Este blog cessa por uns dias para reflexão. Volto breve.

Breakfast at Tiffany's


Baudelaire dizia que a alegria é o mais vulgar ornamento da beleza, a melancolia a sua mais ilustre companheira. A floral beleza de Audrey Hepburn jaz também naquilo que ela esconde numa incessante fuga para a frente. Gosto de olhos escondidamente tristes. Não porque me atraiam as pessoas tristes, não é isso, cativam-me, isso sim, os segredos de quem performativamente se faz leve. De notar que isto não se configura como algo mais do que uma curiosidade antropológica por histórias de vida guardadas das montras do social. Mas, curiosamente, em análise retrospectiva -- bem restrita, diga-se -- reparo que também ao nível sentimental me movem raros olhos tensos, olhos com história, história velada, olhos biográfica e sentimentalmente densos.

Livros e Ilhas

Respondo enfim ao desafio que me foi endossado pela querida Cris.
1-Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro quererias ser?
Não sei o que é o Fahrenheit 451 e apetece-me ser honesto assumindo essa ignorância, deixo o google para mais tarde. Não podendo sair de uma estação de combóio -- ai as estações -- quereria ser o Ana Karenina.
2- Já alguma vez ficaste perturbado por uma personagem de ficção?
a) Philip Carey n'A Servidão Humana de Somerset Maugham. O rapaz do pé boto. Todo o seu percurso desde a infância. A desistência da arte e de Paris. O inescapável sorrow que o acompanha. O pathos do seu amor devocional por Mildred. O existencialismo avant la lettre de uma subjectividade marcada pelas mulheres e pelo ideário romântico: "A major part of Philip's maturation is based in making decisions about women and about sensual love."
b) Irineu Funes. A personagem de Borges germinada por acidente no conto "Funes o Memorioso". Irineu Funes é o homem assolado por uma prodigiosa memória, o homem que não consegue esquecer. O homem para quem o passado não desiste nem é ficionável na sua densidade factual. O homem para quem o presente é, por isso, incomportável.
3- O último livro que compraste?
Foram dois. The Passion of Foucault, uma biografia póstuma do filósofo e Remaking a World: Violence, Social Suffering and Recovery, uma colectânea de textos antropológicos sobre a experiência daqueles que aprendem a deambular sobre as ruínas.
4- O último livro que leste?
Flush, uma biografia. As memórias de um cão visitadas por Virginia Woolf. Não gostei muito.
5- Que livros estás a ler?
a) El Fuego e la Palabra. Um livro que conta a história do Exército Zapatista de Libertação Nacional. Escreve-o Gloria Muñoz Ramírez, uma ex-jornalista que a certa altura abandonou tudo para se entregar à causa dos zapatistas e para se ficar ao lado de um homem. Um tal de Sub-Comandante Marcos, consta.
b) O Deus das Pequenas Coisas de Arundhati Roy. Estou a adorar.
6- Seis livros que levarias para uma ilha deserta?
As Mil e Uma Noites em Árabe e mais 5 livros didácticos para aprender a língua. Ia andar entretido e o mais certo é que nunca chegasse à última noite. O que faria sentido. Como dizia Borges, 1001 é o número que representa a infinidade das coisas nunca acabadas.
7 – Três pessoas a quem vais passar este testemunho e porquê?
Ao Francisco, à Claire e ao Nuno Guerreiro. Porque me apeteceu, por curiosidade e porque sei que lhes vai dar trabalho.

O evangelho segundo Ximenes Belo (Act.)

Em tempos o Bispo Ximens Belo insurgiu-se contra as ONG's que actuavam em Timor. Motivo? Parece que as malvadas andavam a prestar aconselhamento sobre matérias e sexuais e a distribuir preservativos gratuitamente. Um escândalo em tão católico país. Agora a hierarquia católica local revolta-se contra o fim da obrigatoriedade da Religão e Moral. O povo nas ruas ao compasso das homilias exige a demissão do governo e a exoneração do primeiro ministro, Mari Alkatiri, um muçulmano cuja nomeação representou um sinal de maturidade democrática, pluralismo religioso e reconhecimento do carácter laico do Estado. O que é triste é que a Igreja católica use o capital simbólico e político que justamente adquiriu na luta contra a ocupação Indonésia. Está na hora, parece-me, de alguém lhe arranjar um Estado para poder brincar às teocracias. Ou então, para que se sintam em "casa", Vaticano com eles.

Noites adormecidas na infinda querença dos teus braços

Acércate a mi
abrázame a ti por Dios
entrégate a mis brazos
Rodrigo Leão Pasión

31 anos depois


"Ergue-te ó Sol de Verão."

José Afonso, Coro da Primavera, Cantigas do Maio

Os intérpretes da beleza

A discussão sobre a ninfofilia e as idades da beleza segue escorreita. Talvez lá mais para a frente volte a isto para um post de fundo. Agora que este arguto dedilhador fez a parada subir para o nível do post-ensaio, fiquei com vontade de esmiuçar alguns dos valores que entronizam o fascínio estético-erótico que alguns encontram na beleza adolescente. Quiçá.

Por ora, agarrando na coisa para questões mais gerais, devo dizer que sou viciado nestas desconstruções. Que valores forjam os ícones de beleza e quais as consequências sociais e políticas da sua consagração? No entanto, sempre lembro o grito de Susan Sontag quando ela denunciava a interpretação como a revolta dos intelectuais contra a arte. ─ Tese igualmente defendida por Harold Bloom na crítica literária. -- Será a interpretação sócio-cultural a revolta do intérprete contra a beleza?

Dentro de mim há momentos raros em que o esteta cala um obsessivo interpretador armado em antropólogo. Mas isso só acontece completamente quando o esteta se hiperboliza para deixar de o ser. Ou seja, concretizando, só acontece realmente quando a interpretação e a apreciação estética da beleza se diluem na ambição totalitária da invenção romântica. O totalitarismo próprio do amor, como bem caracterizava o CC num comentário recente, não nos faz esquecer que o amor romântico é uma invenção cultural. Apenas nos lembra que ao nível da longa história cultural tudo se estranhou, enquanto invenção, para depois se entranhar ameaçadoramente, qual "essência", emaranhando-se naquilo que somos, naquilo que buscamos. É certo que seguir o trilho cultural das invenções ─ descobrindo a origem dos sonhos, dos modelos e desejos que em nós se entranham ─ é a marca primeira de um desassossego. O desassossego antropológico de viver na tribo errada, a ansiedade Nietzschiana de não sermos autores de nós próprios. Por outro lado, a consciência que viveremos sempre no seio de alguma invenção prévia (ainda que apropriada criativamente) permite-nos escolher as invenções e experiências a que nos entregamos dispensando o tal intérprete-em-nós. Amíude um cínico altivo. Por isso quando uma pessoa se entrega a alguém por amor está sempre a fazer uma dupla escolha: a escolha de uma pessoa ─ óbvio ─ e a escolha do amor romântico como uma invenção sem a qual não se pode passar.

Retorno às teclas

Depois de alguns dias de silêncio, há posts a latejar, respostas a dar e links/destaques para actualizar. A coisa segue dentro de momentos.

As idades da beleza

O Pedro desafia-me. Eu não resisto.
Tudo começou com a jovem Natalie Portman (é uma bela frase). A partir daí o Pedro disserta sobre a "ninfofilia": a "atracção sexual de um adulto por uma adolescente". Como logo ali se esclarece, a ninfofilia "é uma parafilia muitíssimo comum. E, convém dizer, relativamente inócua".
Este fascínio pelas adolescentes, bem comprovado nos milhares de sites dedicados ao tema -- onde superabundam as trintonas disfarçadas com totós e saias de colegial --, representa, segundo o Pedro, uma mera fantasia que, por permanecer no seu estado sublimado -- lá está, enquanto fantasia --, nada acarreta de perverso ou condenável. Portanto, um adulto não está impedido de reconhecer encanto erótico numa adolescente. Mais, a impossibilidade prévia, longe de se constituir como um "apesar", é estruturante da própria natureza da fantasia. Este encanto adolescente tem como características mais singulares o traço de uma beleza juvenil e o imaginário criado em torno uma certa ideia de pureza e inocência.

Neste quadro de devaneios possíveis, parece-me instigante assinalar que o encanto adolescente não subsiste apenas no seio de certos fascínios sublimados ou virtuais. Quero alegar que ele toma parte nas relações de atracção entre adultos. E par isso basta notar que o quanto a sedução exercida por consideradas musas vai recolher de alguns elementos de beleza que nos remetem para uma certa construção de juvenília, naïf e pureza; elementos marcadamente associados ao encanto adolescente. Depois surgem as complexidades. A mais comum delas resulta do modo como um corpo exuberantemente maduro e sexual se pode conjugar com uma expressividade que parece desconhecer a carga de atracção que transporta. A Laetitia Casta é paradigmática disso mesmo. O seu rosto e o seu corpo dão sinais contrários quanto à idade e à maturação sexual, gerando-se nessa tensão outras tensões criativas, ao nível do estético e do erótico.
Mas atenção. O contrário também pode acontecer acontecer: a conjugação de uma figura juvenil com marcas de maturidade. Só tenho um exemplo, mas é toda uma tese. Sem ser sexual ou erótica -- aqui a beleza é "não libidinalmente informada" -- a personagem pré-adolescente de Jennifer Connely em Once Upon a Time in América incorpora uma estética profundamente rara de maturidade infantil. Ela, estupidamente bonita nos seus 12 anos, precocemente sábia, detém um olhar belo e perfeitamente ciente do seu lugar no mundo. Há ali uma figura infantil cuja beleza compõe uma figura aconchegantemente maternal.

Enganos

Quando a funcionária da biblioteca me devolveu a requisição eu já tinha aberto espaço na mochila para um grosso volume: "Parece que há aqui um engano", disse. Habituado a que estes lapsos me sejam justamente imputados, comecei por confirmar a cota. Nada. Aparentemente tudo bem. Insisti. Nada. Demorei alguns segundos a aperceber-me do insólito equívoco que ali raiava. Abrenúncio. Descobri. Então não é que ao preencher a requisição troquei a entrada "requisitante" por aquela onde deveria introduzir "autor"? Eis pois o quadro com que a atónita funcionária se deparou:
Requisitante: Max Weber
Autor: Bruno Martins
Ao chamar aquilo de engano a amável senhora recorreu a um generoso eufemismo. O facto é que a minha crónica desatenção montou uma cena inverosivelmente anacrónica e insuportavelmente onírica: Weber a requisitar um livro meu. Pedi desculpa pelo sonho molhado e corrigi, remetendo-me à minha condição de melancólico revisitante dos clássicos.

Novo Papa

Ratzinger. Esta Igreja ainda me consegue surpreender.

Cabines semi-públicas

Conversas alheias que nos cortam o caminho.
Tu és mesmo parecido comigo. Quando discutes queres sempre ter razão. Quando tens razão fazes questão de massacrar. Assim não dá. Somos demasiados iguais. E pá... Tens que mudar.
No modo como a frase foi dita, em gracejo, a sua enunciadora veicula um refinadíssimo sentido de humor. Mas, bem vistas as coisas, a noção dos nossos traços e defeitos permite-nos participar de um modo mais generoso numa democracia afectiva.

Expectativa

Embora a norma seja a nomeação de um cardeal, pela lei católica qualquer homem baptizado poderá vir a ser eleito Papa. Ou seja, em teoria eu estou na corrida. Postas assim as coisas não é improvável que João César das Neves aguarde o conclave com uma certa esperança mas, a avaliar pela casta doutrinária, decerto que este fervoroso leigo não se importará de perder para Ratzinger. Quanto a mim, se algo de absurdo acontecer, obviamente excomungo-me. Interessa-me muito o cristianismo dos evangelhos, interessam-me pouco os poderes institucionais que neles se legitimaram. Jesus, apesar de baptizado no Jordão, se andase por aí não teria mais hipóteses do que eu. Mesmo os pães infindamente multiplicados poderiam muito pouco perante a complexa filigrana de um poder que espantosamente se vem perpetuando desde há 17 séculos.

"I can't let go of your hand"


Cold Water - Damien Rice

Demasiadas vezes as partidas são pensadas em cima de ditames egocentrados, como se uma relação fosse um duelo. E logo se pergunta: quem é que acabou, quem é que foi abandonado, quem perdeu mais, quem arranja melhor, quem gostava mais? Quando, de facto, na violenta maioria dos casos, os amantes não são abandonados pelo outro, mas pelas divindades que os deixam à sua amarga sorte (não negligenciar os casos em que as culpas próprias próprias se assumem como absolutamente prementes). A partir daí os termos da finitude são o que menos interessa. Salvam-se aqueles poucos que têm a coragem de fazer como preconizava o terrorismo existencial de Àlvaro de Campos: "Vou atirar uma bomba ao destino". Esta música recoloca as coisas ao nível da desdita que tantas vezes une amantes nas despedidas. Reparem como se emula o clamor que há cerca de 2000 anos ecoou pela gólgata "Lord, can you hear me now? Or am I lost?".

Bem, desisti da música. Isto com os óculos tortos não está fácil e, ademais, o acesso ao blog ficava um pouco lento. (desculpas reles paras omitir que sou um nabo e que não consegui arranjar maneira de fazer um upload, que suponho necessário, do meu ficheiro mp3)

Post B

(Merda, Acabei de me sentar em cima dos óculos).
Como diria uma certa letra, a desgraça da gente não vem jornal. Assim se percebe que pode vir no blog. Mais, a desgraça pessoal é um motor imaginativo que sustém muitos blogs ou, pelo menos, engendra muitos posts. Eu que vinha aqui falar da possibilidade de pôr música amanhã, domingo, no avatares. Agora vou ter que dirimir os danos feitos pelo meu rabo.

"Vira essa boca para lá!"


"Vira essa boca para lá!" Numa cultura que não esquece o perigo das pragas acolhidas pelo divino, esta expressão recorre entre nós como um alerta para calar um mau agoiro. No entanto, este mesmo dito é usado amiúde enquanto alerta mental, um aviso silencioso que permanece na cabeça de um não-amante preventivo. "Vira essa boca para lá!"Acontece quando dois namorados discutem orgulhosos e reparam nas bocas próximas, acontece quando dois reincidentes decididos no adeus reencontram o desejo primordial, acontece quando a magia surge entre dois amigos ou dois colegas de trabalho, prometendo confusão e ruína."Vira essa boca para lá!" Nesses momentos os "querentes temerosos" repetem para si mesmos em pensamento, intentando uma telepatia preventiva ou, quiçá, procurando comover o divino: "Vira esa boca para lá antes que te beije". Às vezes este último sentido da expressão decobre a energia do alerta primordial. É que há maus agoiros que só se calam com beijos investidos em destino.

As más companhias

A proximidade entre a legislação portuguesa relativa ao aborto e a que passa a vigorar no Irão faz pensar. O Irão não merecia isto.

Os tons da intimidade

Muitos há que, recusando o nudismo e apreciando a pele brozeada, passam grande parte do seu tempo estival numa estranha coreografia para evitar as marcas do bikini/calções. Como se isso fosse uma coisa deplorável. As razões desse comportamento causam-me estranheza. Na vida de todos os dia vestimos uma multitude de cores e matizes que nos são oferecidos pela pujante indústria do vestuário. Estas cores estampadas numa parafernália de tecidos assumem um lugar naquilo que é a apresentação pública de um eu corpóreo e estético. No entanto, as possibilidades cromáticas também surgem ao nível das "partilhas nobres", as partilhas eleitas, singulares, ou seja, surgem também no seio de uma visibilidade reservada ao aconchego da intimidade e ao erotismo vivido com um "outro significativo". Sendo assim, poderemos definir duas expressões fundamentais do intimismo cromático. Primeiro, a insondável cor dos mamilos. Este segredo revela-se como um dos elementos cromáticos mais sensíveis na moda da intimidade. Diria mesmo mais: em qualquer apreciação da beleza dos seios a cor dos mamilos assume-se como um elemento decisivo que, no entanto, só pode ser pensado por contraponto à tonalidade da pele envolvente. O outro elemento tem a ver com o demarcação cromática que decorre do facto de algumas zonas – normalmente as desenhadas belo bikini - serem diferentemente banhadas pelo sol. Como as áreas que se velam ao sol são as mesmas que se escondem do olhar público, as diferentes colorações que daqui decorrem colocam-nos perante os tons da intimidade. Nesse sentido as zonas mais claras correspondem aos matizes inconfesssos para a moda enquanto fenómeno público. Correspodem à fashion da intimidade. Na cor dos mamilos, por um lado, e nos desenhos que o sol traz e leva, por outro, muitos desvelam o segredo daquilo que designo por intimidade cromática. A avaliar pelos vestígios dos calções na minha própia pele este é um fenómeno de pertinência marcadamente sazonal: Verão-Outono.

A fava

O Papa que sair empossado do conclave dos cardeais, previsivelmente um conservador dos piores, deverá provocar um reacendimento católico no país da sua proveniência. Funcionará a mesma vaidade nacionalista que fez alguns inconscientes torcerem por Scolari aquando do europeu - eu próprio, admito envergonhado. Retrocesso cultural por retrocesso cultural, antes o Benfica campeão que a eleição de um Papa português. As duas coisas juntas é que não, seria tal a desdita que nenhum choque nos salvaria de "um certo Portugal". Ainda assim desconfio que muitos portugueses andarão por estas horas a clamar afanosamente pelo pack (Papa+Benfica), quiçá com caminhadas a Fátima prometidas.

Cinema

Eventos que nos redimem:
1- Entrar com pesarosa solidão numa sala de cinema e ser salvo pela excelência do filme.
2- Entrar numa sala de cinema que projecta o mais terrível dos filmes para perceber o quão redentora pode ser determinada presença na cadeira do lado.

Conclusão: Um mau filme é sempre um excelente teste:
1- Um teste à resilência e desejabilidade da solidão.
2- Um teste à ternura erótica dos amantes. À cumplicidade.

Convulsas democracias


O México atravessa num interesante momento histórico. Tudo se deve à orquestrada prisão de Andres Manuel Lopez Obrador, o principal candidato presidencial da esquerda às eleições do próximo ano e o mais popular dos políticos mexicanos. O actual governador da cidade do México, também conhecido pelo seu passado na defesa dos direitos dos indígenas, é acusado de ter atravessado terrenos indevidos na construção de uma estrada para um hospital. Com medo da ameaça constituída pela popularidade de Andres, o desesperado conluio entre a direita no poder e o sistema jurídico mais não fez do que criar um mártir. A imunidade política já foi levantada. A prisão poderá estar para breve, anulando as hipóteses do presidenciável ou obrigando a uma candidatura feita do cárcere. A mobilização popular de protesto, até agora pacífica, é estrondosa. A acompanhar com atenção.

Mails perdidos

Abro o email e deparo-me com um estranho evento. Não, desta vez ninguém se propôs a ampliar o tamanho do meu pénis, coisa que até já se vai tornando corriqueira naqueles meandros. Algo de virginalmente inesperado sucedeu.

O endereço de email que uso com maior assiduidade desde há anos é malangatana@yahoo.com. Aquando do registo no yahoo, farto de ver recusado tudo o que se parecesse com o meu nome -- atrozmente banal, percebi aí -- lembrei-me de malangatana, um carinhoso moto com que a minha mãe me chamava em criança, segundo recordo. Ma-lan-ga-ta-na, doce conjunto de fonemas iterados no "a" e que por acaso -- ou não -- compõem o nome do afamado pintor moçambicano. Aqui está o busílis. É que eu recebi hoje um mail quer era dirigido ao pintor. O remetente é um amigo de longa data que lhe escreve do outro lado do Atlântico. Só percebi o equívoco no final. Tarde demais. Nenhuma inconfidência. Ainda assim, senti-me intruso na minha própria caixa de correio. Queria tentar reenviar o mail ao Malangatana. Mas não conheço o seu contacto. Se por acaso alguém souber seria um belo gesto confiar-mo. Até porque fico curioso. Se há uma hipótese mística nestas coisas -- lembro uma história das Mil e uma Noites -- o mais certo é ele ter eleito o meu nome para uso virtual, algo como brunomartins@.... Será que o Malangatana anda a receber os mails de amor que me são devidos? Será que é daí lhe vem a inspiração? Isso explicava muita coisa. Temo bem.

O nome do pai

Hoje em dia é já grande a percentagem de mulheres que recusa adendar o apelido do marido ao seu "nome de nascimento". A portentosa ironia, expressão do quão carcerárias são as lógicas patriarcais que os tempos que nos doam em herança, é que a mulher casadoira opta, na verdade, entre acolher o nome do marido e preservar como apelido o nome do pai.

Nestes dias primaveris

Sinto o meu espírito possuído pelo cheiro da relva acabada de mutilar.

Baliza Adentro


Jogador da casa desde 2001, Frank Lampard é uma poderosa expressão de como a economia de mercado, qual perfume enfaticamente dito francês, ainda que feito em Singapura, não prescinde dos símbolos de natividade. Aquele golo em que ele, sempre em desequilíbrio, recebe a bola no peito, deixa que ela passe para as suas costas e roda, fulminando a baliza, em vez de se estatelar na relva - ou nos tacos do pavilhão - com um comum mortal, é absolutamente obsceno. (Não sei porquê lembrei-me agora de um pontapé de bicicleta do Domingos Paciência em que o homem cai de joelhos). Mas não tenho dúvidas, este golo de Lampard, não sendo excepcionalmente exuberante (menos do que um do Mendieta aqui há uns anos), é das coisas mais difíceis de se fazer que andam por aí. Como diria Mourinho sobre uma exibição de Ricardo Carvalho, o absurdo em futebol merece a nossa reverência.

Pós-nacionalismo


Major Strasser: What is your nationality?
Rick: I'm a drunkard.
Captain Renault: That makes Rick a citizen of the world

Nunca tive tantas certezas, um dos sortilégios mais decisivos da história do século XX, e da minha, foi o facto, quase consumado, de Ronald Reagan não ter ficado com o papel de Rick.

Passagens act.

Um casal de namorados discute alta voz no meio da rua. Lágrimas escorrem entre palavras insultuosas. Constrangido, fingindo impossível alheamento, dobro a esquina e sigo para ir buscar o carro. A última frase que ouvi, já longidia, disse-a ela, sentenciando, creio bem, a impossibilidade de um regresso: "Devias-me ter dito isso quando ainda te amava!". O que me chegou aos ouvidos foi a elaboradíssima coreografia de um "tarde demais".

[Adenda, a partir de diálogos nos comentários]:
Às vezes vagueamos acidentalmente entre dramas plásticos de vidas. Normalmente as "frames" relacionais marcantes tendem a esconder-se do espaço público, mas é nele que a sua realidade se torna mais fatalmente real, exactamente pelo denso resíduo de factualidade partilhada que fica nas testemunhas de passagem. Independentemente do efectivo futuro daquele casal, para mim, testemunha, eles não têm mais volta. E isso não deixa de ser uma forma particular, voyeurística, distanciada, parcialmente informada de assistir a um fim. A questão é que essa evidência da passagem não deixa de contaminar a "realidade objectiva" dos agentes centrais, os namorados que viverão o "verdadeiro" desenlace desta história. Assim como o amor celebrado no espaço público é mais real -- uma evidência partilhada e partilhável, a evidência do amor que tantas vezes caminha de mãos dadas na rua --, também o ensaio do fim duma relação se torna mais verosímil e provável quando é partilhado com os olhares da passagem. Por isso me fingi alheado. As verdades partilhadas só a dois são mais precárias. Pelo desvio do olhar quis tomar parte na precariedade daquele fim. Quis "fazê-lo" mais reversível.

A Ariel oferece uma instigante réplica a este post. Antes uma boa discussão na praça pública, diz ela, do que o exílio interior a que tantas vezes se votam casais incomunicantes. A exigência de decoro e de omissão pública dos afectos não deixará de engendrar os seus próprios fins, vagarosamente silentes. A ler: aqui.

Desconstrução de um silêncio

Tenho andado calado em relação à morte do Papa. Sendo cristão na fé estou muito longe do catolicismo. Apesar de ter sido baptizado aos 8 anos para poder vestir a farda dos escuteiros e assim impressionar as miúdas (desisti breve), nem sequer sou ex-católico, ou sê-lo-ei talvez do ponto de vista da história longa. A minha fé viria a germinar no seio de uma comunidade protestante. Apesar dos pesares, ligados ao conservadorismo eclesiástico que ali também milita, um desconforto não resolvido ─ promotor de uma inevitável distanciamento ─, o legado deste contexto teve para mim uma enormíssima virtude sobre as lógicas que vigoram na formação de um católico. Essa virtude diz respeito, fundamentalmente, a uma maior imunidade para o fenómeno de "deitar fora o bebé (mensagem dos evangelhos) com a água do banho (instituição eclesiástica)".

A questão é que, ao contrário das práticas e saberes que sustentam a fé católica, vivi na apologia de uma relação pouco mediada com o divino. Ou seja, a igreja-instituição que conheci arroga-se a um peso muito menor, quer porque cada crente é convidado a um profundo conhecimento do texto bíblico e a uma relação pessoal com Deus, desconfiando sempre das figuras no púlpito, quer porque a própria lógica dessa comunidade de fé é pouco atreita às hierarquias e figuras humanas de autoridade (algo como a confissão seria ali impensável). Servirá de ilustração o facto de eu próprio ter sido convidado por várias vezes para "entregar mensagens" ─ polémicas q.b. ─ no momento que entre os católicos corresponde à homília.

Feito o preâmbulo biográfico e pessoal, passo a explicar as razões do meu silêncio em relação à morte do Papa:
1- Uma compreensão respeitosa pela fé dos católicos. Não banalizo o fenómeno da fé, percebo-o nas suas singularidades, e isso empresta-me a uma certa sensibilidade. Uma sensibilidade que, no entanto, não elide uma crítica - às vezes eivada de um irresistível proselitismo anticatólico.
2- Longe de defender que na hora da morte devem valer as elegias acríticas, tenho uma dificuldade pessoal em assumir balanços crus no exacto momento em que uma vida finda.
3- Como se deduz dos pontos anteriores, o elemento crucial é que eu pouco teria a dizer de bom sobre o pontificado de João paulo II e, muito menos, sobre o que constitui a instituição por ele representada. Uma instituição que invocando a herança de Pedro vem sendo erigida e mantida sobre o canto do galo. Sobre o silenciamento da relação com Jesus. É o que eu penso.

Parabéns

A Bomba Inteligente faz dois anos. Muitos parabéns para a Carla. Em jeito de prenda semi-embrulhada, aqui lhe deixo um dos seus ícones.

Não sei o que é que elas vêem neste tipo! Humpf.

Excentricidades

Não consigo deixar de perceber algumas comunalidades entre os profetas de Jeová e os meus amigos ansiosos por me iniciarem no consumo de drogas leves - e outras. Nunca molestei as minhas sociabilidades por essa excêntrica omissão e até aperfeiçoei um tom meigo e comunal para dizer "passo". Quando (e se) me decidir a fumar um charro não será certamente pelas preces de proselitas chatos decididos a indicar-me o caminho da verdade.

A sucessão

A condição de saúde de João Paulo II convida à especulação sobre o possível sucessor. O que me deixou atónito foi ouvir o termo usado para descrever os cardeais com legítimas aspirações à cadeira de Pedro: "papáveis". Sim, leram bem. Os cardeais papáveis. Haja seriedade.