Vibratos

"Fremem em mim os nervos vibrados de todos que vejo que sentem,
Correm-me dos olhos as lágrimas de todos que choram porque se separam,(...)
Ó doença humanitária dos meus nervos vibrando cheios de outras pessoas,
Volúpia de gozar e sofrer através das hipóteses dos outros... "

Álvaro de Campos
É assim mesmo. Nas novelas, nos filmes, nos romances, nas confidências, jubilamos e sofremos com as hipóteses dos outros. Acompanhando-as expectantes. Mas nisto de projecções de querer, lembro sempre a história daquele poeta mexicano que todas as semanas ia ao cinema ver o Casablanca, sempre com a resilente esperança: "pode ser que desta vez eles fiquem juntos no fim". As hipóteses dos outros. Pois. Às vezes dou por mim a visitar essa sala com a afeição do poeta. Sento-me num canto escuro. E finjo que são os actores que estão na tela.

Promessas

Uma dia vou-me dedicar a correr as listas de links para eleger blogs com nome bonito.

Setúbal: sofrimentos clandestinos

Quinta, dia 31 de Março, em Setúbal, irão ser julgadas duas mulheres pela pela prática de aborto. Há 20 anos que tal não acontece em nenhum país da Europa para além de Portugal.

A lei não precede quem a aplica, ela existe e vivifica pela boca de quem a cita. Os Juízes que citam e recitam a lei nas suas sentenças são, de algum modo, os seus guardiões, são, afinal, quem a torna substantiva. Quando a eventual citação de uma lei -- que levaria à reclusão de mulheres acusadas de terem praticado abortos clandestinos -- atinge um nível de absurdo social, em que ninguém tem a coragem de a citar, ou de exigir a sua aplicação, é a insustentável exuberância da barbárie que se mostra, mais uma vez, para vergonha de todos nós. Para suprema humilhação de algumas mulheres.

31/03 Concentração frente ao Tribunal de Setúbal a partir das 9h00.


A rúbrica do Rui Tavares

Pena fina e certeira, o Rui Tavares consta, sem dúvida, dos 3 ou 4 bloggers que mais aprecio no registo político. Posto isto, não consigo deixar de me desconcertar com um dos elementos que mais singulariza este Barnabé. Refiro-me ao indisfarçável desespero com que ele vive, desde há muito, o sucesso de Mourinho. Ele sofre, pantanoso, com cada vitória, ele padece, desgostoso, com cada reconhecimento internacional. O maradona classificou com proverbial maestria aquilo que, afinal, já se tornou uma rúbrica do barnabé:

"intermezzo habitual do Rui Tavares em mais um episódio da sua re-novela contra o que ele imaginou que é o Mourinho e o que ele acha que o Mourinho e os seres humanos devem ser". Está lá tudo.

Heterossexual não assumido

A pouca sorte com as mulheres fez com que ele se descrevesse enquanto "heterossexual não assumido". A explicação é simples: a livre "assunção" de uma sexualidade, da sua, vem teimando em ficar refém das opções. Delas.

Chamaste?


Passeando pelas tortuosas mas apetecíveis linhas de Judith Butler, encontrei aquilo que creio ser a versão pós-moderna do "Are You Talking to Me?"
“You can call me this, but what I am eludes the semantic reach of any such linguistic effort to capture me.”
Se seguirmos as recurvas palavras da feminista, a questão de fundo é esta: nenhum sujeito se cinge completamente à identidade por que se reconhece a si próprio e por que é reconhecido pelos demais. Perturba-me que as pessoas celebrem o fatalismo daquilo em que se tornaram, vincando-o, fechando-se amiúde em traços que acabam por ferir a sua vida social e afectiva: "O que é que eu hei-de fazer?, sou assim!"
É certo que todas as histórias de "viagem" deixam traços, às vezes fortíssimos. No entanto, quando -- como quase sempre acontece -- os nossos ideários dependem da abertura à mudança e aos "outros significativos", há que ter o jogo de cintura e a capacidade de assentir o quão perigosa é a prematura resignação de nos chamarmos pelo nome, ao jeito do maître: "A já avançada idade ensinou-me a resignação de ser Borges."

Ia lá deixar passar!

Muitos parabéns ao Fora do Mundo que por estes dias cumpre o seu primeiro aniversário. Do principal animador de serviço, deixo-vos uma pérola daquelas coisas que assolam o mundo dos outros. E o nosso.
"2 A.M. Regresso a casa, saído do cinema. Chuvisca. Ao fundo da minha rua, do outro lado do passeio, um homem (que me parece oriental) está ao telefone numa cabine pública. Tem o fio estendido até ao máximo. Está a chorar."

Catarse

Respostas a dar, posts a assinalar, devaneios a zumbir-me na cabeça. Já cá volto, com mais tempo, para uma bem ordenada catarse. Uma catarse em forma de posts, pois claro.

"Amável", uma pessoa que bem me conhece brinca comigo por eu abusar da palavra catarse. Doce paródia ou facto, nada a fazer, desta não lhe resisti mesmo. Na verdade, e pese embora a serenidade que me caracteriza - estou convencido -, catarse é o termo mais adestrado para descrever o que aqui se vai passando. Este blog está profundamente comprometido com os estados de alma de quem o escreve. Não é improvável que se o avatares fosse um blog colectivo acabasse breve, ao melhor estilo, com um crime passional.

Madeira amazónica

Eu sei que devia ler melhor o Dossier. Mas nestas coisas sou visceralmente subversivo. Estou com a Greenpeace.

Senhora do Destino

Há imensa gente que vê novelas. Há imensa gente que tem blogs. Mas, curiosamente, as únicas expressões culturais que se vêm por essa blogosfera afora esmiuçam livros, poesia, cinema, teatro, ópera. Como diria Adorno, só alta cultura. Será apenas porque as novelas se vêem mas não se entrenham na reflexividade e nas emoções? Duvido. É, creio bem, a mais pura vergonha pseudo-intelectual. Afinal, com maiores ou menores ambições estético-expressivas, é a complexidade da vida que se reproduz nas novelas. Eu jamais renegarei à relevância biográfica do Pantanal, da Dona Beija, do Louco Amor, do Roque Santeiro, da Tieta... Estou certo que esse ritual diário, por muitos ainda preservado, ocupa um espaço nas histórias pessoais que tende a ser silenciado no espaço público. Mais silenciado ainda se esse espaço público assenta fortemente nas vaidades intelectuais e na estetização de um planar sobre a populaça. Caso do mundo dos Blogs.

Bem se diz: Portugal: país de armários.

Como nasce um intelectual?

É engraçado pensar no lugar que as leis da atracção podem assumir na produção de um intelectual. Eis este belo momento confessional do enorme Michel Foucault:

"Havia lá [na escola] um rapaz muito atraente, mas que era ainda mais burro do que eu. E, para ver se caía nas graças desse rapaz, lindíssimo, comecei a fazer o trabalho de casa dele -- e foi assim que me tornei esperto, eu tinha que manter todo este trabalho de modo a manter-me sempre um pouco acima dele, para o poder ajudar. Num certo sentido, todo o resto da minha vida tenho tentado fazer coisas intelectuais que atraiam rapazes bonitos."

McCarthy

McCarthy ainda não é o melhor marcador da liga, mas já é o rei das agressões. Ou bem que a direcção do Porto o castiga exemplarmente ou lhe compra umas cotoveleiras para o profissionalizar à séria. Isto assim é que não pode continuar.

Saraband


Entrevista com Liv Ullmann, "a actriz" e ex-cônjuge de Bergman:
Costuma falar sobre a morte com Bergman?
Sim, às vezes. Não temos propriamente a mesma opinião. Ingmar quer acreditar piamente que há uma vida depois desta. A mim, isso não me interessa tanto. Desde 1974 ou 1976, já não sei bem, falamos ao telefone todos os sábados. Os temas variam, às vezes são muito pessoais. Às vezes não temos nada para dizer, mas podemos sempre falar! Partilhamos tantas referências comuns, trabalhámos tantas vezes juntos.
Do que falaram no último sábado?
Foi muito privado, ele tinha dores de estômago. Aprendemos com Strinberg a misturar trivialidade e grandiosidade, a merda e os céus... Strinberg significa tanto para Ingmar e para nós todos.

Skinplaning

Skinplaning. A primeira vez que me ocorreu este conceito, nas nuas proximidades da tua pele, essa pele inexplicável, percebi que estava desgraçadamente apaixonado. Nada de que já não tivessse por certo. Nada que já não te tivesse anunciado em segredo pelas cócegas do teu cabelo. Mais do que a sublime expressão do amor, como aventava La Rouchefoucauld, mais do que uma estreita mecânica orgástica, como supõem alguns libertários, o enleio dos corpos, na candura intempestiva dos abraços, na insuportável ternura das mãos que adormecem dadas, revela um estranho poder de revelação sobre a vida ou sobre o fim. É o magnetismo meneante que nos desdiz ou nos desgraça. Contou.

Skinplaning, assim criativamente germinado entre os sinais da tua pele, não é uma prática de estação, não é o mero o conluio de certezas prévias, é uma actividade do âmbito da adivinhação. Da ordem do profético. Como quem lê o futuro nos corpos. O futuro de um amor.

Explicou.

Sporting-Porto

A minha fé no futebol que o Porto vem praticando esta época é tal que 90% das minhas expectativas para o duelo passam pelos pés de Hugo e pelas mãos de Ricardo. Os outros 10%? Bem, pode ser que o Beto jogue.

Punch lines do século XX português

Sobral de Monte Agraço já tem um parque infantil!

É uma frase geracional que jaz intocada no inconsciente colectivo português. Porventura com uma resilência similar à daqueles desenhos animados que o Vasco Granja ia buscar à Checoslováquia. Não será coisa para Freud. Já Jung, esse sim, poderia descortinar nestes traumas colectivos as causas profundas "disto" em que nos tornámos. Temos que pensar de que modo a cultura mediática vai forjar, ao nível do inconsciente, os meninos guerreiros de amanhã.

"can´t take my eyes off you"


Diz Arundati Roy: É curioso como às vezes a memória da morte vive muito mais tempo do que a memória da vida por ela roubada.

É poderosíssimo o elo entre a memória da perda e prefiguração que dela fazemos.
E quando assim é, quando a perda sentida ou pressentida domina a experiência, a desgraça é mais escorreita. Não por trazer o fim, já de si inevitável, mas por molestar vida que com ele findará. Bem vistas as coisas, o fim, o fim do amor -- se neste tema quisermos cingir o bordado --, está na natureza dos começos. Em última instância, lá, nas lonjuras do tempo, valerá o sacramento da morte separadora. Porque não, pois, celebrar a franca lucidez de um sorriso cientemente alheado? Coleridge designou por fé poética a voluntária suspensão da descrença por um momento. Não peçamos tanto. Peçamos mais. Um novelo de "momentos" de crença viajada. Enlaces de almas para quem desespero do fim se une a um consentimento informado com "a ordem das coisas". Eis, pois, o sorriso de Portman que aqui resgato, o sorriso que sabe tudo isto, mas que, ainda assim, não cessa em criar vida, em insuflar de alento "os dias de felizes", em consentir na sofreguidão dos abraços. O fim pesa horrores, a ingenuidade paga-se caro. Mas, no fundo, isto é tudo uma luta entre duas memórias. A memória da vida e a memória da morte. Sábios são os amantes do porvir, os fazedores de um amor viajado. Só um amor vivido merece disputar com o fim e com a sua memória.

Desculpa editorial

O blogger anda impossível. Nunca a publicação esteve tão difícil. Resultado, voltas e trocas, apaguei o post "Guronzan". Ainda recuperei o texto, mas mandei para o espaço o melhor que ali estava, ou seja, a belissima a discussão que seguia na caixa de comentários sobre venda livre de medicamentos (34 comentários na altura do "acidente"). Na verdade, eu tenho os comentários todos guardados na página do haloscan, mas, sinceramente, não sei como os recuperar para o post. Prezados comentadores e leitores, as minhas desculpas. Bem, salvo o que era possível salvar, as caixas de comentários voltam a estar aí, como sempre, indeléveis, ao nosso dispor. Aceitam-se merecidos insultos.

Guronzan

Deixem-se de merdas, é para liberalizar é para liberalizar.
Guronzan e a Pílula do dia seguinte. Para quando em pack nos hipermercados?

Piada reacça do mês. Miséria. Agora a sério. Defendo que de modo algum dever ser questionada a venda livre das pílulas do dia seguinte. Certamente que há muitos medicamentos que comportam perigos quando utilizados de um modo desinformado. Deve, por isso, e consoante é proposto, haver um aconselhamento técnico especializado onde quer que se vendam medicamentos que não carecem de receita médica. Ou então, se -- e só se -- esta condição não se verificar de um modo cabal, deverão equacionar-se restrições na venda de determinados "medicamentos livres" fora das farmácias. Não venham os conservadores do costume tentar "baralhar para dar de novo".
Comentários originais (35)

Adormecer assim

Gustave Coubert, The Sleepers, 1866

O Colar de Pérolas junto à mão de uma das amantes lembra os adornos do dia.
Despidas e enlaçadas dormem doces. Invejáveis. Após a volúpia dos corpos, esta candura do leito encena o nirvana sentimental. Talvez ainda acordem, para adormecerem outra vez. Será amor o que ali vai?

Post dedicado às meninas do Cacaoccino.

It´s a Spring thing.

Depois do Luís aludir aos umbigos, não resisto a evocar a expressão mais sazonal que já passou por este blog: Decotes em flor. Exactamente, já se percebe, está a chegar o tempo dos decotes em flor. Atenção, previnem-me amigas, a Primavera-Verão da Mango está particularmente generosa para os pólens esvoaçantes.

Partido Sexista

O novo oxímoro: Mulher Socialista.

Ficamos a saber que um dos estandartes maiores da dita "Esquerda Moderna" é o sexismo sem vergonha. Escolhem-se as pessoas pela competência e não pelo sexo, Dizem eles. Mentira. O que se define, isso sim, é o sexo competente. Vergonha. Ou melhor, falta de.

Grijó Outlet

A sensibilidade da Antropologia ao fenómeno da globalização convida a um olhar localmente situado. Embora conhecendo muito dos trágicos epistemícidos causados por 5 séculos de imperialismo ocidental, a Antropologia, por ter sido nascida no reconhecimento da diversidade cultural, exercita um passo atrás em relação às perspectivas que assinalam a homogeneidade cultural trazida pela americanização/mundialização do planeta. Há muitos conceitos que procuram apreender o modo como os modelos e lógicas globais, sob a égide do capitalismo, sempre se articulam com o local, numa continuada produção de diferenças, ainda que estas contem com elementos comuns. Há quem goste de evocar como exemplo emblemático o feiticeiro que introduz um pneu Michelin no seu ritual. Para mim nada é mais significativo do que passar pela A1 e ler "Grijó Outlet".

Post Traumatic Football Disorder

aka "síndrome Mourinho já treinou aqui"

Porto:0 Nacional:4
Estavam à espera um silêncio cobarde? Esqueçam. Vamos lá a isto. Ainda que as citações sejam coisa de pseudo-intelectual, nunca me esforcei para lhes resistir. A respeito do jogo de ontem ocorre-me evocar Tony Carreira: "sinto um vazio em mim". Não podemos ganhar sempre. Constatação dolorosa, acreditem. Por outro lado, e como já se adivinhava, o período pós-Mourinho é talvez a mais cruel das patologias que o futebol conhecerá, a Post Traumatic Football Disorder. ─ Bem, ter na equipa o Ricardo à cata de centros não deve ser muito melhor. ─
É bom lembrar que quando Mourinho saiu do Leiria, Mário Reis, o sucessor, só resistiu duas semanas. Parece que no intervalo de primeiro jogo os jogadores andaram à porrada. Sintoma, pois claro, de um fenómeno mais amplo. É a essa luz que temos que perceber Del Neri e Fernandez. Mesmo assim a gestão da época pelas bandas do Dragão tem sido má demais, e, para cúmulo, às questões lúdico-desportivas junta-se a evidência de um balneário psicologicamente esfrangalhado – as agressões disparatadas são disso expressão. Psicanaliticamente falando, falta ali o falo do Mourinho, falo que era tão castrador de veleidades anti-grupo, como produtor de jogadores insólitos (lembram-se de um certo Postiga?). Mourinho faz-nos acreditar que somos melhores do que somos, e isso faz-nos, de facto, melhores. A isto se chama "regime de verdade". Sim, cito Foucault, para variar. O problema é voltar à verdade após a queda desse regime outrora sustentado por um génio que a itinerância acolheu.

Uma coisa é certa, é incrível como é que com esta época desgraçada o Porto ainda está perto dos primeiros lugares. Se, por milagre, ganharmos o campeonato, os festejos serão efusivos. Depois de tantas vezes ganhar esmagando, queria experimentar como é que é isso de ganhar sem merecer.
Não foi ontem o caso do Nacional, muitos parabéns.

2 em 2

What shall we do to-morrow?
What shall we ever do?
A Terra Desolada. Hesito na escolha da melhor tradução para esta passagem de Eliot. Como dizia Foucault, cada cultura vive sob o peso das suas próprias edificações, cada identidade, cada pessoa, cada espaço-tempo de uma escolha é constrangido e constituído na contingência de uma tribo. Sansão foi um caso singular, escolheu o não-ser criando ruínas. Esmagado pela história, cruel e traiçoeira, foi-se, derribando consigo os símbolos pétreos da dominação. Hesitando na tradução que fazemos de tudo, a questão mais funda será sempre escolher o que fazer amanhã, pensando também no que jamais faremos. Juntar as questões é viver a identidade no limite. Desassossego criativo, pois claro. Convém temperar o descontentamento; às vezes, tão importante como saber onde estamos é saber estar onde estamos. Por tanto hesitar a personagem de Sartre não estava em lugar nenhum. Conforme dizia Geertz, ainda que possamos viver mil vidas acabaremos no final por viver apenas uma. Mas, se de quando em quando temos de pôr questões, que sejam duas de cada vez.

Radicais ao poder

É uma questão que permeia a ambição dos muitos insignes que entregaram as suas vidas à coisa política. Qual é a maior honraria política que se pode almejar? Para alguém que vive politicamente engajado a glória política deriva da realização das causas defendidas. Mas, a minha questão tem mais a ver com uma perspectiva individualista da carreira política e do prestígio social que a ela se liga. - Desgraçadamente, o móbil dominante na política partidária. - Assim, poderemos aventar alguns lugares primeiros da ambição política: presidência da república, liderança do governo, presidência da comissão europeia ou a secretaria geral das nações unidas. No entanto, tenho para mim que a maior das honrarias biográfico-políticas tiveram-na aqueles que foram expulsos pelo comité central de um partido comunista. Ou, alternativamente, aquele senhor que viu a sua fotografia ser tirada das paredes do largo do caldas. Freitas do Amaral, semi-conservador em termos de valores, anti-imperialista em termos de política internacional e, portanto, radical de esquerda num partido centrista - PS -, é o meu herói mais recente. Afinal já estive numa manif com ele. Um homem coerente não é aquele que é leal a uma institucionalidade, é o que escuta as suas convicções. Esperemos que ele não renegue à sua "juvenília" anti-Bush e anti-guerra. O eixo atlântico? Temos sempre o Reno.

A acompanhar

No Abrupto, memória das bibliotecas.
Talvez um dia aqui traga uma história dos dias vividos na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra. Aquela ali na alta, em frente à Faculdade de Letras, de facto um lugar que mais parece tirado d'"O nome da da Rosa".

Canetas de acetato

Nunca usei acetatos. De vez em quando lá recorro ao Power Point para cumprir o mesmo efeito das transparências. As canetas de acetato, essas, servem-me para duas nobres funções. Para tatuar os cd's que tiro da net - sim, processem-me - e para, momento delicado, largar uns dizeres no espelho do meu quarto. Escrevo para o espelho, não para as transparências. De resto não uso a minha caligrafia para mais nada. Bem, talvez um impresso aqui ou ali.

Chelsea: 4 Barcelona: 2


Uma das inestimáveis provas de que é possível não ser portista e, ainda assim, cedo assumir um lugar na história profética, é a prosa arguta do maradona:
"A diferença entre as pessoas normais que respiram oxigénio e o Mourinho que come vitórias ao pequeno-almoço é que este incute nos seus jogadores uma mentalidade ganhadora que desafia o mito daquele russo que dobrava colheres com o pensamento. Nunca vi nada assim, ou seja, nunca se viu nada assim. Ver um jogador mediocre como o Kezman, que a espaços faz lembrar o Krpan, a acreditar que pode ter melhor rendimento ofensivo que o Eto ou o Ronaldinho é algo só explicável pelo processo hipnótico."
Sublinho o que há muito aqui venho aventando: nunca se viu nada assim.
Sobre o futebol e sobre Mourinho há uma regra que há muito assumi na vida social: nunca gastar latim com alguém que enuncia a frase "é pena ser tão arrogante". Deixá-los. Nunca vão perceber.

Encenações

A última vez que chorei foi há uns minutos. Nada de notável. Creiam-me. Talvez o verbo chorar seja demasiado nobre para assim o tentar, quiçá levianamente. Com denodada argúcia descubro lágrimas na melodia de uma música, ao descer de um poema, no baixio de uma fala perdida. As minhas lágrimas são servis a qualquer artefacto cultural, a qualquer encenação social que mostre merecer a performance de uma tristeza. A ritualização de um vago sentir. Acho que nunca dei muito importância ao choro assistido.

Peoples identities do not precede their performances, but are constituted in and through them.
Judith Butler

Need I say more?


Sobre Freitas do Amaral

A falta de cultura religiosa de alguma esquerda vê-se em princípios como este: desconfiar sempre de um recém-convertido. Quem é que queriam lá, José Lamego? Convençam-se, Freitas com aquela pasta - friso, com aquela pasta - é do melhorzinho que se arranja pelo XVII governo constitucional.

Aproveito a leva para dar os Parabéns à excelente Voz do Tiago Cavaco. Apesar de desgraçadamente convertido à estética reacça, não desitamos dele tão cedo.

A voz do além

Posto o soberbo ensejo de nos presentear com a viva voz de Borges, a Carla intui, sage: "depois de ouvirmos Borges a ler Borges, não sei, sinceramente, o que poderá ser melhor. Nada, suponho.".

Mas não, o Nuno Guerreiro oferece a única resposta possível: mais Borges

Finalmente: O Insullto


Porque me preocupa o politicamente correcto, porque estou atento aos sinais, até aos mais compreensivelmente envergonhados, devo dizer que este post não tem quaisquer pretensões estéticas, sensuais e eróticas em torno do corpo da Salma Hayek. Barbaridade impensável. Isso poderia ser uma ignóbil forma de sexismo. Um corpo bonito e desejável é ofensivo, a sua exposição, assim num blog, poderia representar uma atitude predatória insuportável. Posto isto, devo dizer que, apesar de possíveis efeitos colaterais, este post tem apenas uma função discursiva, o seu único fito é perturbar, ainda mais, quem possa ter vilipendiado a evocação pictórica feita no post sobre as "mamas do antigamente", chamando-me sexista. Será uma minoria insignificante, certamente ninguém que eu preze pela coerência das suas credenciais feministas - essas admiráveis gentes andam muito descomplexadas por estes dias -, certamente ninguém que merecesse este espaço, mas, vá lá, dêem-me este gostinho, o gostinho de produzir um insulto que, dentro ou fora da cultura do simulacro (aka, silicone), decerto ficará registado pela doçura das suas formas.

Ouvir

Oh, sim, eu estou tão cansado
Mas não pra dizer
Que eu não acredito mais em você
(...)
Vou descendo por todas as ruas
E vou tomar aquele velho navio (...)
Vapor Barato, Gal Costa, 1971

Tsss, tsss

Um amigo contou-me que no escritório onde trabalha, algumas pessoas, leitoras assíduas deste blog, reagiram ao post da Salma Hayek chamando sexista ao seu autor. A mim, pois claro. Já cá volto para, amigavel e docemente, "insultar" essa gente.

Ironias confessionais

Não deixa de me surpreender o número de pessoas próximas, ou nem por isso, que, em momenstos críticos, me confiam os seus problemas e angústias sentimentais. O facto de amigos e afins me elegerem como interlocutor para as suas questões afectivas deconcerta-me. Tipo: olhem para mim! É o mesmo que irem ter com um careca pedir dicas para a queda de cabelo. No entanto, hipótese preocupante, começo a pensar me fazem amiúde repositório de confessionalidade, não por estarem convencidos da felicidade emocional que possa advir dos meus argutos conselhos, mas, ao invés, porque a minha existência deve inspirar possibilidades solidárias em face de um cenário que, no íntimo, sabem iminente.

Ainda assim, nisto dos conselhos sou muito conjugal e profundamente temeroso: "vai lá pedir-lhe desculpa", "tens a certeza que já não gostas dela", "não achas que podes estar a pôr tudo em causa por um fogo de vista?", "vais ver ele não fez por mal", "as relações são assim mesmo". Com a vida dos outros o melhor mesmo é ser conservador; as rupturas, a terem que acontecer, é bom que sejam ostensivamente evidentes e inevitáveis para quem lá está, independentemente dos conselheiros.

Padre Nuno Serras Pereira: um homem coerente

Em relação ao "Padre recusa dar comunhão aos católicos que usam métodos contraceptivos", exige-se uma palavra. Sei bem que esta atitude extremista é partilhada por pouquíssimos párocos e católicos em geral. No entanto, talvez seja perversidade minha, mas gosto quando surge alguém que é consequente com as orientações sobre-estabelecidas. A questão provocativa é pensar que talvez este padre esteja estar a ser coerente com aquelas que são as determinaçoões católicas em relação aos contraceptivos. Farto-me da condescendência dos que defendem que as práticas de base são muito diferentes das leis de cima, e que assim deve ser, que assim está muito bem, o povo está sereno. Haja coerência. Seria absolutamente atroz, mas apetece-me questionar a título de exemplo como seria se, como determina a lei, uma mulher fosse para o cárcere por ter abortado clandestinamente? E, afinal, não seria isto o mais coerente com a lei que temos? Cumpra-se ou mude-se! Talvez precisemos de mais pessoas coerentes e consequentes como o padre Nuno Serras Pereira para tornar límpido o absurdo.

"As mulheres portuguesas são parvas"

Apesar do título provocativo, este artigo do público artigo em que, por uma vez, Maria Filomena Mónica se absteve de destilar ódios pessoais, até está bem gizado. MFM enfatiza como se perpetuam as desigualdades entre sexos no investimento que é feito na lida da casa e no cuidado dos filhos. Chega então o final apoteótico:
Ao longo dos anos, tenho ouvido de tudo, incluindo mulheres que dizem estar contra a emancipação feminina. Pensei então que não valia a pena perder tempo com tontas. Mais madura, considero hoje que o melhor é retirar-lhes o direito ao voto, o direito ao divórcio e a protecção legal contra a violência doméstica. Se gostam de ser escravas, que o sejam. Acabou-se o tempo das contemporizações. Quem luta, têm direitos; quem se resigna, fica de fora.

A esta hora as "Mulheres em Acção", devem estar a reunir de urgência. "Nunca fomos tão insultadas", dirão certamente.

O nome Mulheres em Acção é aparentemente cómico para uma associação que defende a família tradicional e a conformação da mulher aos modelos culturais tradicionais (aka, patriarcais). No entanto, de modo sintomático, este nome mostra o quão pertinente é uma distinção há muito feita por Boaventura Sousa Santos. Diz o sociólogo que a transformação social não depende da oposição entre estrutura e acção, como muitos gostam de afirmar, depende, isso sim, da oposição entre acção conformista e a acção emancipatória. E isso faz toda a diferença (não confundir com o slogan do Bloco).

Atrasos

Ainda que atrasado, não quero deixar de dar parabéns ao Blog dos Marretas ao Blasfémias. Aproveito ainda para dar as boas vindas ao Murcon.

As mamas do antigamente

A propósito da dúvida que levantei na noite dos óscares, a Aguarela disserta sobre as mamas de Salma Hayek. À luz das teses desta atenta rapariga os seios da actriz representarão ainda um resquício da época pré-silicónica.

A nostalgia pelas mamas do antigamente configura-se em duas modalidades. A primeira, é a modalidade daquelas/es que celebram o natural em detrimento da artificialidade do silicone. A segunda, é a modalidade de quem não esquece a forma das mamas idas. E, nesse caso, interessa pouco se são perfeitas, interesa pouco se e como descaem, interessa pouco o contraste entre a pele e a cor do mamilo. Nesta modalidade de nostalgia, aquilo que é impossível de ser esquecido resulta, como dizia o Chico Buarque, do vazio, sim, o vazio dos seios que ficam marcados nas mãos, os seios que ficam cravados na memória do corpo. Nada que se perceba completamente sem falar de amor. A estética é reduzida à sua "real" insignificância. Aqui sim, sem solipsismo tentável, as mamas "aparecem" como cruéis metonímias do tanto que se perdeu.

1-1

Não há vitórias morais. Poucos campos da vida social têm tantas frases batidas como o futebol. Ainda assim, a sentença "não há vitórias morais" consegue ser das mais languidamente reverberadas. O único paralelo que me ocorre para este fenómeno é a centralidade detida no campo dos amores pela deixa "precisamos de dar um tempo". Desde os meus 10 anos, jovem etnógrafo no recreio, sempre pensei que isso de vitórias morais era coisa de benfiquistas. Razão porque, embora anuindo na impossibilidade de vencer moralmente, tendo a hesitar quando a coisa veste de vermelho. Se não houvesse vitórias morais onde estaria hoje essa instituição grandiosa - sem ironia - chamada Sport Lisboa e Benfica? Reconheçamos, desde que o Veloso falhou aquele Penalti, é a capacidade para a efabulação das "vitórias morais" que tem mantido viva a alma benfiquista face à aspereza da realidade. É essa capacidade que tem mantido o Benfica vivo enquanto "o glorioso". Este simples facto histórico talvez dê já uma substância de realidade às assim designadas vitórias morais.

Mas se o conceito de vitória moral apenas pode ser entendido no seio da mitologia benfiquista, já a ideia de derrota moral é bem mais sólida. Derrota moral é o que sentem os viciados em vitórias quando não ganham. O vício pode ser tão grande que chega a extremos como este: o empate com o benfica foi uma derrota para os portistas. Objectivamente. Bem sei que ganhámos na luz e que o balanço anual é positivo. Bem sei que o campeonato está ali à espera de quem consiga fazer dois bons jogos seguidos. Concedamos pois conforme a mitologia de cada um. O Benfica ganhou em termos morais pelo futebol que praticou e pela excelência do seu fair play. O Porto perdeu, porque não ganhou, perdeu, porque, como há muito sabemos, esta á única moralidade que nos serve, a única que nos faz cada vez melhores. É aqui, nas apropriações criativas de um resultado, que se começa a desempatar o porvir.