Carta aberta à mamas de silicone

É um tema antigo, mas cabe esclarecê-lo de uma vez por todas. A razão porque eu "não vou à bola" com os implantes de silicone ficará clara neste texto. É muito simples.

Se eu me apaixono, o querer do meu amor pode ser metonimicamente representado no desejo de ter para mim os seios da mulher amada, para o resto da vida (lá está, o romantismo ultra-romântico e o fascínio por seios como parte do mesmo paradigma estético-emocional). No fundo, por saber as moléstias que o tempo tantas vezes faz ao amor e por me querer me subtrair à angústia das partidas, eu anseio, secretamente, que os seios amados sejam meus, parte do meu corpo, parte da minha carne. Nutro a insólita ideia: "se as mamas fossem minhas poderia repousar na certeza de acordar, adormecer e tomar banho com elas por todos os dias da minha vida”. E se isto não é romantismo não sei o que é.

Mas a questão crucial é que o poder mito-poético do meu estranho anelo reside na sua impossibilidade. Eu nunca terei por certos os seios de quem amo. Eles nunca serão parte da minha carne por mais que com eles me tente confundir “nas travessuras das noites eternas”. E é isso que faz o amor belíssimo. Tortuoso, mas belo. O encanto dos amantes jaz na custosa persuasão de que há uma vontade que nos escapa e que a qualquer momento pode partir levando consigo as mamas que a devoção apaixonada um dia tomou por altar simbólico. E assim, podendo esta versão do amor ser descrita pelo desejo impossível de uma eternidade incorporada, é óbvio que a aparição do silicone desestrutura tudo. Se eu me apaixonasse por mamas de silicone podia sempre tê-las para mim, na minha carne, para todo o sempre, bastaria para tal que recorrese ao mesmo cirurgião da mulher amada. Ora, isso, além de poder ficar um pouco estranho nas minhas carnes modestas, constitui a negação do amor enquanto o inconsumível desejo do impossível. Siliconizadas, perdoem, mas o meu amor está tomado pelas mamas do antigamente.

Prémio Duarte de Almeida*

Para o Rui Tavares. Veja-se como, apesar do caos instalado no Barnabé, o Rui Tavares, aquele que é para mim o melhor blogger político portugês, continua a escrever para a frente.
*O homem que na batalha de Toro, depois de ficar sem mãos, segurou a bandeira com os dentes.

A Natureza do Mal


Nome 1: Eu sou a Sofia Nome 2: Eu sou o Luís
Assim começava, há dois anos, a Natureza do Mal. Logo me fiz leitor invejoso. Tempos mais tarde, por qualquer sortilégio, caiu no meu mail um convite para almoço assinado pelo "Mal". Algo ressacado das caipirinhas da noite anterior, levantei-me e lá fui, aprumado para a desilusão que sempre vigia os encontros com a versão corpórea e não domesticada de uma personagem da escrita. Eu sou a Sofia. Eu sou o Bonirre. Eu sou o Luís (a óbvia alma matter do blog). Disseram os comensais. Percebi tudo. Percebi que não ia ter a sorte com eles tão cedo: a desilusão tardaria. Mas sou teimoso. Voltei para casa e continuei a tentar a esperada queda desilusória, via escrita. Até hoje. Lendo, atento e cioso. Não há maneira. Sejamos transparentes: se alguma vez eu fosse intimado a escrever num blog colectivo, era ali que eu ia pedir guarida. Invocaria para tal a figura do asilo poético.

Coletes

Há um ano foram as bandeiras nacionais por todo o lado. Agora, instalada que está a nostalgia do EURO 2004, a reboque do novo código da estrada, muitos portugueses ostentam orgulhosos o colete reflector no banco da frente. Quero desconfiar que esta proclividade para ostentar símbolos por todos posssuídos corresponda a um traço que, depois de tantos anos de ditadura, ficou no inconsciente colectivo portuga. O colete reflector assim celebrado representa, creio bem, o secreto revivalismo dos uniformes. Psicanaliticamente falando, o banco da frente surge como substituto ao corpo do condutor que, ansioso, lá vai esperando pela primeira oportunidade para fazer figura com as novas cores da nação.

Barnabé

O Daniel Oliveira despede-se do Barnabé. Não direi que não o compreendo. Com a última remodelação o pluralismo fez-se descaracterização. Agora. Agora é activar a cláusula de rescisão do Rui Tavares e temos blog.

Aos Convivas

Queria aqui expressar a minha gratidão denunciando todos os que generosamente lembraram o aniversário deste espaço: Os lapsos e omissões serão corrigidos. As palavras que ficam, ficam. E se as há... Obrigado.

Na blogosfera:
A Natureza do Mal (Luís); Adufe (Rui Branco); Albergue dos Danados (Segismundo); Almocreve das Petas (Masson); Almofariz (Semente); Aviz (Francisco José Viegas); Bloguítica (Paulo Gorjão) Bombyx Mori (Afonso Bivar); Cérebros Retalho (Acordeonista); Cibertúlia (Miguel Marujo); Contra a Corrente (MacGuffin) Daedalus (Francisco Curate); Lilás com Gengibre (Cris); O Cafajeste (Cafajeste); O Narcisista (narcisista) O Olho do Girino (Miguel); OpinionDesmaker (António); Portugalidades (Luis)Quatro Caminhos (Cláudia); Retórica e Persuasão (Américo De Sousa); Rititi (Rititi)Rua da Judiaria (Nuno Guerreiro); Tugir (LNT e CMC); Welcome To Elsinore (Carla)

Nos comentários e email:
Afonso Bivar (Bombyx Mori); Aníbal (Carago); António Beata Oliveira (Blogal); ARIEL (Confraria do Atum); Bshell (Bluesshell)(Cafajeste (O cafajeste); Cecília (Muito Errante); Celeste; Charlotte (Bomba Inteligente); CMC (Tugir); Cristina (O Farol das Artes); Daniel Figueiredo (Evidentemente Absurdo); Dora (Atrás da Porta ); Eduardo (Bloguices); Eduardo (Agrafo) Elisa (Pilar da Ponte de Tédio); Escada de Peixe (Confraria do Atum); Francisco Curate (Daedalus); Gasel (Dias que Voam); Dr. rotwang (Abobada Platina) Gotinha (Blogotinha); Inês; Inês Gomes; JCD (Jaquinzinhos); João da Cal (Syncope) Jotakapa (Jotakapa); John; JPN (Respirar o Mesmo Ar); JPT (Mashamba); Júlio Constantino (Tribo dos Sonhos)Lebre (There's only one Alice); Lolita (respostas paralelas); Lutz (Quase em português) Lyra; m.; Mariaheli (Amor e Ócio) Mário (Retorta); Matarruano beirão; Mente Assumida (Assumidamente); Miguel (Olho do Girino); Miguel Marujo (Cibertúlia); Morgan Le Fay; Mouro; Narcisista (O Narcisista); Nikonman (Praça da República); Nuno (Aba de Heisenberg); Nuno Vargas (Catalunya at Large); Objevtiva3 (Objectiva 3); Papo Seco (Uma Sandes de Atum); Paulo Gorjão (Bloguítica); Pedro (Cinema Xunga); Pedro Farinha (Farol das Artes); Riquita (a Vida é Bela); Rita S.;Rui Curado Silva (klepsydra); Semente (Almofariz); Stela (Imbricações); Thita (Manifesto-me III); Tixa (Nas Entrelinhas); Tiago Fiadeiro (Tribo dos Sonhos) Ventura (Boémias); Wr (Fórum Comunitário); Xinha (Bye Blog); Zazie (Cocanha); Zé (Ler do Ler)

Hotel ou gólgota


"Every parting gives a foretaste of death, every reunion a hint of the resurrection."
Arthur Schopenhauer

Anoiteceres

"Nessas horas lentas e vazias, sobe-me da alma à mente uma tristeza de todo o ser, a amargura de tudo ser ao mesmo tempo uma sensação minha e uma coisa externa, que não está em meu poder alterar." Bernardo Soares
Sábado à noite. Recuso telefonemas, enjeito copos, esquivo-me de conversas. Se fugir das horas lentas e vazias tem algo de cobardia, então até sou um tipo razoavelmente corajoso. Insólito: a coragem de viver as horas lentas e vazias. A tristesse serve-se irónica.

Problemas Técnicos

Obrigado a todos pela ajuda. Retirei a lista de links, mas volto a repô-la, breve, com os devidos destaques, assim que se resolva o problema.

Parece que os posts às vezes migram lá para baixo sob a lista de links, alguém me explica como isso se resolve? Categoria: Vá-se lá perceber isto!


Pelo direito de amar

1 - Lá estarei - Lançamento do livro de uma querida amiga:
24 Junho, sexta, 18h30: FNAC do Chiado, Lisboa, com apresentação de Gabriela Moita e Miguel Vale de Almeida.

2 Lá estarei. Ou, caso não possa de todo, estarei solidariamente ausente:
Sábado. Marcha do Orgulho LGBT

Da falta de apoios ao romance

-- Então e a tese?
-- Qual tese? Vê se percebes. Aquela mulher é maravilhosa!
Ao ouvir a resposta do meu amigo sedimentou-se em mim a persuasão antiga de que uma paixão arrebatadora deveria ser razão suficiente, com moldura institucional, para o indefinido atraso na entrega de uma tese. Duvido é que as entidades financiadoras e as faculdades estejam dispostas a contemplar estas urgências. Mais, uma pessoa perdidamente apaixonada deveria merecer aumento no ordenado, bonificações no IRS, no empréstimo da casa, no seguro do carro. Benesses a que se adendaria o direito a sacos de plástico grátis no Lidl. Infelizmente as paixões disruptivas são pouco compensatórias na sociedade do fazer carreira e ser "bem sucedido". Como diria uma personagem destes rapazes, neste país não há apoios para a paixão.

Resultado: só os resolutamente sediados no "encanto instalado" e/ou imunes ao encantamento por vir conseguem ater-se a um projecto de vida. Os outros, escravos do bricolage existencial, são belíssimos anti-heróis fadados à margem.

Aspirantes a génio

As biografias dos génios intelectuais e literatos estão ligadas a um arquétipo que tem exercido inegável fascínio nas sucessivas gerações. Por isso, a reputação de génio há muito transvasa com a identificação de um certo comportamento excêntrico, anti-social, irascível, maledicente do povo e da mediocridade envolvente. Cientes dessa aclamada "história de genialidade" muitos literatos, determinados a criar a sua própria reputação, cedo incorporaram os traços de carácter passíveis de facilitar o trabalho ao detector de génios. Desgraçadamente, como lembrava Pessoa, a ambição da genialidade não se serve com vontade narcísica nem com "acções de formação", sejam elas quais forem:
Génio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu,
E a história não marcará, quem sabe ?, nem um (...)


O problema é que, para certos perfis biográficos, falhando do génio pouco fica. Não surpreende, pois, que para os aspirantes a génio o epitáfio mais recorrente esteja bem próximo desta curta biografia de mármore: "Uma má pessoa que leu uns livros".

Obrigado... Muito Obrigado


Cá voltarei, mais tarde, para agradecer a todos os que, generosamente, devotaram umas palavras para lembrar o solstício posto neste blog. Recebo-as, não sem comoção. Desbragada aqui e ali. Agora que os dias minguam, aproveitemos as noites e as horas claras. As ruminações do costume, dentro de momentos. Beijos e Abraços a todos que por aqui passam. Teimosos.

2 anos de avatares


Ensaio umas linhas para assinalar o dia em que o sol descansa por aqui, mas não, só saiem lamechices indecentes.

O estadista choroso

Homem de lágrima fácil, Jorge Sampaio é decididamente um sentimental. Muitos o têm criticado em nome dessa inclinação para carpir em momentos públicos, solenes, banhando o protocolo de lágrimas. Acho que tal acusação é a maior das injustiças. Devemos lembrar de que república Jorge Sampaio é presidente e, memoração feita, reconhecer que, dadas as portuguesas circunstâncias, um presidente que chora é no fundo um tipo com refinada pose de Estado.

O meu Road Movie

Central do Brasil

"A professora destruía as cartas para, autoritariamente, proteger as pessoas das suas próprias ilusões(...)

O caminhoneiro, um crente evangélico, era um homem solitário. Segundo ele, a sua mulher era a estrada. Quando percebe que Dora começa a sentir um interesse romântico, foge no caminhão e abandona os dois num restaurante de beira de estrada. O naufrágio é um tropo frequentemente associado ao simbolismo da viagem da vida e, em partricular, dos momentos de mergulho órfico. Hans Blumenberg (1997) explora o assunto com a idéia de que, muitas vezes, nós somos espectadores dos naufrágios dos outros sem nada podermos fazer. Mas uma imagem frequente nas declarações dos náufragos no alto mar é que, quando depois de dias à deriva, vêm chegar uma embarcação esta lhes parece a coisa mais bonita que viram na vida. Foi com estes olhos de náufrago que Dora amou César. (...)

"Desta forma, repetir o seu amor pelo pai (Deleuze) é [para Dora, mulher marcada pelo pai que a abandonou na infância], na verdade, uma re-dramatização do trabalho do luto, agora como o adeus ao pai"

Afonso, Carlos Alberto, 1999, "O Poder do Adeus na Central do Brasil", Religião e Sociedade, 20 (2), pp. 9-37.

No último trecho que aqui cito deste sobebo artigo, somos seduzidos para a ideia atordoadora de que só podemos dizer adeus a quem amamos - a quem reconhecemos amar ou ter amado. O flagelo da perda tende a engendrar a resignação mentirosa: a menorização do que nos foi negado. Portanto, concordo inteiramente, Pedro, quando se trata de lembrar amores idos o presente não tem direito de veto sobre o passado (o mesmo veto valeria para as situações em que o presente acolhe temeroso os amores difíceis, menorizando-os por antecipação). Ou por outra, o poder de veto existe, mas como garante de um malogro no diálogo com o post fácio. Por isso, a tentativa de auto-persuasão "Eu na altura pensava que gostava dela" só encontrará paz num entendimento do passado mais próximo dos seus termos «Eu na altura gostava dela". O luto, o poder do adeus, é dizer pela última vez "amo-te" para assim submergir sem pejo acolhendo na devida medida a magnitude o que se foi. Depois. Depois poderá bem ser que um dia um barco venha. Poderá bem ser que "o olhar do náugrago" seja já mero resíduo na vontade de acolher quem se apruma no horizonte. Talvez essa conversa honesta com a perda custe demais, mas as formas decentes de voltar a amar podem esperar.

2 anos de Aviz

Sim senhor. Está de parabéns o Francisco José Viegas.

"Faz por ele como se fosse por mim."

Este dito exprime algo da singularidade pré-moderna do tecido social português. O tráfico de favores que tem nas cunhas a sua face negra substancia-se também em admiráveis passagens de generosidade relacional. "Faz por ele como se fosse por mim", este pedido, assim feito, afirmando a possibilidade de transferência de um "eu social", está grávido de fascínio para a leitura simbólica das dádivas e das dívidas que ainda esteiam o modo de ser de alguns quadros relacionais.

A ler

Esta belíssima resposta do sub-comandante à pergunta: "quem és tu?"

Potlatch

O conceito de reasonable accomodation - adaptação razoável, grosseiramente traduzido - vem sendo usado em importante legislação americana para definir as transformações que se devem operar nos espaços públicos e nos locais de trabalho para acolher os indivíduos nas suas especificidades. Nesse sentido, as adaptações irrazoáveis seriam aquelas achadas incomportáveis do ponto de vista económico ou outro.

Quando duas pessoas se experimentam amorosamente, intentando uma relação, estão, no fundo, a pulsar esse mesmo conceito que a linguagem jurídica haveria de cristalizar. Experimentam as adaptações e transformações possíveis, mas temem as adaptações irrazoáveis, os ajustamentos biograficamente incomportáveis, as rupturas desestruturantes da ipseidade. Por outro lado, se aceitarmos o amor-ruptura não como uma das modalidades do amor, mas como a sua expressão cintilante, as ideias de razoabilidade vão para o espaço.

No entanto, ao mesmo tempo que intuímos, justamente, o amor como móbil de uma abertura mais total à alteridade, não descarto o valor de um certo "núcleo do eu" cuja descacterização pode ser a torrente da desgraça. Note-se, e isto é fundamental, que a apologia desse "núcleo do eu" nada se confunde com uma orgulhosa resistência à mudança ou com o terror da diluição self. Representa, isso sim, a ideia de que a "entrega amorosa" decorre da possibilidade de dádiva de algo que já tinha um nome:
Tu já tinhas um nome e eu não sei
se eras fonte ou brisa ou mar ou flor
nos meus versos chamar-te-ei Amor
(Eugénio de Andrade).

Como diria Borges, entregando-se: "Ofereço-lhe também aquele núcleo de mim mesmo que salvei - o íntimo coração que não se revela em palavras, não trafica com sonhos e que o tempo, a alegria e as adversidades não conseguem tocar."

Não acredito em núcleos fundos e imutáveis do ser, apenas alego, tentativamente, que no "Potlatch dos amores" as dádivas recolhem de fundas histórias de vida.

Gmail

Farto das mini-caixas do hotmail sempre a pedirem alívio. Agora o mail do avatares é deumdesejo@gmail.com. Encontramo-nos por lá.

A angústia do bêbedo perante o bar fechado

"Um gajo quer pagar uma rodada e já nem isso deixam!"

Casmurro

O Casmurro pousa na blogosfera. Por lá escrevem Manuel Portela, Pedro Serra, Osvaldo M. Silvestre, Abel Barros Baptista, Fernando Matos Oliveira, Luís Quintais e Gustavo Rubim. Entre eles figura um dos homens com quem mais aprendi. Enfáticas, portanto, não poderiam deixar de o ser, as boas-vindas.

Já que falamos de blogosfera obsessivamente literata, cabe voltar a chamar a atenção para o Da Literatura, donde ressalto a visitação esmerada da tecla de Eduardo Pitta.

O Elogio do Amor (MEC)

Voltei a cruzar-me aqui com um texto de Miguel Esteves Cardoso. Li, reli e... postei. É todo vosso:

"Eu próprio percebo pouco do que tenho para dizer. Mas tenho de dizê-lo. O que quero é fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.

(...) Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas.

Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo? O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental".

Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar. O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem. Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir. A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a vida inteira, o amor não. Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também."

Elogio ao amor (Miguel Esteves Cardoso - Expresso )

Memoir


Ironias pós-coloniais

Por grande preguiça e vago desinteresse pelas linhagens de sangue, pouco sei da vida do meu avô materno. Aliás, com a excepção da minha mãe, retinta guiniense feita cidadã portuguesa, sei o mínimo da minha ancestralidade, dispersa que está entre a Guiné e Cabo-Verde. Mas, dizia, do tal avô materno conhecia o essencial: foi um administrador colonial português que trabalhou na Guiné e que nessa passagem teve uma filha com uma jovem nativa, a minha avó. Descobri há poucos dias, porque a minha mãe insistiu comigo numa ida ao google, que o esse meu avô escreveu uma série de livros etnográficos sobre a Guiné e Angola, ao melhor estilo africanista da ida Antropologia colonial. Descobri também, curiosa ironia histórica, que um livro dele consta do espólio da biblioteca do departamento de Antropologia onde me licenciei. Na mesma biblioteca onde tanto li sobre o pós-colonialismo; instado superação da tradição colonialista da antropologia, passou-me ao lado esta genealogia histórica com insuspeitos matizes disciplinares. Uma asserção interessante me ficou desta descoberta, os livros, pelo mero facto de serem livros, conferem irresistível solenidade à mais anónima das existências.

Duplo Homicídio do Tempo


"Boa noite. Eu vou com as aves"(Eugénio de Andrade).

Carcavelos

Carcavelos explicado à pressa, mas sem a ligeireza sócio-histórica que por aí se vê, pode bem sintetizar-se neste aforismo:
"Há decepções que honram quem as inspira" (Carlos Ruiz Zafón)

Refiro-me, claro, aos responsáveis históricos por uma geografia racializada da exclusão.

Cataclismo e réplica

Permitam-me então umas palavras sobre o self emocional pós-romântico. Como já aqui disse noutros momentos, tanto quanto me diz respeito, tal ideia é uma ficção terapêutica, uma hipótese que em determinados momentos importa criar como parte do projecto biográfico de fuga aos sofrimentos irredimíveis. No entanto, e tanto quanto a minha biografia o permite dizer -- insisto na natureza pessoal deste aporte -- o pós-romantismo é uma "narrativa do eu" que fracassa em desalojar a prótese da origem: o amor romântico, essa violenta ficção persuasiva. Acredito, por isso, na esteira da personagem de Casablanca, que a constituição do self pós-romântico, é menos self-constitutive do que self-deceiving. Fronteiras ténues que vão da história de cada um.

Já agora, Afonso, partindo desta minha hipótese reflexiva, e dado que o "pós" sempre transporta algo daquilo que procura transcender, poderíamos dizer, irónica e pradoxalmente, que o conceito que mais jus faz à violência da invenção romântica não é o de self emocional pós-romântico, mas sim o conceito de self pós-romântico. Em causa, estão, obviamente, as ambições totalitárias do amor romântico na definição de pessoa, na formação da subjectividade e nos ensejos de realização acolhidos.

Da não instrumentalidade dos copos

-- Alguma vez te embebedaste para esquecer?
-- Não! Nunca. Bebo sempre sem objectivos.

Blogger Moods

Já não é a primeira vez que por aí percebo o assomar de uma interessante reflexão. Consta esta na ideia de que um blogger, quando feliz na sua vida pessoal, escreve menos, de um modo menos dedicado. Não tenho ideias acabadas sobre isto e as variáveis adivinham-se mais que muitas. Apenas sei que esta possibilidade se oferece a um interessante debate. Vamos a isso? Aqui voltarei a este assunto tomando nota do eventual feedback nos comentários e nesses blogs afora. Agora não me deixem pendurado!

Unplugged

O problema de muitos Unpluggeds é a tendência dos cantores para se entregarem a longas dissertações filosóficas nos interlúdios musicais. Em regra ouço-os apesar do parlatório, raramente por causa dele.

It goes without saying

Quilos de papel, páginas tortuosas da mais rebuscada teoria, romances simbolistas, estantes atolhadas de lombadas. Muita escrita se tem acotovelado na celebração da "impotência matricial" da linguagem. Assombroso como Chesterton o diz simples:

"O homem sabe que há na alma matizes mais desconcertantes, mais inumeráveis e mais anónimos do que uma selva outonal. No entanto, julga que esses matizes, em todas as suas fusões e transformações, são representáveis com precisão por um mecanismo arbitrário de grunhidos e guinchos. Julga que de dentro de uma bolsa saem realmente ruídos que significam todos os mistérios da memória e todas as agonias do desejo."

Não por acaso, este é um dos dizeres que há muito forra o meu quarto.



Os ovários no sítio*

Ler este excelente texto da Fernanda Câncio (uma mulher que sigo sempre com atenção na imprensa) sobre as imagens femininas e o politicamente correcto. Concordo inteiramente com a ênfase dada à não neutralidade da linguagem e das representações culturais. No entanto sou menino para coisas como o penúltimo post. Sou politicamente engajado com os usos da cultura mas também sou um esteta do "pop corporal" (os corpos disseminados nas mediascapes - nada que me consuma, padeço, isso sim, coisa rara, com a proximidade amável do "corpo lírico capaz de cócegas").

O cânone ocidental da beleza (não confundir com a obra do Harold Bloom), de que Bellucci é parte integrante, tem, obviamente, um crivo patriarcal, sexista, racista e disablist (a opressão das pessoas com deficiência). É bom recordá-lo. Quem visita este blog saberá que isto de entremear o cravo com a ferradura pode representar uma coerência mais profunda. Portanto, nem reprodução acrítica dos valores dominantes - as prendas às leitoras têm sido disso expressão -, nem iconoclastia.

*Fernanda sinceramente prefiro esta versão à das mamas no sítio. O resvalar estético do que se quer uma metáfora de carácter seria inevitável.

Masculinidades

Assim que tiver um pouco de tempo, vou-me dedicar com algum cuidado ao desafio lançado pelo Afonso Bivar e logo reiterado pelo Luís Januário (sim, com apelido e tudo). O post-atiçador alude aos comentários marialvas nos espaços de encontro masculino, como o futebol. Comentários em que o espectro da homossexualidade é continuamente invocado para os jogos de masculinidade. Avanço algo. Muito do que há a dizer sobre este assunto é sintetizado numa piada tão típica quanto reles dos balneários mais rústicos (o rústico, diga-se, está amplamente democratizado):
"Ó fulano, gostas de cona?" Sim? Então chupa aqui que ainda sabe a ela!"
Partirei da escavação dos múltiplos valores presentes nesta piada para prescrutar a pérola que o Afonso nos traz: "Corta Vicente para Canto".

40º à sombra

Sobre o duelo ontológico e filogenético com a aspereza dos elementos:
"Socorro, alguém me tire daqui!"

"Então Bruno, quando é que te casas?"

Há uma categoria de pessoas que identifico pelos seguintes traços: são mulheres, têm mais de 45 anos, libertam um olhar nostálgico. Mais, quando me encontram na rua abraçam-me afanosamente, lembram que me seguraram ao colo em bebé, perguntam por uma namorada e, finalmente, indagam por casamento próximo. "Amigas da minha mãe", tenham lá calma! Tenho que ver muito bem isso do próximo sacramento. Está tudo em aberto, a malta é jovem, arejada, e se porventura se apaixonar com desejos de "fazer amor no roupeiro"* logo busca a logística variável desse amor. Por isso a Extrema Unção é uma hipótese forte. Mas, também com esse sacramento, não me apressem. Tenham lá calma!
*... na desordem do armário embutido
Meu paletó enlaça o teu vestido
E o meu sapato inda pisa no teu
(Eu te amo, Chico Buarque/Tom Jobim)

"A Noite"


Trocou a guitarra eléctrica pela guitarra portuguesa. O Rock pelas composições de Paredes. Ontem, depois de um belo jantar, assisti ao resultado em mini-concerto. Impressionante. Nada mais a dizer: este homem é música e mete nojo de tanto talento.

Selecção

Meninos, enquanto o Mourinho não vem, brinquem aí com o Scolari para se entreterem.

Primavera-Verão

Confessei-lhe à saída da loja: "Descubro a torrente veranil nas flores que trouxeste da Mango, aquelas que te acariciam a graciosa pele. Invejo-as. Estás linda. (mais ou menos assim)"
Depois descobri que já na Bíblia se falava dos "decotes em flor":
"Os teus dois peitos são como dois filhos gémeos da gazela, que se apascentam entre os lírios"
Cantares de Salomão 4:5 A Bíblia Sagrada
Percebi também que poéticos fotógrafos já tinham captado a Laetitia a apascentar flores junto ao mar:

Às vezes, só às vezes, parece que Lévi-Strauss tinha razão no dizer que todas as histórias são versões umas das outras. Nesse sentido, viveríamos um mundo de cópias sem original, como defendia Baudrillard a outro respeito. Mas não. Desde Salomão até mim [perdoem a modesta dinastia, mas não resisti] os perplexos repetem-se perante a singularidade que os arrebata.

Tantrismos passionais


Por sortilégios vários ainda não consegui ver o 2046. Mas a banda sonora há muito que roda ali no leitor.

De repente dou por mim com um imaginário musical que não quer ser lesado por uma história, por personagens, ou por representações imagéticas. Já não se trata de um aquecimento para o filme, creio que a minha experiência musical se passa já no campo dos preliminares orgásticos. E de facto as soundsacapes são mais assim: respeitosas da subjectividade, alojam-se cirurgicamente nos contornos da nossas entranhas biográficas, seguindo-as. Não há finais maravilhosos, eventos apocalípticos, nem incidentes processuais. Plasticina sensorial, diria. Ver o filme vai ser, por assim dizer, como "sair à rua": o irresistível confronto com os sortilégios alojados alhures.

Seio contra seio


Por caso já conheci uma rapariga que se entregou a relações com outras mulheres depois de várias desilusões com homens. Não durou. Mas essa ideia totalitária, forjada pelo sensível orgulho masculino, segundo a qual as relações entre mulheres só se podem conceber como produto da experiência desiludida com o género masculino, não podia ser mais patética. Custa à masculinidade dominante aceitar que existam, por um lado, mulheres para quem o amor e o desejo sempre vestem de feminino e, por outro, mulheres que simplesmnete se apaixonam por pessoas. A ideologia patriarcal, cristalizada por Freud, na ideia que o mundo sexual, afectivo e identitário se estrutura a partir do confronto iniciático com o falo, está bem embutida na ideia máscula que consagra as lésbicas como mulheres que começaram por ser mal amadas pelos homens. A ideia é tão patética que, por essa lógica, no limite, a desilusão como o género humano -- o tal péssismo antropológico tão estruturante de uma certa direita -- era bem capaz de fazer os animais domésticos tornarem-se, de repente, figuras mais cativantes. Tenham juízo.

Freaks à portuguesa

Constata o Eduardo:
"Portugal é um país onde é facílimo ser-se uma “pessoa esquisita”: basta não gostar de futebol, não ser católico, não ser heterossexual, não ter um horário de trabalho convencional, não tirar férias em Agosto, não comer carne, não ter carta de condução, andar a pé sem ter necessidade de o fazer, ser solteiro depois dos 30, não ver televisão (...)"

A enumeração poderia seguir indefinidamente. De facto, neste país a excentricidade consola-se com pouco.