Million Dollar Baby

O bonito mais vestido foi, de longe, aquele que envergou Hale Berry. Pouco conseguido, o traje de noite de Hilary Swank teve, ainda assim, o mérito de desenhar as costas da melhor atriz.

Uma cerimónia pobre em grandes momentos. Tocante a emoção de Jamie Foxx evocando a avó. Duas dúvidas permaneceram até ao fim. Primeira. Ficaria Scorsese, após a 5ª nomeação, outra vez sem a estátua para melhor realizador? Ficou. Senti por ele, mas de facto o Aviador não merecia. Grande vencedor, Clint Eastwood, embora com menos óscares do que O Aviador, arrecadou 4 das 5 estatuetas mais desejadas. Segunda. Dúvida. Antiga e igualmente perturbante. Serão "genuínas" as mamas de Selma Hayek?

É complicado dizer. Nestes casos de revelação assinalável, nunca sabemos se o que está em jogo é mormente a cirurgia ou a arquitectura do decote. Mas pelo que já vi de outros filmes sou tentado a consentir na mão invisível do silicone.
Kate Winslet estava muito gira. Julie Deply fica estranha em roupa de gala. O encanto dela é bem outro. Hale Berry, versão cabelo comprido, deslubrante. Johnny Deep, o charme da excentricidade. Morgan Freeman, sem dúvida um belo senhor. Beyoncee encantou os apreciadores. Kate Blanchett tem uma presença impressionante. Mas, que ningém tenha dúvidas, foi esta a menina mais bonita da festa. So simple.

Aparições não hegemónicas


Roubo esta oportuna imagem à Cris para vos propor pensar no efeito da "hegemonia da normalidade" (Lennard Davis) na desqualificação e invisibilização de configurações corporais que, grosso modo, são associadas à ideia de "corpo deficiente".

Um aparte

Escreve a Sofia:
Comovo-me com todas as vitórias e entristecem-me todas as quedas. As convicções que sinto não chegam para a política, para a guerra, para o futebol ou para o amor
Adulterando despudoradamente a bela reflexão da Sofia, apetece-me pensar no peso das quedas sobre as convicções. Ou, como dizia Camões, nos "...quantos enganos/Faz o tempo às esperanças". O peso das desilusões nos nossos intentos é arrebatador. Sabemo-lo. Não acredito em ninguém que viva por convicção sem se ter calibrado existencialmente àquilo que chamo desolação iniciática. As convicções são efabulações viajadas. Dependem de memórias de perda. Viver de convicções, políticas ou românticas, implica a custosa arte de deambular sobre as ruínas.
Explico:

Isto de uma vida de difícil re-encanto é perigosamente semelhante a uma vida sem encanto. É este parentesco que importa negar. Tenta-se. Emerge assim a celebração das possibilidades do quotidiano, descobrimos o tanto que a nossa acção pode significar, plantamos uma árvore, fazemos 999 filhos de tanto amor, cantamos e somos poesia nos bons dias de todos os dias, lutamos, se temos força, damo-nos se o egoísmo o consente. E são estas coisas e estas pessoas que prendem o desejo ao amor, que nos convertem em profetas de possibilidades e nos lembram a cada dia tudo o que perdemos por sermos quem somos. Mas também aqui há um perigo (esse campo minado do querer...), o perigo de fazermos dos limites assentidos, o conforto do nosso intento, de fazermos da impossibilidade de ser outro esses tantos outros em nós, enfim... o perigo da celebração dos limites. É por isso que entendo que não poderemos clamar os méritos de termos ajustado o querer ao poder, o desejável ao factível, sem trazer connosco o hábito de evocar a memória da desolação iniciática. Entendo por desolação iniciática esse momento mágico em que percebemos que a verdade não existe e que temos que lutar por ela no eterno fracasso, o momento em que percebemos que amar é consentir a espera pelo amor que vem, o momento algures em que o vislumbre das impossibilidades, ou nos paralisa, ou nos reconverte. É por referência à reiteração desse espaço-tempo pessoal (desolação iniciática), em que tudo acabou para começar outra vez, que as convicções se abatem ou se forjam.

Whale Tail

Whale Tail, cauda de baleia, é o nome dado aquela parte das cuecas de fio dental que fica visível em determinadas posições.

Tal visiblidade, socialmente sancionda enquanto acidental, cumpre um interessante efeito de sugestão erótica. Mas, embora a cauda de baleia se revele e seja vista por um encontro de circunstância incidentais, há toda uma indústria de sensualidade que a fomenta, ao ponto de muitas calças já serem desenhadas para permitir a sua aparição. A sensualidade, como nós a conhecemos, está vinculada a estes jogos de ocultação e revelação. Estamos tod@s.

Uma palavra demasiado boa para ser usada

Magnetismo

Che Mourinho

O Júlio, da Tribo dos Sonhos dedica-me uma T-shirt inspirada no revolucionário da bola. Bela dádiva.

Nas vésperas de um Barcelona-Chelsea vale a pena reiterar o que já aqui disse, enquanto ainda era tempo de profecias provocativas: Mourinho é o segundo génio que o mundo do futebol gerou no tempo da minha vida. O outro vocês já sabem (senão esclareço-vos nos comentários). Quanto ao híbrido sintetizado na T-shirt, Mourinho pode não ser de esquerda, mas recusou receber uma comitiva do PSD que se deslocou de propósito a Londres. É um começo.

Twixters

A revista Time chama-lhes Twixters: os adultos que não conseguem -- ou não querem -- assentar. Ou seja, a malta que insiste em perpetuar as liberdades da juventude. A América conservadora já arranjou maneira de estigmatizar esses adultos pelos "vintes" que fogem das responsabilidades. Curioso, a foto usada para ilustrar o artigo é bem expressiva da pressão social que está presente na invenção do conceito: a pressão para a reprodução de modelos de sucesso individual.

Obviamente sabemos o quanto a celebração da cultura juvenil, historicamente recente, transformou o prestígio de ser "mais velho", a glória do "homem feito", maduro, em favor da cultura do "forever young". Também sabemos o quão convulsas são as relações amorosas contemporâneas, que muito ajudam a fomentar a errância sentimental. Junte-se-lhe a precariedade laboral e começamos a perceber algo das razões para a disseminação dos, assim designados, twixters.

No entanto, também será legítimo forjar outras hipóteses para a "deserção" de americanos jovens. Talvez eles encontrem na sua própria itinerância vivencial uma forma de revolta, mais ou menos silenciosa, contra um sistema reprodutivo - económico, cultural e familiar - que, como o prova o artigo, não deixa de se sentir ameaçado por uma geração que superou sem traumas o complexo de Édipo, versão Cat Stevens.

Comoção

Muitos de nós não conseguem deixar de nutrir uma comoção em face da queda dos poderosos, por mais vis que eles sejam. Sou fraco, até com a capitulação de Saddam Hussein e Marcelo Caetano (via documentário) me emocionei.
No caso de paulo Portas, mais do que a noção de uma continuada performance política, em que as lágrimas emergem como significante importante, é memória da arrogância que me guarda da compaixão requerida pela sua bem ensaiada retirada (para voltar claro).

Post it

Tenho alguns papéis colados na parede que está defronte da secretária onde me sento. Percorro-os periodicamente como forma de evocar os recados que um Bruno pretérito me deixou a mim, seu sucesor em corpo. Leio uma frase de Chesterton, uma provocação de Artaud, um versículo da Bíblia, um poema de Baudelaire. Detenho-me num post it com um dizer de Julia Kristeva:
As mulheres não existem
Não podia concordar mais com esta atiçadora, discípula de Lacan. Ao contrário de Kristeva não me interesa de que modo as mulheres são inventadas no seio de uma linguagem patriarcal - falologocêntrica, é o palavrão - que teima em fazer do homem o significante primordial e as mulheres produções secundárias. A crítica de Kristeva é pertinente, bem sei. Mas a razão pela qual aquele papel está aqui à minha frente, na parede do meu quarto, é porque partilho das lições de Bob Marley. Para as nossos ensejos e lágrimas, as muheres não existem. É sempre um singular, woman, que nos mobiliza e assola. A mim e ao Bob. É o singular que nos merece as lágrimas, é o singular que nos enche a alma de futuros. Assim. Sucessiva e alternadamente.

Está tudo dito

Santanista convicta, diz Marina Mota, entristecida, sobre o resultado eleitoral: "ele foi crucificado, mas cristo também e hoje há muitos cristãos".

Para mim esta reflexão, sintetiza o que foi a passagem de Santana Lopes pelas altas lides da política nacional: um homem que sinceramente se crê o messias incompreendido, um injustiçado pelo mundo, mas que, ainda assim, conta no seu séquito com a fé militante de figuras como Marina Mota ou Luís Delgado.

Hetero exuberante

Na forma como a defino, hetero exuberante, ou homo exuberante, é aquela pessoa que ostensivamente manifesta a sua orientação sexual nas práticas interpessoasis quotidianas. Não há simetrias. Ser homo exuberante exige coragem. Ser hetero exuberante também não tem as mesmas implicações consoante se seja homem ou mulher. Há duas formas de ter uma sexualidade exuberante: a activa, pela forma como a pessoa reiteradamente promove um substrato erótico, insinuando-se, e a passiva, pelo modo como a sua mera presença acicata, mais ou menos involuntariamente, os desejos de outrem. Para quem gosta de descobertas e acredita na raridade dos encontros, amar alguém assim exuberante, é construir a singularidade enquanto apropriação criativa de um mito aparentemente conhecido. É ser mitólogo de preciosidades a partir do senso comum do encanto.

Reflectir

O meu momento de reflexão deu-se quando me convidaram a fazer parte das listas do Bloco por Coimbra. Não sendo militante, tenho com bloco e as suas propostas uma identificação silenciosa, razão porque, sem transigir a calculismos, tenho votado BE na calada da urna. No entanto, hesitei; mais facilmente me revejo nos movimentos sociais do que na política partidária. Preconceito, bem sei. Nesse quadro, a empatia pessoal que tenho com o cabeça de lista pelo bloco em Coimbra, José Manuel Pureza, foi decisiva. A generosidade cívica não é um valor em si, há por aí muito voluntarismo inconsequente e contraproducente – veja-se alguma malta que defende a despenalização do aborto a gritar “a barriga é minha!”. Mas quando essa generosidade se articula com um compromisso empenhado para dirimir – palavra deliciosa – os trilhos de exclusão e de subalternização que se vão cavando, sem maniqueísmos panfletários, com uma continua vigilância pela democraticidade das decisões, essa generosidade, dizia, assume-se como um genuíno chamariz de crença. Tenho tido a felicidade de conhecer algumas pessoas assim. Catalisadores de lutas e empenhos. A lista de que fiz parte, com sete independentes, entre os quais este Senhor, foi, devo admitir, uma surpresa insuportável. Tinha mais do que fazer. Mas não, dei por mim resoluto a fazer campanha e a entregar manifestos ao som do mais eficaz dos sundbytes: “feliz dia dos namorados”. Eu, que não gosto de sair do quarto, eu solitário que vilipendia essa criação capitalista e que ainda assim tem algo de uma inveja desses casais irritantemente lamechas. Há algo mais patético do que isto? Ah, ironia, esse campo minado do querer... Gosto de lidar com gentes acossadas por dúvidas, pessoas que nem por isso se paralisam, ou se fazem cínicos. Duvido das certezas. Duvido de um pragmatismo cego de quem acha que o melhor é sempre esperar o pior. Eu espero o melhor. Sócrates a governar fora do bloco central dos interesses instalados. Se a democracia é, como dizia Borges no seu registo mais reaccionário – ainda assim encantador-, esse supremo abuso de estatística, então abusemos das convicções.

O meu momento de demagogia

Cinco das seis sondagens publicadas hoje dão maioria absoluta ao PS

Não, não, não...

Declaração de incoerência

Escreve Pacheco Pereira no Público:
Muitas pessoas acharão que para um crítico intransigente como fui e sou de Santana Lopes é a máxima incoerência "votar nele". Será, porque eu não conheço uma maneira de votar no PSD sem ser "votar nele". Mas não digo a ninguém para o fazer e compreendo muito bem que muitos dos eleitores tradicionais do PSD se preparem para votar em branco, ou não votar e mesmo votar no PS. Olhem para o que eu digo, porque o que eu faço é demasiado dependente das minhas circunstâncias e se quiserem do dilema em que me meti. Acontece e não é cómodo.
Mais do que avaliar aquilo que me parece ser um absurdo, Pacheco Pereira votar no partido liderado pelo homem que tanto criticou, apetece-me valorizar a difícil honestidade que vai neste excerto.

SMS: O dedilhar do amor

Daniel:
sms1 Diz-me adeus mais uma vez. Só para ver se desta vez consegues que não chore.
sms2 Ou então não digas. «Só» para ver se somos capazes de nos amar até ao fim. Até esgotarmos as eternuridades*. (Infindas).
*Eternuridade, s.f. (do lat. aeternitate por aglutinação com do lat. ternu). Qualidade efémera do que é terno.|| O que há de eterno no transitório.|| Afecto muito longo; tristeza suave e demorada.||

Debate

Ouço Zeca Afonso no Coliseu. É notável o seu sacrifício naquele que foi um dos últimos concertos que doou, é admirável como ele procura acompanhar a música com a voz que manifestamente lhe falha. É assombroso o momento em que pede ajuda ao público para levar uma canção mais difícil até ao fim. Emocionante a profética música cientemente bradada, silenciosamente chorada "Águas e fontes calai, oh ribeira chorai que eu não volto a cantar". Ali sim, o que faltou em voz sobrou em alma, em generosidade, em fraternidade. E, sobretudo, em capacidade para fazer brilhar a energia de um futuro, de uma esperança. Que não haja confusões no que a romantizações diz respeito. A Jerenónimo de Sousa falhou a voz. Só.


Vaidade


"Vaidade de vaidades! Diz o pregador, vaidade de vaidades! Tudo é vaidade." Eclesiastes 1:2
A busca do prestígio social, da admiração, e do desejo dos outros é, sem dúvida, um motor fundamental na vida social contemporânea, marcada como é pelos valores individualistas. E isso é algo mais ou menos inevitável, demos de barato. Mas, até porque até porque as causas tendem a conferir protagonismo a quem as defende, não deixará de ser pedagógico pensar, a cada momento, o quanto de vaidade pode ir naquilo que nos move.

A morte como capital político

Escreve, com oportunidade, o PPM:

"A cabeça de lista do PS por Coimbra, Matilde Sousa Franco, foi prestar homenagem à Irmã Lúcia. Eu acho bem. A sério. Porque não? A senhora é católica praticante, como Paulo Portas. Presumo que tenha o culto de Nossa Senhora de Fátima, como Paulo Portas. Foi certamente convidada pela família da Irmã Lúcia, como Paulo Portas. O que eu não percebo é o motivo porque os comentadores e a SIC, os dois bispos da TSF e a esquerda em geral, não falam de aproveitamente político neste caso. Será porque é candidata pelo PS?"

Acredito que Matilde Sousa Franco foi movida pela sua fé e isso merece-me o maior respeito. A questão que a mim se me coloca é que a haver algum aproveitamento político desta morte, tal não seria um mero um evento circunstancial nesta candidatura é, isso sim, algo de estrutural. Explico.

Depois de já ter tido oportunidade de assistir a um debate em que a manifesta impreparação e incapacidade de de Matilde Sousa Franco a todos deixou confrangidos - razão porque nos restantes debates se apresentou o número 2 da lista -, não consigo deixar de pensar que a sua própria escolha resulta já do aproveitamento político de uma morte. A de António de Sousa Franco. Que me perdoem. Não quero ser demasiado duro, não acho que a identidade de uma pessoa, mulher ou homem, se reduza à sua conjugalidade; mas depois do que vi, é mesmo isso que penso.

Falta de vergonha

Depois de António Guterres, Durão Barroso irá fazer hoje a sua aparição na campanha eleitoral no tempo de antena do PSD. É preciso muita lata. Fogem às responsabilidades, ajudam ao pântano, promovem a tanga, e vêm agora dar palpites.

A reclusa

Lúcia foi uma reclusa precoce. Pouco ou nenhum foi o seu livre arbítrio durante uma vida sempre superiormente comandada a contento dos desígnios da Igreja. Expressão arrepiante da sua opressão -- a opressão opera muitas vezes pela hegemonia: a dominação consentida -- é o relato contido nas suas memórias, onde conta como foi impedida de se despedir da sua mãe, moribunda:
"[...] Sentindo-se no fim da sua carreira sobre a terra, [a Mãe] escreveu-me uma carta a pedir que, já que ela não podia ir ver-me, fosse eu a dar-lhe o último abraço, que não queria morrer sem voltar a ver-me. Mostrei esta carta às minhas superioras que, não obstante encontrar-me num Instituto de vida activa, disseram-me que isso não podia ser, que escrevesse a minha Mãe, animando-a a oferecer esse sacrifício a Deus.
Escrevi ao Sr. Bispo de Leiria, dizendo o que se passava. Sua Ex.cia respondeu-me no mesmo sentido. [...]
sentindo aproximar-se o seu fim, [a mãe] pediu a minha irmã Teresa que pusera uma conferência telefónica, fazendo uma chamada, para despedir-se de mim, sequer ao menos por telefone. Minha irmã levou-a para junto do telefone, para não demorar depois a ir buscá-la. Fez a chamada, disse o que pretendia: que viesse a Irmã Lúcia ao telefone para despedir-se da Mãe que se encontrava tão mal, quase a morrer e pedia para, sequer ao menos por telefone, já que não podia ser de outro modo, se despedir da filha, ouvindo o som da sua voz pela última vez. Qual não foi o desaire da minha pobre irmã, quando no telefone ouve um «não», dizendo-lhe que também isso lhe não podia ser concedido.Minha irmã não pôde ocultar à Mãe mais esta negativa, porque ela já se encontrava ali, esperando o momento de pegar no auscultador para dizer-me o seu último adeus sobre a terra."
A mãe de Lúcia morreria pouco tempo depois, no quarto da filha que nunca mais viu ou ouviu. Estranho amor o que por estas linhas perpassa.

40

Carolina sempre gostou de homens mais velhos. Nada a fazer. Quando as amigas da faculdade a inquiriam, com mil razões explicava essa vocação amorosa. Só a partir dos 40 encontrava o homem elegível pelo seu seu sentimento. No entanto, um dia apaixonou-se por um rapaz da sua idade. A coisa cresceu. Viciaram-se um no outro.
Nenhum conflito. Nenhum problema. Foi tudo muito simples. Gostava tanto do rapaz que ficou ao seu lado, à espera que envelhecesse.

Gestos


O homem do Mal inspira-se numas linhas sobre body painting para escrever um belo poema com eyliners e lipstiks.
O meu irmãozinho ajuda-me a compor o brinco que eu fracasso ajeitar ao espelho.

Qual vaidade? Se isto não é a ternura que vem da espuma dos dias, não sei o que é.

Carta aberta aos militantes do PSD

Antes de mais quero dizer que sei aquilo porque estão a passar. Exactamente. Quando Octávio Machado foi contratado pelo Porto, eu lá tentei baixar as defesas críticas, procurei esquecer que o homem tinha apoiado a agressão se Sá Pinto a Artur Jorge, olvidei a sua predilecção por trincos, a paranóia que sempre desvelava nas conferências de imprensa… Tudo isto pus para trás das costas para apoiar a minha equipa, por lealdade, por paixão. Quis ser optimista. Mas depois começou aquele futebol de bola para a bancada, vieram as substituições risíveis, a patente incapacidade de gerir um plantel, o fado para a asneira atrás de asneira. Mas o que me doeu mais foi quando Octávio Machado começou a brincar com os símbolos históricos do Clube, obrigando a que Jorge Costa fosse emprestado para o Charlton, para assim se tornar o primeiro exilado da democracia portuguesa. Como imaginam eu fui acometido por um dilema terrível, por um lado, mais que tudo, desejava ver aquele homem dali para fora, por outro, alimentava esse a-histórico ensejo se ver o porto ganhar cada jogo. E assim padeci, em dúvida. Andei a aspirinas. Até que tomei uma decisão dolorosa. Comecei a torcer pelo adversário. No café as pessoas chegaram a ficar preocupadas com o meu registo esquizo. Alguns amigos próximos chegaram a chamar-me de mau portista. Já os perdoei. No fundo eu optei por ser táctico, um passional com sentido de futuro: sabia que nada de bom podia vir de Octávio Machado e que o melhor seria que fosse tudo muito mau para se acabar com aquela história agonizante. Algum tempo depois Octávio Machado foi despedido. Não muitos dias passaram até que, na meta dos leitões, Pinto da Costa assinasse contrato com um novo treinador. Chamava-se José Mourinho.

Desculpa

Em tempos tirei um curso de orientação e mobilidade para pessoas cegas. Nele se ensinavam as várias técnicas necessárias para que uma pessoa invisual se possa mover autonomamente no espaço. Depois de alguns preliminares interessantíssimos, chegou a fase decisiva; ora pois, vamos lá pôr uma venda e palmear as ruas com uma bengala. É fantástico como o mundo muda, fugindo em desconcerto fenomenológico, para depois reaparecer vagarosamente: sob os nossos pés, nos sons trazidos pelo vento, no ecos mais mais ou menos fundos, no cheiro a panikes da pastelaria da esquina...

Como já decerto terão visto, quando uma pessoa cga anda na rua com uma bengala está sempre num incessante tic-tac, ora para evitar obstáculos, ora para tocar pontos de referência que vão lhe dizendo onde é que está. Mas os objectos mais ou menos imprevistos em que se bate estão sempre a descompassar o tic-tac. E -- foi-nos ensinado -- nessas situações, deve-se sempre pedir desculpa. A justificação é simples: mais vale pedir desculpa a um poste do que deixar de o fazer a uma pessoa que seja tocada com a bengala. Sujeitos a bocas paternalistas e incapacitantes, a ruas mais fadadas para gincanas, a opressões várias ao longo de uma vida, muitas pessoas cegas que conheço seguem essa regra sem transigir. Na humildade de uma pessoa cega que pede desculpa a um poste pela ínfima possibilidade de ali estar uma pessoa, não consigo deixar de ler uma instrutiva parábola para os (des)encontros que todos os dias nos aparecem.

Feiticismo e possessão

Às vezes apetece fazer log out do nosso corpo-ser e ir por aí, experimentar passwords.

O xamã é a um tempo teólogo e demonólogo, expecialista no êxtase e curandeiro, auxiliar da caça, protector da comunidade e dos rebanhos, condutor de almas no mundo dos mortos e dos sonhos e, em algumas sociedaes, erudito e poeta.


Coimbra ao rubro - literalmene

Amanhã, dia 10, comício do Bloco em Coimbra com Louçã e os Mercado Negro.
Amanhã, dia 10, comício do PCP em Coimbra com Vitorino e os Jerónimo de Sousa.
Este coincidência de datas poderá ser uma desilusão para os conimbricences que quisessem ir a ambas as festas. Eu vou à do bloco sentir as hostes. Mas o que me chateia mesmo é faltar a um jogo de bola que tinha marcado para amanhã às 21h com a malta da Escola Agrária.

O indulgente

Santana Lopes assume perante os jornalistas um ar cada vez mais négligé, mais pachorrento, num franco registo de sala-de-estar. Parece-me óbvio que o homem quer exaltar as suas putativas virtudes pessoais para subsumir o seu desempenho nas coisas da política. Neste momento o PSD é o indulgente Santana Lopes cansado de sofrer as injustiças do mundo, um senhor bonacheirão em pousio político. Cavaco Silva é o fantasma que segundo alguns morou naquela mesma casa.

Póstumo







Como a criança no filme contemplando Malena em desejo, há pessoas que apenas devemos admirar na passagem. Como diria a doce simplicidade de Borges, "não te quero para amar, quero-te para sonho". É mentira, mas aí se forja uma excelente história para vivermos com a itinerância de um encanto. A maior conquista de quem fica no porto é fingir completamente a frase de Borges. É o amor platónico vivido postumamente.

As leis do desejo

A Indónésia prepara-se para pôr em vigor uma legislação que criminaliza os beijos em público. No entanto, estes beijos só serão alvo de penalização se estiverem a incomodar alguém que denuncie isso mesmo às autoridades. A inveja e a cobiça ganham enfim estatuto jurídico.

Longe dos santos do grande capital, a celebração pública do amor é ali uma subversão social. Nós, com o substancia o dia 14, temos, ao contrário, o insidioso imperativo de celebrar o amor ritualmente. É só totalitarismos.

Políticas do quarto

Tenho falado pouco de política. Talvez o facto de figurar com independente nas listas do bloco por Coimbra tenha, paradoxalmente, algo a ver com o assunto. Não gosto de falar demasiado de mim enquanto a personagem que às vezes sai do quarto. A escrita deste blog pouco se dobra às horas do dia. Como eu, creio. Mas opinar sem a declaração de uma parcialidade que, neste momento pré-leitoral, se encontra contingentemente cristalizada - e convictamente, há que dizê-lo -, não se faz sem uma transparência eticamente exigível. Daí, talvez, a minha inconsciente inibição. Depois de um post confessional - este - já poderei falar de tudo sem pruridos, pensei. Claro está, não dispensando a pomposa ideia de um "independente de causas" avesso aos "horizontes da trincheira", tendencialmente mais estreitos.

Em todo o caso, escrevo sempre do meu quarto. E aí as prioridades e pontos de vista são sempre refractadaos por um insuportável egocentrismo, aquele mesmmo que as pessoas mal resolvidas abraçam amíude. A antropologia fomenta isso mesmo, a busca de tudo aquilo que perdemos por sermos quem somos. Entre o pessoal e colectivo. Entre a intimidade e a política. Sempre com a suspeita que vivemos na tribo errada.

Body Painting


A mais singela das maquilhagens coloca-nos já no domínio do Body Painting. O verniz, o rimel, o baton, são pinturas corporais encrustadas nos nossos hábitos estéticos. Tu que não sais de casa sem aplicar aquele eyeliner preto vives há muito no mundo do body painting. As pinturas que nestes tempos se disseminam em nome do carnaval são versões mais exuberantes dessa arte quotidiana, diariamente ensaiada em frente ao espelho.

O grande Borges

"Portanto, se me fizesse o favor de se chegar um bocadinho para o lado podíamos dormir juntos."
A crónica de António Lobo Antunes esta semana na visão (sem link), é simplesmente deslumbrante. Há nesse texto algo daquela irmandade que Álvaro de Campos ensaiva com os proscritos. O texto é lindo. Deslumbrante, já disse. Se ainda não leram, façam o favor.

Ensinanças


Não duvidemos, há a marca de um heroísmo naquelas/es que ousam amar contra preconceito e naquelas/es que publicamente dedicam as suas vidas para desbravar caminho na intolerância. Aplaudindo a belíssima campanha da Ilga, é a essas pessoas que aqui presto também a minha homenagem*. Que a coragem se trivialize na celebração dos afectos. Que os amores que ousam dizer o seu nome possam dar as mãos a uma sociedade pós-homofóbica.

Algumas dessas pessoas escrevem por aqui

Ele sofre

"Às vezes este blog tem limitações. É que não se consegue transmitir por palavras as sensações que vivemos".

As paralavras são de Pedro Santana Lopes, o blogger, porventura evocando Paul Ricoeur ou Merleau Ponty, para assim perorar sobre a a irredutibilidade da experiência à palavra.

Percebam, aquilo que se passou em Portalegre naquele jantar-comício is beyond words. Acerca daquilo que não se pode dizer com certeza nada deve ser dito. Dizia Wittgenstein. Ainda assim PSL tentou. Aquele comício de Portalegre enquanto um estudo de caso para a vivência do inexprimível. Tocante.

Ao virar da esquina

- Olha, tu é que és o "avatares"?
- ... quer dizer ... Vagamente.
A pergunta de um rapaz, amigo de alguém que me conhecia, quiçá surpreendido pela minha tez. Ainda pensei em mentir e dizer que sim, que sou o tal. Mas quis ser honesto.

Logo fiz alguns acrescentos àquele "vagamente" que, embora sincero, por si só seria um tanto ao quanto pseudo. Foi o suficiente para a uma agradável conversa. Nela pude explicar que, apesar da visibilidade de alguns temas emblemáticos, há aqui mais posts sobre sentimentos do que sobre outra coisa qualquer. Ninguém parece acreditar.

Pelo verso

Música, filme ou livro. Não sei. Em qualquer lugar fui permeado pela expressão "amar pela frente e pelo verso". Esta linha amar pelo verso, estou convencido, tem uma ambiguidade portentosa.

Está lá tanto...
1 Primeiro, sugere algo próximo da avassaladora ideia "buarqueana" de "te adorando pelo avesso".
2 Depois, tem algo de uma poética sexual: pela frente e pelo verso, fazer amor de todas as maneiras. Também esta acepção se ilustra, doce, via Chico: Se nós, nas travessuras das noites eternas/Já confundimos tanto as nossas pernas".
3 Finalmente, a ideia de amar pela frente e pelo verso remete para essa dupla instância simbólica: por um lado, um amor em presença, e por outro, algo distante que amamos pelo verso que lemos, escrevemos ou ouvimos. É esta a modalidade que este post elege, afinal, a mesma da sua criação, a modalidade que foi desencadeada pela linha que li algures.

Lições (act.)

Não duvidar da geneorosidade de uma mulher com os mamilos rijos. Nem que seja, como às vezes, por uma questão de fé naquilo que podemos fazer uns pelos outros.

P.s. Este post tem uma componente lúdica e outra séria. Na perspectia do seu autor - devo ser eu - as duas não se excluem mutuamente. Afinal há algures um lirismo que faz a ponte.

É bonito...

...Viver o fim de uma relação amorosa como uma desgraça partilhada.
Bonito nunca é. Óbvio. Mas, a ter que acontecer com dor, desejável seria que acontecesse assim - desejável e difícil, reconheçamo-lo.

Bom dia futebol!

O Porto iniciou uma revolução ao rescindir o contrato com Fernandez. Pagou-lhe o subsídio devido. Contratou um ex-sindicalista para teinador. Se isto não é de esquerda não sei o que é.