os irmãos Goncourt que os artistas japoneses do grande período mudavam de nome várias vezes na vida? Amo isso: eles queriam salvaguardar
suas liberdades.
Calou-me. Mas o que eu gostava mesmo era da Calcanhotto.

Feira

Qual Fnac qual quê!? Hoje fui à feira dos ciganos comprar roupinha.