Mandamentos

"Ajoelhou, tem que rezar!"

Desconheço a origem desta expressão. Reparo no entanto como o seu sentido original, aparentemente litúrgico, insinua conotações fortemente sexualizantes para o nosso senso comum. Na verdade, a alusão à prostração religiosa resulta numa forma deveras irónica de evocar as práticas sexuais que, recorrendo à tal língua morta, podemos chamar fellatio e cunnilingus (sobre o uso destes termos erudito-temerosos ver a discussão ente o Luís e o Afonso).
Há aqui uma ambiguidade que nos coloca entre a devoção religiosa e o desejo carnal. "Ajoelhou, tem rezar!". Talvez esta seja, afinal, a versão embrutecida de um outro apelo mitológico. Um mandamento lírico nascido da devoção, do desejo e do pranto:
"Se não sabias amar, porque despertaste o meu coração adormecido?"
A Voz Secreta das Mulheres Afegãs - o Suicídio e o Canto, Cavalo de Ferro.

A história de Portugal em luvas

Sabe bem ler os jornais desportivos e perceber que até o mais reles dos comentadores (o único que sempre respeito é o António Tadeia) se rendeu às evidências sobre a valia dos guarda-redes portugueses. Decididamente, Jorge Baptista -- ainda não foi irradiado da comunicação social?! -- e Scolari -- deixá-lo, Portugal merece-o -- tiveram galo. Nada a fazer. Esta é a minha hierarquia há muito estabelecida:
1º- O génio sereno

2º- A certeza pouco respeitada

3º- O quase muito bom

4º- [Neste momento dizer dele aquilo que muitos vinham dizendo do Baía, atentos à mais ínfima falha, seria copiar uma crueldade sem nome. Não o farei. Era demasiado fácil, demasiado vil]

O Charme do Non

Camus dizia que o charme é a forma de se obter a resposta sim sem nunca colocar uma questão clara.

Pois é. Chegada a hora das perguntas percebemos que um certo modelo de Europa se desenhou carente de democracia e sem charme algum. No fundo, os euro-tecnocratas evitaram fazer perguntas demais com medo da resposta. Fica assim provado que o jogo democrático é uma forma de sedução bem mais árdua, sobretudo porque nele inexistem sedutor e seduzidos, existe, ao invés, um enleio participativo feito de avanços e recuos.

P.S. Embora torcesse pelo não francês não fico propriamente efusivo como muitos nas minhas proximidades políticas. Podemos ter a chance de formar uma Europa mais democrática e mais social, como muito de gente de esquerda espera. Mas também podemos ter um beco sem saída
.

2 Anos de jaquinzinhos

«Nestes jogos começo sempre do lado dos mais fracos, mas dez minutos depois do início já estava a puxar pelo Vitória»

Como vemos por esta citação, o JCD é um tipo com uma costela de esquerda, só que depois não resiste ao apelo dos mais fortes. Ainda assim é do Sporting. Parabéns JCD.

Goza Peugeot, goza

É um dos spots publicitários mais bem conseguidos dos últimos tempos. Refiro-me àquele em que um rapaz indiano aparece a reproduzir artesanalmente as formas de um peugeot 206, para depois, triunfante, passar à porta da discoteca celebrando em bom som os olhares invejosos. E seria só isto que eu teria a dizer se a Peugeot não voltasse a repetir a fórmula num novo anúncio.

O enredo, desta feita passado numa localidade africana ou no caribe -- deduz-se --, conta como é que o sucesso de um autocarro se inflaciona depois de pintados os contornos do peugeot 206sw.

A repetição é óbvia e o padrão não deixa de merecer uma leitura sociocultural. O esquema de base é simples. Parodia-se o desejo e a impossibilidade de consumo de pessoas pobres em zonas empobrecidas do planeta, pessoas que apesar de terem acesso à publicidade dos itens de prestígio de origem ocidental não têm a veleidade de os consumirem. O consumo é um privilégio que em ambos os spots se remete, implicitamente, para o primeiro mundo, exactamente onde estão os possíveis compradores a que os spots se dirigem. A ideia que se quer transmitir é que, havendo pessoas que desesperadamente sonham com um peugeot, carro que obviamente nunca terão -- a menos que o pintem num autocarro ou o moldem com o peso de um elefante --, os que no primeiro mundo podem comprá-lo devem mais é execer o seu privilégio. No fundo, o anúncio dirige-se aos que não precisam de se socorrer do patético da imaginação consumista e que podem bendizer a sua sorte para comprar aquilo que outros ficarão sonhando. Tudo numa lógica de sentido que oprera na divisão de riqueza do mundo. Não uso o politicamente correcto numa paranóica patrulha ideológica à criatividade, mas não podia deixar de me distanciar desta estratégia, algo triste, da Peugeot.

A expressão sublime da imputabilidade trágica

"Eu fui a pior coisa que me aconteceu".

Os predadores do costume

O Reino Unido anda a recrutar médicos nos países do terceiro mundo. O resultado para os países que assim se vêem privados dos seus poucos recursos humanos não podia ser mais catastrófico.

"The rich countries of the West are systematically stripping the developing world of their doctors and nurses in one of the worst acts of global exploitation in modern times.[..] More than 30 per cent of practising doctors and nurses in the UK were trained outside the country, compared with 5 per cent in France and Germany, and the demand for health workers from overseas is increasing.[...] Independent

UK versus Ghana
Child mortality: deaths before 5
Ghana: One in 10
UK: One in 150
Life expectancy at birth
Ghana: 57.6 years
UK: 78.2 years
Spending on health per head
Ghana: £7
UK: £900
Doctors per 100,000 people
Ghana: 9
UK: 166

IVA

O governo surpreendido (!!!!) pela previsão do défice para a casa dos 6,83% prepara-se para subir o para IVA 21%. Não tarda e os únicos números que dirão alguma coisa aos portugues serão os da chave do euro-milhões ou, alternativamente, os quilómetros sentencidos pelo ViaMichelin: os quilómetros necessários para passar a fronteira até à apanha do morango.

Beatriz

"Nada me doía tanto como pensar que paralelamente à minha vida Beatriz ia vivendo a sua, minuto a minuto e noite após noite."
Poderia apostar o pneu sobresselente da minha 4L. Estou sinceramente convencido que Borges escolheu chamar Beatriz à mulher que se lhe foi nesta história por reverência à dor de Dante Alighieri, e, claro está, à amada deste, Beatriz. Essa paixão avassaladora, durável como uma vida, fogo inconsumado para toda uma obra lírica. Há mesmo quem diga que Dante só escreveu a Divina Comédia como artifício para, nums poucos episódios, poder fabular o seu encontro com Beatriz, no lado de lá da morte. Mas o que é eu sei disto?

Dante and Beatrice, 1883, Henry Holiday
Apetece-me indagar outra coisa. Quanta da dor dos amores desfeitos - ou nados-mortos - não deverá ao peso dessa estranha factualidade, que também será consciência não convidada: a consciência de se partilhar o tempo presente com quem se viveu o amor e agora nada mais se partilha. Usando a coevidade, um termo com que um conhecido antropólogo designou e teorizou a partilha do tempo, diria que os ex-amantes estão fatalmente unidos pela coevidade -- e pela consciência dela. Vivendo em paralelo, minuto a minuto, segundo a segundo. Sabendo-o. Partindo da antropologia de Johanes Fabian, acredito que a negação de um presente partilhado é bem mais do que a ficção dominadora com que o "civilizado" prendeu o "primitivo" num passado irremediável, irredimível. Acredito nisto: negar a existência de um tempo que a todos une seria para Borges a ficção desesperada. A ficção derradeira para enganar a dor de seguir vivendo sem Beatriz.

Anacronias: Curiosidades de arquivo e parabéns fora de tempo

1
Muitos parabéns ao Almocreve das Petas, ao Mar Salgado e aos Tempos que Correm.
2

Uma estranha inibição

Como imaginarão, algumas poucas pessoas acumulam a visitação deste blog com a fatalidade de me conhecerem, por assim dizer, enquanto gajo corpóreo. Se por sortilégio saio de casa e alguma dessas pessoas me encontra na rua -- normalmente nas minhas idas para deixar o lixo --, não é infrequente perguntarem-me a clássica: Não achas que te expões demais no blog? Ora, quando comecei a escrever os avatares do meu desejo quis pensá-los fazedores de um espaço intimista, onde perpassassem., directa ou difusamente, as minhas efusões, infortúnios, amores e desaires Obviamente isto seria menos problemático no iniciático Verão, altura em que era lido por umas quantas almas caridosas. Reparo, não sem orgulhoso agrado, que sempre me mantive algo alheio, senão inconsciente, perante a visibilidade acrescida paulatinamente consagrada à minha teimosia escrivinhadora. De facto nunca os dados do sitemeter calibraram a minha verve insuportavelmente confessional, tornando-me mais cuidado, menos impetuoso. O “projecto de blog mantém-se incólume”. Poderia intentar, solene. Falso. A verdade é que não consiguiria evitar fazer disto um espelho de alma mesmo que quisesse. Preciso de quem atenda em regime voluntário aos meus devaneios e conspirações de querer. Por isso não estamos no campo da coerência, estamos no âmbito da fatalidade. Não estamos apenas no domínio da leitura, estamos também no território do baby-sitting.

Ora. Toda esta conversa, porque, habituado que estou a “despir-me” por aqui, etnografei em mim uma curiosa inibição. Cabe percebê-la. Aconteceu quando me endossaram testes para que lhes desse resposta pública. Fosse para falar dos meus livros, fosse para revelar algo do meu quotidiano, senti-me estranhamente invadido prefigurando as minhas respostas. Reflectindo, concluo que esses testes, mais do que a ameaçarem uma reserva pessoal, ameaçam, isso sim, a possibilidade de sermos os coreógrafos do nosso próprio strip-tease intimista, ameaçam dar à personagem que se expõe, e se cria, uma inusitada densidade de real.

No fundo isto é apenas um variação da morte anunciada pelo pós-modernismo. A morte do autor-deus. A morte que surge da ideia que cada leitor é um autor no modo como interpreta subjectivamente o texto; o autor "é" muitos e não o "deus-autor" criativo do sentido último das coisas. Portanto, à fatalidade de ninguém ser lido nos seus próprios termos apenas deverá juntar-se a ideia pós-estruturalista: ninguém escolhe o texto tanto quanto os textos – da cultura, da sociedade, do poder - escolhem e definem o “quem” que os diz. Por isso, se nunca escolhemos completamente o que somos, absurda é a ideia que alguma vez escolhemos o que escrevemos. Tudo sereno, portanto. Venham esses testes.

Teste

Respondo finalmente ao teste que a vivaz Blogotinha simpaticamente me passou.
QUE FAZES NESTE MOMENTO?
Ouço música. Recebo o sol de viés pela janela próxima. Revejo as provas de um texto que aparentemente escrevi em tempos.
QUE PLANOS TENS PARA ESTE FIM DE SEMANA?
Queria dar um salto até às proximidades mar. Mas depende de muita coisa. Do tempo também.
QUE COISAS TE CAUSAM STRESS NESTE MOMENTO?
Esta resposta criaria ou magnificaria algum stress. A omissão e a procrastinação controlada são mecanismos constitutivos da minha paz mental.
QUE FIZESTE DESDE O ACORDAR ATÉ AGORA?
Estive a tratar da logística para me financiarem a participação num congresso no estrangeiro.
A QUEM IRÁS PASSAR (ESTA PAIN IN THE ASS) ESTE TESTE FANTÁSTICO?
Ninguém. Vou ser bonzinho e poupar aqueles que mais gosto.

Honra aos vencedores.

Foram os menos maus. Mereceram.

De momento não posso atender


Foto de Alain Marc tirada daqui.
Quando sentenciou que era chegado o inevitável fim jurou a Daniel que não mais lhe ligaria. Rogou-lhe que fizesse o mesmo. Por ambos. Quis ser determinada e acabar com a revisitação da angústia.

Mas mentiu. Contou-me. Durante muito tempo, confessou, foi afagando em segredo a saudade. Conhecedora dos rituais do ex, ligava-lhe clandestina depois da hora dele ir dormir. Fazia-o precisamente para encontrar o telemóvel desligado. E assim, pelas noites afora, buscava no Voice Mail a voz gravada do "defunto", como agora o chamava às amigas. "De momento não posso atender...", ouvia. Desligava sempre antes de soar o sinal para deixar mensagem. E então adormecia por entre os ecos da voz que tantas vezes lhe sussurrou boas noites, talvez na esperança daquela repetição deixar de fazer sentido.

Isso e o fim da proliferação nuclear

"Fim da educação sexual, já. É o que se lê num comunicado do movimento Juntos Pela Vida" DN.

Marceau

Este blog está a rebentar com visitas. Tudo ao engano. O que eles/as querem sei eu. Vêm daqui.

Educação Sexual

O Luís, o da Lúcia, desafia-me a dizer algo sobre o abaixo-assinado que o Fórum da Família elaborou para protestar com alguns conteúdos e exercícios presentes nos manuais de educação sexual. Ele já disse quase tudo. Mas eu agora já apanhei o balanço. A questão central é que, como o Luís aventa, o abaixo-assinado soa a falso, não porque não possam existir preocupações legítimas, mas por se perceber muito claramente que o que move o Fórum Família é uma incomodidade mais profunda em relação à educação sexual em si. Isto dos manuais é um mero pretexto que cumpre um plano mais amplo, envergonhadamente omisso. Parece-me.
Em relação ao facto de os manuais proporem exercícios desadequados, produtos de progressismo excessivo, devo dizer duas coisas. Primeiro, importa lembrar que a questão da educação sexual em Portugal -- pelo seu atraso, custosa disseminação e pelos agentes que a ministram -- espelha com escândalo poder do conservadorismo militante. Os excessos progressistas estão longe de ser o nosso verdadeiro problema. Segundo, devo concordar as reservas do Luís (não com as do Fórum família que me soam a falso). Acho de facto que esse tipo de exercícios faz pouco sentido para uma sala de aula. Recorro à divisão decisiva que Foucault faz uma entre ars erotica e a scientia sexualis. Ao ocidente, ao contrário dos mundos do Kama Sutra, falta ars erotica. Temos, ao invés, e desde o século XVIII, uma profusa scientia sexualis. A questão é que, desde os tempos em que os cientistas diziam que a masturbação era causa de cegueira, a scientia sexualis tem estado ao serviço de uma cultura moralista burguesa que nega a ars erótica e consagra os escapes libertários como a incandescência pornográfica, promove o sexo inseguro e as gravidezes indesejadas na adolescência (não é por acaso que Portugal é recordista europeu em mais adolescentes). Acho, portanto, que as salas de aula não devem ser o lugar onde a ars erótica se germina, e por isso aqueles exercícios têm pretensões que reputo de equivocadas. Na sala de aula deve ministrar-se, outrossim, uma scientia sexualis não ideológica que forje o caminho para que a exploração da ars erótica se dê, avisada, nos lugares e nos tempos indicados pelos trilhos da descoberta. Mas isto o Luís já tinha dito.

Topos da desdita: Salzburgo, Viena, Alvalade

Um sincero abraço de solidariedade aos meus amigos Sportingistas, não fossem eles e eu ontem tinha sido russo. Mas não, a amizade também é isto. Fiquei tristíssimo. Há noites em que o melhor é não pensar mesmo nos sortilégios do futebol: "E se aquela bola do Rogério entra?", "Porque é que o Carlos Martins tomou banho?". A única coisa acertada em relação a tamanho desconcerto é usar o radical questionamento do inconsolável: "Então a baliza é nossa e os golos contam para eles!?"

A tanga revista e anotada


Bandeira/DN

Mulheres do mundo

Hoje (18) em coimbra.

Sophie Marceau


Foto encontrada aqui.
Leitores impacientes pedem que comente algo sobre a "aparecida" mama de Sophie Marceau em Cannes. Isso é lá coisa que se comente?! Mas, reconheçamos, não deixa de ser cativante perceber o impacto mediático provocado por aquela alça fugidia. Sobre isso discorrerei umas palavras. O dado mais interesante é que há uns quantos filmes em que Marceau aparece integralmente nua. Portanto, os seus seios há muito fazem parte das topografias familiares do cinema contemporâneo. Logo, cabe perguntar: porquê tanta avidez por umas poucas frames de seio? Vamos por partes.

1- O que marca simbolicamente a exposição de uma mama é a aparição do mamilo. Perceber este simbolismo é decisivo uma vez que os decotes e as transparências conferem, muitas vezes, de modo deliberado, uma visibilidade quase total da mama. O "quase" é fundamental para aquilo que é publicamente sancionado. De facto, estas coreografias vestuárias da mama têm como único princípio a recusa da exposição crua do território corporal demarcado pela auréola do mamilo.(Nas passerelles de moda e na praia esse princípio é frequentemente quebrado. Mas esses espaços públicos são de outro tipo. O primeiro detém a legitimação da arte, e o segundo é moldado pelo afrouxamento estival das regras de pundonor.)
2- O quadro de fundo da cena é o tapete vermelho de Cannes pejado de gente. A aparição de um elemento íntimo, a mama, num espaço de hipervisibilidade cria uma flagrante incoerência público-privado. (Numa cena de cinema a nudez, embora produzida no aparato semi-público da filmagem, sugere quase sempre o recato intimista de uma cena de amor). Esse não ajuste entre o público e o íntimo cria um evento visual raro de onde decorre muito do interesse erótico que os media vislumbraram naquele seio esquerdo.
3- O facto da aparição da mama ter resultado de um momento acidental é crucial. Um dos elementos estruturantes de um certo deleite voyeurista é o facto de ele decorrer de uma invasão não consentida do espaço íntimo de outrem. O carácter acidental do momento e o não consentimento de Marceau sobre a exposição do seu corpo contribui para a generalizada sensação de privilégio não autorizado. Mais uma vez encontramos aqui uma demarcação em relação aquilo que acontece quando a actriz ou modelo é paga para se despir.
4- O último elemento prende-se com a própria Marceau. Não está só em causa a eventual beleza da sua mama. Fosse outro corpo bonito e o impacto seria menor. A sua figura e a sua carreira, apesar de ter sido Bond Girl, inspiram uma rara respeitabilidade artística em tudo congruente com as pretensões mais intelectuais de Cannes. De novo se insinua um contraste. Desta feita entre a cultura da banalização do corpo e um contexto artístico nobre onde o corpo é sempre um signo; onde o corpo só aparece para dizer mais do que a carne de que é feito. Nesse sentido este nip slip aparece como uma acrescida transgresão.

Algumas reflexões sobre os vendedores ambulantes de rosas (aka Qué Flô)


As noites da cidade acolherem uma nova personagem. Refiro-me a uns senhores vindos do oriente munidos de prendas quais Reis Magos do capitalismo global. Com flores e brinquedos coloridos, deambulam pelos lugares de animação nocturna. O seu propósito central é vender o mais reconhecido ícone do encantamento amoroso no ocidente: a rosa. Desse modo facilitam aos amantes, efectivos ou em potenciais, algo da logística romântica. No entanto esta "facilitação" recobre-se de complexos matizes relacionais. Deixo aqui algumas linhas de ponderação.
1- Estes vendedores ambulantes, muitos deles aprumados com fato e gravata, são já uma figura incontornável da paisagem nocturna. Os mais sociáveis, inclusive, pela iterativa familiaridade dos seus percursos, facilmente se tornam figuras reconhecidas por muitos como “amizades da noite”.
2- O recurso aos seus serviços pode ser deliciosamente oportuno. De facto, dizer “espera!”, correr atrás de umas luzes que piscam debaixo de um casaco e voltar de lá com uma flor, “é para ti!”, converte-nos às maravilhas de um belo Kitsh. É posível o sortilégio vindo de um gesto estandardizado, exuberantemente mercantilizado, assim ele seja criativamente apropriado para o enleio de duas pessoas. I’ve been there. Confesso sem pudores.
3-No entanto, o encontro mais frequente com os vendedores ambulantes não resulta de um acto deliberado dos potenciais compradores. Resulta outrossim de uma abordagem feita pelo “ocasional detentor de meios de produção do amor” ao rapaz que fala ou dança com a “dama”. Daí vem, óbvia, a célebre linha: “qué flô?” Esta questão é estrategicamente colocada de modo a que o potencial comprador se confronte com dois pares de olhos: os do vendedor e os da mulher que o acompanha.
Quero alegar que esta proposta, assim feita, introduz fortes elementos de constrangimento relacional.
a) Primeiro porque o gesto romântico se funda na ideia de uma espontaneidade passional. Portanto, mesmo que a intenção da oferta existisse, ela perde muito do seu potencial de dádiva apaixonada por ter sido resultado de uma iniciativa do comerciante. Os amantes ficam com duas opções, nenhuma particularmente interessante: comprar a flor juntando intencionalidade ao constrangimento dos olhares; ou recusar, perdida que foi a possibilidade do gesto aparecer como produto de uma intencionalidade pura, como derivação de uma vontade apaixonada.
b) Segundo, porque, muitas vezes, a “amizade sem erotismo declarado” é a “tecnologia criativa” na origem do romance. Ora, se duas pessoas, com agendas secretas ou adiadas, apenas se dizem amigas, a flor à venda vai forçar uma clarificação relacional. "Amizade ou algo mais?" Neste caso a compra da flor tanto pode acelerar processos em curso, como pode introduzir uma precipitação temporal num enleio que seguia docemente vagaroso. A decisão pode ser árdua. A recusa do homem, vigiada pela mulher, ainda que espirituosa, corre o risco de cristalizar a amizade enquanto tal. Por outro lado, a recusa pode fazer emergir uma cumplicidade entre os “amigos”, assim estes aproveitam o balanço para se desenharem no quadro afectivo que o vendedor sugeriu na sua proposta.

4) Chamemos-lhe tradição romântica ou sexismo, o que é certo é que a compra da flor é sempre insinuada ao homem. Sei que a origem masculina da dádiva resulta de uma cultura que elege a mulher como objecto passivo de devoção. No entanto, essa origem nada nos impede de celebrar a tradição da iniciativa masculina fora dos valores do seu nascimento. Adoro dar flores. Acto que celebro intimamente. No entanto, este é um gesto que não trivializo. Entendo que só sentimentos raros, em momentos puros de intencionalidade, merecem tal celebração (ou resgate, quando se trata de fazer pazes). Agora, devo dizer que também me encanta a ideia de receber flores. Não digo com isto que as feministas deviam dar acções de formação aos amáveis paquistaneses. Nada disso. Seja a oferenda masculina ou feminina, o espanto do movimento passional vale quase tudo. Por isso, é bom que as tradições e os rituais estejam lá, para serem cumpridos, como surpresa masculina, ou para serem invertidos, como transgressão feminina.

Livro de Cabeceira


Agarro decidido nas palavras de Mário de Sá Carneiro. Sempre que com tal urgência me reclino nos ditos de outrem, levando para o leito almofadado, para junto das minhas carnes ensonadas, um salvífico um livro de cabeceira, sempre que o faço, dizia, recordo o inevitável Borges, algures no Aleph, assim falando destes dramáticos encontros entre textos e vidas:
Singular beneficio da poesia: as palavras escritas por um rei que desejava o Oriente serviram-me a mim, desterrado na África para a minha nostalgia de Espanha.
Boa semana.

Totobola

Fica aqui o meu palpite para a última jornada:

Porto vence Académica
Benfica empata com Boavista
Sporting vence Nacional

A ser como prenuncio, o Benfica será campeão, o Porto em segundo apura-se directamente para a Liga dos Campeões e o Sporting vai à pré-eliminatória.
Se porventura o Benfica perder com o Boavista, resultando na sagração do Porto como campeão, cá estarei, contristado, para me penitenciar por tão fracassado palpite.

Manifestações Nobres

Concentração de Protesto contra a Homofobia
Domingo, 15 de Maio de 2005 - 15:00
Rossio de Viseu

Proposta




Coimbra, 18 de Maio, 18:30, Foyer do TAGV

Apresentação com:

Boaventura Sousa Santos
José Guerra (ex-presidente da ACAPO)



Lisboa, 9 de Junho, 18:30, Fnac do Chiado
Apresentação com:

Go
nçalo M. Tavares
Humberto Santos (presidente da APD)







Foto:
Eduardo Basto

Conto convosco.

Retornado


Foto: Eduardo Basto

Retornado



Que te partiste


Old Trafford. Costinha e Maniche festejam golo sobre Manchester United.
Costinha e Maniche foram vendidos ao Dínamo de Moscovo. Partem levando as mais lustrosas memórias que a experiência da passagem pode conceder a um futebolista. Impossíveis de esquecer, pelo que ganharam, pelo que jogaram, pelo que representaram ao nível da ontologia futebolística do portismo. Bem sabemos que na era pós-Bosman os jogadores estão condenados à condição de mercenários. Mas estes, habituados a que as lágrimas lhes queimem a face, não se confundem com os tempos judiciários. Eles fizeram parte de uma tribo que a história do futebol jamais esquecerá. Carregam, honrosos, o "estigma de Sevilha". É doloroso olhar a diáspora assim dissoluta pelos campeonatos da europa. A violência da memória também é isto. Não importa. Sejam felizes.

As luzes da cidade


Não nos liga o amor, mas sim o espanto;
Será por isso que eu a amo tanto.
(Borges).

Enganamo-no se julgamos que o frémito do encanto se vincula à experiência do encontro iniciático. A redescoberta do ardor pode ser igualmente desconcertante.
Há muito que aquela frase de Borges jaz no meu relicário. Mas nunca tinha encontrado uma imagem que lhe fizesse tamanha justiça. -- Aliás, já. Mas isso não conta como imagem. -- Chaplin, as luzes da cidade, está lá mesmo tudo.

Enfim

Na missa do sétimo dia de Vanessa Pereira -- a criança de 5 anos cujo corpo foi encontrado no Douro -- o padre Domingos Oliveira defendeu ser mais gravoso que se mate um ser no ventre da sua mãe do que uma criança de 5 anos. Argumento? Pois bem. Uma criança de 5 anos pode-se defender e no aborto essa hipótese não existe.
Além do absurdo destas ideias, arrepia a sensibilidade humana de quem usa a solene memoração de uma morte tão chocante para doutrinar sobre o aborto.

Descobertas

Recebo telefonema:
- Então Bruno! .... E pá, desculpa, estavas a dormir? Não sabia.
- Não tinhas como saber. Eu próprio não me tinha apercebido.

O som e o sentido

Estou apaixonado por esta palavra: Calenda.

"E afinal tem alma lá dentro!"*

Jesus sempre resistiu ao desafio dos fariseus para que mostrasse o sinal dramático de que era de facto o enviado de Deus. Provavelmente, para ele, tal seria a mercadorização chantangista da fé. Os corações não se abrem com momentos houdinescos, terá pensado, muito antes de Houdini, mas com a sinceridade de um querer partilhado, uma crença com lagos para se espraiar, uma comunalidade que apetece celebrar. Há pessoas assim, clamam por grandes sinais e esmagam o ardor revelado nas pequenas palavras do quotidiano, sonegam a ensejo divino das grandes obras, aspergindo de ácido banalizante a nobreza dos grandes motores do sentimento:
"Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime!/ Rugindo, rangendo, ciciando, estrugindo, ferreando,/ Fazendo-me um excesso de carícias ao corpo numa só carícia à alma (A.Campos)."
De um lado temos a ansiosa espera dos grandes sinais, do outro, as quotidianas rosas que, tantas vezes, não chegam a sair do bolso dos amantes contundidos.

*A. Campos. Ode Triunfal

Aviso. Últimos dias: Declaração de IRS

Sim, o altruísmo é uma das marcas fundadoras deste blog.
Pronto. Confesso. Afectado que sou pelo modo como a burocracia convida à procastinação este este post é, em bom rigor, um post-it pouco íntimo.

The Historical Figure of Jesus


É assombrosa a erudição que E.P Sanders destila sobre o contexto histórico, político e cultural da vida de Jesus. Este é um trabalho de uma vida que -- bem distante da oportunista tradução do título -- não se demora a dialogar com os romances em voga. Trata-se, isso sim, de uma longa conversa cuidadosamente entabulada com os textos dos evangelhos e com uma panóplia de dados e minudências que permitem reconstruir tentativamente os passos da vida de Jesus. Estas quase 400 páginas constituem igualmente uma precisosa âncora para se perspectivar o que surgiu depois: a teologia do poder, aquela em que se viria a edificar a religião do império. Não haja dúvidas, estamos perante uma "bíblia" para quem gosta de se demorar no texto bíblico, seja por mero interesse histórico, seja como forma de nutrir uma fé pouco dependente das homílias que suportam o conservadorismo institucional.

Em todo o caso, e porque há mais gente a ler o Código da Vinci do que outra coisa qualquer -- quando muito a Bíblia anda a ser lida como contraditório do "original" de Dan Browm --, cá vos deixo uma breve referência que Sanders dedica às muitas paixões suscitadas por Maria Madalena:

"Maria Madalena é [...] uma figura imensamente atraente para as pessoas, que imaginaram todo de coisas sobre ela: ela teria sido uma prostituta, muito bonita, apaixonada por Jesus, e que fugiu para França à espera de um filho dele. tanto quanto sabemos, a partir das nossas fontes, ela tinha oitenta e seis anos, não tinha filhos e cultivava instintos maternos para com os jovens desalinhados."
E se assim se elide a Monica Bellucci do ideário cristão. A iconoclastia também é isto.

(act.)

"No tears in the writer, no tears in the reader".
Robert Frost (1874-1963)

Não é um filme inteiramente conseguido. O seu maior pecado é o recurso opulento a clichés numa história demasiado permeada por um irresistível moralismo acerca da boa vida: vai para a escola, bebe menos. No entanto, o enlace literário da história e as actuações mantêm o espectador numa respeitosa sintonia que cativa e envolve mais do que a qualidade do filme, cruamente tida, provavelmente mereceria. Empatias, pois então.

Mas, se por mais não for, esta adaptação do romance Ronald Everett Capps merece a disponibilidade de quem quiser perceber o que acontece quando dois homens duas almas se apaixonam por uma mulher. Refiro-me claro à deriva confessional da realizadora e do director de fotografia: só podiam estar de beicinho por Scarlett Johansson, tal foi a obscena devoção com que lhe dedicaram a câmera.

Eu acredito assim mais ou menos

Sempre disse. O Benfica está condenado pelo modo como se move ao compasso da bipolaridade dos seus adeptos. Euforia. Depressão. Depressão. Depressão. Euforia. Penafiel. Depressão. Tenho mais respeito pelo realismo, quase sempre trágico, dos adeptos sportinguistas. O Sporting recolhe a sua identidade mártir em terras como Viena e Salzburgo. Os seus acólitos, entusiastas do sado-maso, não passam sem o chicote. Estão visceralmente prontos para a desgraça. Adivinham-na. O Porto esse, já fez a sua despedida de solteiro. Toda a felicidade que agora venha não estava no programa. Não há outra. Se as ruas este ano vestirem de azul e branco eu lá estarei, choroso, pronto a explicar porque é que as vitórias não merecidas sabem melhor.

2 anos de Abrupto


Muitos parabéns.

Breviário de um vago ardor

Podia morrer por uma só dessas coisas
que trazemos sem que possam ser ditas.

(Tolentino de Mendonça)

Parabéns


Não é certamente o nacionalismo bacoco que me faz baixar a guarda clubística e sofrer pela vitória do Sporting. Há muito me comove a senda desta equipa, uma equipa que tem no seu património a maior ameaça. Uma equipa que ganha apesar dos seus esteios e não por eles. Uma equipa que ganha apesar do Ricardo. Uma equipa que ganha apesar do Peseiro. Apesar do Sá Pinto. Apesar do Beto. Apesar do Pedro Barbosa. Apesar do Rui Jorge. Uma equipa que sabe que a sua alma está na aparição de um qualquer Miguel Garcia ou no tipo que estica as férias no Brasil sempre que pode. E isso, convenhamos, não é desprovido de classe. Parabéns. O futebol é o último minuto.

Manifestações do Sagrado: dúvidas primaveris

Há revelações do "divino" que não sabemos exactamente como verter em conceito. Talvez um filósofo das religiões me possa ajudar. Qual é, em bom rigor, a melhor forma de noemar um decote enquanto aparição do "sagrado"? Afloram-se-me três hipóteses:
1- Epifania erótica
2- Hierofania erótica
3- Teofania erótica

"Povo de Merda"

Sempre admirei a arte transcendente daqueles que sabem interpretar o sentir de um povo sem precisar de o ouvir. Chama-se a isso, muito eufemisticamente, a hermenêutica dos iluminados. Dizia Helena Matos: "Os portugueses sentem este referendo [aborto] como absolutamente inútil. Não o querem hoje". Pois bem. Repare-se como numa estocada simples o João Morgado a reveste do devido ridículo.

Violência doméstica


Nos rituais pelos quais os sujeitos se compõem belos há experiências algo dolorosas, a depilação, as dietas, os escaldões... Neste particular as mulheres são mais martirizadas, quer porque a pressão social sobre os seus corpos é superior, quer porque os modelos difundidos se tendem a distanciar mais dos seus "corpos reais" (isto é, corpos onde crescem pêlos, etc).

Uma das frases mais enganosas que circula na nossa vida social é aquela tantas vezes proferida nas vésperas do Verão: "eu só quero sentir-me bem comigo mesma/o". Tretas. A questão é que, mesmo na intimidade dos quartos, perante o espelho, há uma multitude de olhos que são convocados. Sejam eles os olhos específicos de outros significativos - o namorado e assim... - , sejam os olhos anónimos. Todos espelhando um consenso lato acerca das formas mais valorizadas de belo. Portanto, o "comigo mesmo" é mediado por uma pletora de valores e projecções culturais. Na fotografia que vos trago Laetitia sofre só, pela sua própria mão. Mas o que vemos não é nem por sombras auto-flagelação. É, isso sim, uma flagelação consentida, socialmente prescrita. No que à própria imagem diz respeito, em frente ao espelho não há masturbação estética, só sexo em grupo ou auto-erotismo com testemunhas, se é que me percebem .

Só me quero sentir bem comigo mesmo/a... Pois. Nem os budistas.

Dolce Vita

Passeio por espaços acabados de construir. Acabados de estrear com música e fogo de artifício. Vagueio na tal suposta modernidade urbana, espelhada, funcional, acolhedora e bem parecida. Com um mínimo de atenção reparo como, nas mais basilares estruturas da construção, nos sucessivos pormenores, surge absolutamente aviltante a negligência reinante em relação às regras de acessibilidade para as pessoas com deficiência. Portas pesadíssimas, escadas escusadas sem alternativa, balcões altíssimos, informação cifrada para as diferentes relações sensoriais com o mundo, etc, etc. A legislação vigente é tida como uma inventona de que todos têm autorização para se rir. Dos princípio do Design Universal ninguém parece ter ouvido falar. Por certo as licenciaturas que formam e arquitectos e engenheiros terão mais com que se preocupar.

Cada vez que vejo uma nova obra ser construída com tal desrespeito pelas pessoas com deficiência sou assaltado por um sincero nojo. Há pouco tempo fui uma conferência na Casa da Cultura, edifício recente, arejado. Um dos oradores, deficiente motor, chamou-me por favor, alguém teria que lhe levantar a cadeira de rodas seguindo as suas indicações para que pudesse entrar na sala. O facto de vermos tão poucas pessoas com deficiência nas ruas e espaços urbanos não quer dizer que elas não existam. Existem, mas invisíveis, relegadas para os cantos escuros de suas casas. Pulhice. É o que é. Arquitectos, engenheiros, câmaras municipais, grupos económicos, governos. Tudo saboreando a harmonia institucional do crime organizado.

Prefácio

Acho injusto que se diga que o Benfica está a ser levado ao colo para o título. Nada disso. Todos sabemos que a única metáfora capaz de explicar a comoção nacional que se insinua é aquela que se demora nas relações entre Maomé e a montanha.

p.s. Enculturado numa minoria clubística, no seio de uma resistência insular, a dos adeptos do FCP residindo alhures, adquiri um fervoroso discurso clubístico. Não me é fácil ser razoável a falar de futebol. Na verdade, talvez não me esforce demasiado, creio que por apreciar o lúdico retórico de uma discursividade eticamente descomprometida - mais do que outros campos de debate. Mas, posto isto, cabe-me dizer que não consigo deixar de valorizar um tipo capaz de admitir que o seu próprio clube anda a ser favorecido. Ok. É claro que o facto de ser um benfiquista a assumi-lo explica esta súbita e oportunista apologia do ético pós-tribalista.

Eremita

Vejo-os, a eles e a elas, a passearem-se nas ruas com ar de abandono. Caminham para comprar o pão, o jornal e para, de quando em quando, se irem sentar anónimos no canto de uma plateia. Passam as noites entregues a teses, livros, filmes, e escritos diversos. Em comum têm o hábito da solidão. Freelancers de afectos, sofridos pós-traumatizados, ferreamente disciplinados ou apenas pouco frequentáveis do ponto de vista social, compõem uma figura que veio para ficar: o eremita urbano. Têm um pathos que admiro do ponto de vista da estetização da identidade. No entanto, não os posso acompanhar no estilo. Tenho esse defeito. Acho graça às pessoas e vicio-me sem assinalável resistência nessa coisa de intensidade variável a que os sociólogos gostam de chamar afectos. Como se não bastasse, há os devaneios românticos na forma pensada, rarísssimos, marcantes. Guilty. É ver-me trautear com a Beth Gibbons: "mysteries of love where war is no more I'll be there anytime". Sou decididamente fraco.



És tudo aquilo que foste perdendo.

                                       JLB

Esta linha roubada a um verso de Borges poderia bem ser consagrada como o epitáfio salvífico, aquele que nos permite resistir à angústia do que se foi. "És tudo aquilo que foste perdendo." No entanto, este dito, que também pode ser lido como cruel mandamento, não é, nem pode ser, príncípio de vida. Afinal Borges tinha mais de 80 anos quando ditou estes versos. Com tão inflamada idade ele ensaiava, isso sim, o príncípio da sua morte: "sei que perdi tantas coisas que não poderia contá-las", "nossas são as mulheres que nos deixaram". No fundo é um generoso ancião que nos deixa por testamento a riqueza do que já não tem. Ora. Eu não tenho 80 anos. Nem tantas coisas perdidas. Bem vistas as coisas, talvez seja novo demais para assim o citar. Mas, creio bem, esse nem chega a ser o maior problema. O problema é que me socorro dessa linha com alguma batota. Uso uma metonímia, essa bela figura de estilo que também serve para dizer a parte pelo todo. Uma metonímia sentimental, perceba-se. Ou seja, se esta frase me aperta ao canto da cama o "tudo" é "uma só coisa", uma só pessoa, que realmente sinto como "tudo". As perdas não se escolhem, nem se acumulam para revisitação memoriosa. Impõem-se na sua absurda singularidade. De outro modo não nos detinhamos nelas. A menos claro, que fôssemos um sábio octagenário em tempo de balanços. Na maior parte das vezes somos assim mais como a Audrey Hepburn naquele momento do filme, estamos sempre assolados a viver o "antes" ou o "depois" de um "tarde demais".