Regozijo

pela ressurreição do excelente Bloguítica, do Paulo Gorjão. De novo se confirma o síndrome Roque Santeiro pela blogosfera. Espero, no entanto, que essa ressurreição contribua o menos posível para uma outra. A ressurreição do guterrismo, claro está. Desculpa Paulo, não resisti.

Farias falta, welcome back.

Sem surpresas

"não tivemos força mental para enfrentar uma equipa muito bem organizada". Blá, blá, blá.

Já chega Fernandez. A recente polí­tica de contratações e a manutenção de Fernandez faz-me incorporar algo de um pathos tipicamente benfiquista: a viver das glórias do passado. Ok, eu sei que foi há pouco tempo, mas parece tudo tão distante.

Hipóteses que preocupam

Escreve Ana Sá Lopes "de Santana Lopes tudo se pode esperar - eventualmente até um "strip-tease" no comício de encerramento."

Apropriações pessoais

O amor devia ser facultativo.

Já cá volto.

Zara

Os sociólogos de cartilha - não conheço nenhum - são obcecados por classes sociais. Tudo se resume à divisão de classes. Pois, para eles esta seria uma boa altura para ver como as classes sociais se revelam numa interessante prática sazonal. Aconselho as multinacionais de roupa. É simples. A disposição da roupa nesta fase do ano tende a demarcar públicos. Umas meninas perscrutam já as pérolas da nova colecção. Outras, respigadoras natas, exploram ainda as últimas peças dos saldos. A hegemonia que mantém o status quo é produzida pela ideia que um dia a nova colecção estará apreços de saldo. Assim se evita a revolta social dos respigadores.

Como nada percebo dessas coisas de classe prefiro a zona dos mostradores. Reparo como as namoradas fazem frequentemente de "correio de roupa". Observo como, às vezes, quando há uma dúvida na cor ou no número, elas entram para se acertarem os pormenores lá dentro. E tudo se esclarece.
- "Amas-me?"
- "Se tu deixares"

Aucshwitz. 27 de Janeiro


«Quando vimos os primeiros flocos de neve, pensámos que, se no ano passado, por esta altura nos tivessem dito que iríamos ver mais um inverno no Lager, nos teríamos atirado contra o arame electrificado; e que mesmo agora o faríamos, se fôssemos lógicos, se não fosse este insensato e louco resíduo de esperança inconfessável.
27 de Janeiro: Os russos chegaram (...) Charles tirou o boné. Tive pena de não ter boné. Primo Levi, Se Isto É Um Homem

Das pessoas que vemos nesta imagem poucas terão vivido para esse dia.

Gaveta

Curiosos achados, Jamiroo. Às vezes, no canto obscuro de uma feira do livro, acontece cruzar-me com a juvenília poética de um homónimo meu . Vá-se lá saber porquê, nesses momentos a equação poesia=gaveta parece fazer para mim todo o sentido.

A anorexia da narrativa


Não sou hipócrita. Sei o quanto a nossa valorização estética do corpo é marcada pelos cânones ocidentais que o capitalismo ajudou a consagrar. Também sei o quanto a nossa acção e o nosso desejo se dá sempre no seio de um conjunto estreito de possibilidades, historicamente constituídas. Nascemos sempre numa tribo que nos permite o sentido do mundo, fechando-o ao mesmo tempo. A isto se chama um constrangimento constitutivo. Nunca cedi à estética Kate Moss das magrezas, como sabeis, mas estou ciente que não escapo completamente a uma visão modelar da beleza - por exemplo, um corpo feminino depilado é uma imposição cultural que o meu desejo fracassa em subverter. No entanto, e dado que os cânones conduzem a uma terrível opressão sobre o corpo real de toda a gente, devemos desafiar a estreiteza da narrativa, ainda que o discurso vá, por vezes, um passo à nossa frente. A obsessão e a vergonha do corpo não nos faz bem. O encanto assume uma parafernália de formas. Parabéns à Dove.

"How is historical agency enacted in the slenderness of narrative?" (Homi K. Bhabha, The Location of Culture, 1994:198)

Mais um sapinho

"José Mourinho, actual técnico do Chelsea onde vai somando sucessos na Premier League, foi esta terça-feira eleito o melhor treinador do mundo em 2004 segundo uma lista divulgada pela Federação de História e Estatística de Futebol (IFFHS)."

Depois de tantas discussões infalamadas que mantive sobre José Mourinho, percebo, com algum agrado, os tantos sapos já comidos pelos afanosos guardiões da mediocridade low profile. Num país quer raramente soube merecer os seus génios, Mourinho encontrou guarida entre a vanguarda portista. Longe de uma qualquer romantização da tuberculose revisitada, temos aqui a prova que a clubite - para muitos uma patologia a figurar no DSM-V - não molesta uma sensibilidade mais apurada para o curso da história.

Vinde a mim indecisos.

Pedro Oliveira educa o povo. Não é sem alguma comoção que se recontra aquele tom paternalista.

Mas que raio quer dizer "Frajola"?

Desde há um tempo largo o "Fico assim sem você" da Adriana Calcanhoto assumiu-se como uma das músicas mais cantaroladas por essas avenidas e quartos afora. No entanto, os muitos seguidores da discografia recente de Adriana Calcanhoto tendem a desconhecer o sentido de uma das linhas mais instigantes daquele belíssimo registo lúdico-naïf. É a parte em que porventura se sugere um pathos constitutivo daquilo que se sente falta: "Piu piu sem frajola". Procurando suprir os atlânticos do acordo ortográfico, aqui fica a minha contribuição para esse lirismo Lost in Translation:



Closer

"- Sou egoísta. Acho que serei mais feliz com ela."

Desconcerto. Angústia. Verdade. Traição. O romantismo, enquanto a busca da felicidade no amor, sustenta a sua mitologia num considerável egoísmo. É um egoísmo culturalmente sancionado a que não escapamos; a outra hipótese remete-nos para a ideia de "viver uma mentira". Por reconhecerem o que há de egoísta no ideário romântico é que muitos se censuram por não conseguirem amar quem acham que, no fundo, deviam. Normalmente, nestes casos, pela nossa cartilha romântica, não há nada a fazer.

Bacoco as it might be, não consigo deixar de pensar que, sendo inevitável um certo egoísmo romântico, ele deve ser eticamente regulado. Uma ética cujos termos se definem contextualmente. Para começar, acautelando-se lógicas relacionais que, por serem assimétricas no investimento emocional, são geneticamente vulneráveis à dissolução e ao sofrimento de uma das partes. Erro clássico.

Depois. Por um lado, pela assunção de uma prática que seja capaz de corresponder aos termos da monogamia estabelecida - quase sempre exclusivista. A pesonagem de Natalie Portman frisa esse imperativo quando diz que, mesmo no limite, ou seja, quando sentimos que nos estamos a apaixonar por outra pessoa, há um momento em que podemos resistir ou ceder. Mas nem sempre as coisas são mesmo assim; e ao desgaste de uma relação junta-se, muitas vezes, a inédita ou renovada promessa de um amor com outra pessoa. Por isso, e por outro lado, a regulação ética do egoísmo romântico deverá fundar-se numa sinceridade em que se partilhe, desde logo, a impossibilidade do cumprimento da relação nos termos monogâmicos acordados, ou a mero fracasso dos sentimentos para se ajustarem às grandezas em jogo. Nos casos em que um sentimento mais forte se atravessa não tem de estar em causa uma traição iminente, ou sequer a perspectiva de um outro futuro, basta muitas vezes modo como esse sentimento pode ser entendido como sintoma da erosão das cordas emocionais que seguravam a pessoa à relação.

Isto escrito é bem mais fácil, bem sei, e a virtude do filme é exactamente o modo como reflecte as complexidades tantas vezes vividas. É um filme desconcertante em que os estragos trazidos pela obsessão da verdade estão, no meu entender, a jusante do novelo solto pela falta dela. Ah, as 4 representações são excelentes, com um destaque, talvez, para Clive Owen.

Ethos político

A propósito do debate Louçã-Portas, escreve CAA no Blasfémias:

"Desdenho os puritanismos cuja pretensão é eleger e avaliar os comportamentos privados dos outros. (...)dou tanta relevância ao facto de um cidadão ser homossexual como a uma estranha predilecção em comer caracóis (misteriosa inclinação que nunca consegui entender). Mas os comentários oriundos do espaço dito de direita parecem-me repugnantes na sua hipocrisia. Não sei se é apenas por causa da iminência das eleições que se dá esta febre de aggiornamento clubístico, mas vejo os resultados e não gosto nada desta mascarada. Porque o que está em causa é uma impostura política. Não se pode encher a boca com a "família tradicional e normal" e ser-se precisamente o contrário. Não é leal apregoar os valores da tradição católica mais ortodoxa e viver a vida numa mentira. Não é lícito ter um discurso público moralista que acusa e julga impiedosamente os outros, não seguir privadamente a sua própria doutrina e presumir-se acima de qualquer veredicto."

Concordo com tudo o que aqui diz o CAA. Na vida social e política não há de nada mais revoltante do que a hipocrisia de quem defende valores adversos aos que segue. Agora, e isto é o cerne, apenas não sei com que fundamentos é que a questão se levanta. Como aqui escrevi, os boatos e os outings forçados pela uma ausência de uma celebração pública da própria heterossexualidade não podem ser base para nada. Em Paulo Portas a hipocrisia que cabe denunciar é aquela que decorre do seu descarado populismo. Só. E não é coisa pouca.

Desembarques

Toda despedida é uma morte...
Sim, toda despedida é uma morte.
Nós, o comboio a que chamamos a vida
Somos todos casuaes uns para os outros,
E temos todos pena quando por fim desembarcamos.
Álvaro de Campos, O4/07/1934

Sensibilidades polémicas


Mr. Darcy: I have made the mistake of being honest with you.
Elizabeth Bennet: Honesty is a greatly overrated virtue. Silence in this case would have been more agreeable.

Há pessoas que pensam que a honestidade num relação é dizer tudo. A toda a hora. Ostensivamente. Muitas vezes como forma de insuflar o amor-próprio. - por ex. acho que Y se anda a atirar a mim; a tua amiga é boa como ó milho. Sinceridade numa relação é saber articular a honestidade de contar o que é importante com a sensibilidade de quem conhece o outro, daí aferindo o valor do silêncio e sos seus limites. Assim, a sensibilidade pode corresponder também ao imperativo da gestão individual de algumas questões. Obviamente, não serve de justificação para omissões gravosas, mas compreende o quão espúrio é fazer ferida por tuta e meia. O que digo não é polémico, acho, polémica será sempre - isso sim - a definição dos territórios exactos daquilo que é importante, daquilo que é uma omissão gravosa e daquilo que é uma questão de tuta e meia. Isso faz-se a dois. As questões levantadas por estas fronteiras são instigantemente convocadas no : Eyes Wide Shut .

Uma questão de identidade

Em Coimbra. As lições de Zita Seabra.
"Apesar da visita a D. Albino Cleto [Bispo de Coimbra] ter sido divulgada pelo PSD para os órgãos de comunicação social, Zita Seabra reagiu à presença de jornalistas no local dizendo-se surpresa. "Esta é uma visita privada" disse.

Là dove’l sol tace

A ressurreição de Lázaro seria um milagre frouxo se há muito ele já tivesse morrido. Lentamente, dia após dia. Se assim fora, podemos adivinhar o desconcerto do homem levantado da morte. “Para isto?”, perguntaria, olhando em derredor as suas lavras de sempre, desoladas. Para quem se vai deixando esvair em vida o ressurgimento miraculoso pode prometer muito pouco.

A questão é que a vida, per se, não é necessariamente um milagre – sem mácula para o filme, lindo. - Como Lázaro, quem subitamente morre mais facilmente retorna à vida de um momento para o outro. Ora. É bem mais custoso um milagre quando a desgraça não é um evento, quando não há uma tarde para reclamar à história, quando a perda não é uma exterioridade sofrida num espaço-tempo, mas uma coisa solúvel que connosco se confunde. Que doar a quem se demora a descalçar o sapato nas vésperas de sono? E assim emaece de quereres. Ir morrendo em despedidas caladas é bem mais cruel do que a graça de localizar a morte num adeus. Por isso é bom que nos mandem para lá do sol-posto. Como diria Dante: “mi ripigneva là dove’l sol tace”. Sem mezinhas. É bom padecer esse adeus definitivo como a mármore. É bom nutrir a esperança impossível de ter alguém de volta.

Discernir a hora da desgraça é conceber a ideia de um milagre. Na tradução que tenho as palavras exactas de Jesus foram: “Lázaro, sai para fora.” Mas há sempre outras versões.

Here we go again

Por decisão democrática, voltamos à letra de sempre. De facto, com os seus defeitos, é como voltar a casa. Muito obrigado a todos aqueles que se deram ao trabalho de me ajudar a calibrar o template desta coisa. Gracias.

Assistência

Gosto pouco de mexer no meu querido template. Afeições que a estética só marginalmente percebe. No entanto, abandonei as letras garrafais Verdana,Sans-Serif à experiência. Que vos parecem estas, estilo Georgia? Não gostam? Sim? Sim, mas em tamanho maior? Como estava? Opinem, please.

Má educação

Há perguntas que nunca se devem fazer. Bem, todos incorremos nalgumas argoladas. Inevitável. Nem que seja naquela clássica: "Então e o que é feito da tua amada, a Lara?" "ah ... Não sabes,... acabámos há umas semanas..." Mas lá vamos aprendendo a não fazer merda e a colocar questões inteligentes. Eu, por causa das coisas, uso sempre a mesma, que li algures: "Olá, bom dia, tudo bem? de que modo a produção de Derrida supre a omissão teórica de Sartre face à experiência colonial argelina?" . Fosse sempre assim... Na verdade, a vida social está cheia de momentos de constrangimento causados por perguntas inoportunas e despropositadas.
Outra pergunta que, mandam as boas maneiras, nunca se deve fazer é: "Como vai a tua tese?"
Evitem. Falem do tempo. Insultem a família do visado. Divirtam-se com a celulite e as estrias das raparigas. Gozem com as barrigas protuberantes dos rapazes. Acusem-nos de se peidarem no meio da fila do supermercado. De cheirarem a refogado do sovaco. Mas, cuidado, não perguntem a ninguém pelo andamento da tese. A menos claro, que sejam o orientador da dita. Mesmo assim...

Chegar ao cafuné

Cafuné, como o entendo, é um enleio carinhoso entre dois corpos. Trata-se de uma relação corporal que tem de específico o facto de ser destituída de erotismo. Mas tenho uma hipótese que introduz alguma confusão no nosso pensar sobre o cafuné.
No "circuito" contemporâneo dos enleios eróticos - one night standings, and so on -, haverá, suponhamos, quem não corra pela atracção, erotismo, amor, etc. Imaginemos pessoas que apenas buscam amenizar a solidão do corpo-ser e, por isso, consentem no erotismo para se poderem entregar, enfim, ao cafuné pós-coito.

Nos tempos que correm, onde para o bem e para o mal o individualismo milita, tudo faz crer que o cafuné ocupe um lugar não despiciendo nas relações que, por simplificção, chamamos erótico-amorosas. Assim, chegamos a uma estranha hipótese: o erotismo como mero pretexto para o cafuné. Por absurdo que pareça, talvez para alguns o sexo seja mesmo isto: a única forma de se atingir o cafuné.

Tristes Lusos

O que seria deste blog de cabeceira sem umas veleidades antropológicas e políticas? Recorrendo abuusivamente à patologia auto-diagnosticada por Pessoa, respondo: seria, como é, mas pior, um diário histero-neurasténico. Por isso, to make short a long story, reccorro a um interessante relato antropólógico para caracterizar, ilustrativamente, a vida política portuguesa, marcada que está pela alternância do centrão PSD/PS:
Os [Índios] Cadiueus reagem curiosamente à bebida: depois de um período de excitação, caem num silêncio melancólico e depois poem-se a soluçar. Dois homens menos embriagados pegam então nos braços do desesperado e levam-no a passear de um lado para o outro, murmurando-lhe ao ouvido palavras de consolação e de afecto, até que ele se decida a vomitar. Em seguida os três voltam para o seu lugar, onde continuam a beber. Claude Lévi- Strauss, Tristes Tropiques
Deixo o exercício metáfórico ao vosso cuidado. O meu aquecedor a óleo chama-me (não, não é uma metáfora, é mesmo uma personificação de um objecto inanimado; uma prosopeia, como preferem os entendidos).

Rescisão de contrato

Ainda não se sabe o resultado final do Académica-Porto. O que eu sei, há muito tempo, é que Fernandez não serve. Não são precisos novos jogadores - a mistificação do momento, Trapatoni teria orgasmos múltiplos com o plantel do Porto -, é preciso saber técnico-táctico, é precisa uma nova atitude, é precisa uma liderança à imagem da cultura do FCP. O Fernandez é um pastelão bem falante que se esconde em desculpas para velar a falta de futebol, um treinador que aposta numa ruptura suicida a meio da época. Ao menos Del Neri teve a dignidade de a intentar na pré-época. Não espero nada de bom enquanto Vitor Fernandez não receber a indeminização contratual.

Persona


Às vezes as pessoas - óbvias personagens sociais - desistem do seu papel. Mas quase sempre assumem outro - normalmente por um dos itinerários de subversão com escola. Quando tal não acontece a psiquiatria está vigilante. Entre a representação e o eu não há abismo possível. Criam-se juntos. A máscara e o rosto, na óptica social, não se separam sem ferida. Mrs Vogler (Liv Ullmann) é a mulher aparentememte ferida, posta sob os cuidados da medicina. O marido surge pela voz da enfermeira. Evoco uma interessantíssima passagem da carta do homem, desesperado. Ele busca algum sentido para o desaparecimento da personagem-mulher que um dia conheceu. A mesma personagem-mulher cujo papel "exigiu" um filho, um rebento que, desgraçadamente, desde cedo foi mal amado. Reparem como é comovente esta auto-culpabilização do homem atrás do que correu mal, quando, no fundo, a resposta tantas vezes jaz no pedaço que em baixo destaco a negrito:
Have l harmed you in some way? Have l hurt you without knowing? Has some terrible misunderstanding arisen between us? (...)You've taught me that we must see each other as two anxious children filled with good will and the best intentions. But governed by forces we only partially control.

Boatos, vida pública e homossexualiade

Não duvidemos. Em Portugal há muitas figuras públicas que escondem a sua homosexualidade. Infelizmente ainda vivemos num contexto em que a assunção da homossexualidade implica enfrentar fortíssimos preconceitos e uma pesadíssima desqualificação social. Factor inflaccionado quando a visibilidade pública também é acrescida - excepto, talvez, no mundo artístico em que a "excentricidade" é mais facilmente sancionada. Ademais, nalgumas áreas de acividade, como na política, existe a ideia subliminar que aquele/a cuja homossexualidade é revelada deixa de poder exercer cargos de responsabilidade pública. Uma estupidez sem nome. Ou melhor, chamada homofobia. Se não estou em erro o presidente da câmara municipal de Paris, homossexual assumido, participa em paradas gay, coisa impensável por esta orgulhosa terra. Sob este prisma, a única coisa que haveria a denunciar seria a atitude hipócrita de quem defende ideias acerca da sexualidade incongruentes com a seu discurso público ou político. Quanto ao resto, quem se assume ou não é uma decisão pessoal que cabe respeitar.

Mas se esta dificuldade em sair do armário é produto de um quadro social de valores conservadores, creio que tem emergido em contraposição uma certa violência discursiva, também ela profundamente conservadora e insensível: os boatos. Na vida social portuguesa alguém que tenha mais de 30 anos, não seja casado, nem tenha relações hetero conhecidas, está inevitavelmente sujeito a boatos sobre a sua sexualidade. Isto parece-me igualmente triste, porque, no fundo, o que os boatos denunciam, muitas das vezes, é a não adesão à lógica tradicional de família e a ausência de uma celebração pública das práticas heterossexuais. Por isso me repugnam os boatos acerca da homossexualidade de figuras públicas. Aceito que muitos desses boatos poderão denunciar a hipocrisia de uns quantos actores sociais. Mas a esmagadora maioria mais não faz do que exigir práticas visíveis de heteronormatividade, nuns casos, e parodiar a falta de coragem de quem não se assume, noutros. Nestas situações, além da crueldade que pode estar presente, dá-se corpo a uma outra ideia que eu recuso, acompanhando as lições de Foucault: a ideia que a sexualidade tem que ser parte determinante da identidade pessoal ou pública de uma pessoa.
Na lógica de mútuo consentimento informado entre maiores de idade cada um faz o que lhe aprouver sem ter que prestar contas a ninguém, logo, nessa perspectiva, poderá não haver nada a "assumir". O que temos, isso sim, é que erradicar a homofobia da nossa sociedade para que muitos e muitas não tenham que viver expostos à discriminação, por um lado, nem tenham que estar fadados a guardar segredos que podem ser muito dolorosos. Afinal, a mesma homofobia que constrange a performance social de todos - independentemente da sexualidade. É óbvio que para a homofobia ser extirpada os actos de coragem individual de figuras públicas são fundamentais. Mas nada que se faça a saca-rolhas ou pela difusão de boatos quem falem daquilo que não nos diz respeito.

Vão-se as gentes ficam os blogs

Várias amigos me confessaram a importância suplementar assumida por este blog aquando das suas ausências do país. Segundo me disseram, nesses afastamentos a leitura do avatares representa algo de um rencontro com alguém conhecido e com toda uma pletora de referências familiares. No entanto, a virtualidade deste meio para mitigar distâncias vai ganhando novos contornos. Prova empírica. Duas pessoas que me são queridas aprestam-se a partir nos próximos dias. São paulo e Leeds. Ficam os seus blogs criados sob o espectro da saudade: Que Mico! e Lilás com Gengibre. Quiçá não temos aqui mais um vector de inquirição para quem se preocupe com a sociologia desta coisa que são os blogs. A mim, mais dado à antropologia de recorte confessional, preocupam-me as despedidas.

É aproveitar

Uma oportunidade rara para concordar com o McGuffin.

SMS

Escreveu:
Amo-te. Adeus.
Está aí a prova derradeira. Devemos sempre questionar o que a escrita inteligente permite dizer. O apoio de um dicionário automático ajuda a tornar verosímil o absurdo. É esse o perigo.

Deslealdade orgânica act.

Depois indagam. Agora falo pouco de futebol. Dizem. A verdade é que por auto-comiseração tenho poupado o meu teclado ao tanger da dor. Não são os resultados, é o futebol. Quero lá saber da euforia bi-polar dos clubes de Lisboa! Penso na Liga dos Campeões. Não sou um aristocrata da bola, apenas faço parte um povo épico. A Liga Portuguesa tem o valor que uma peladinha teria para Ulisses no regresso a Ítaca. Ainda assim gostaria que a peladinha fosse bem jogada.

O Derlei pelo que joga, pelo que representa e pelo modo como incorpora a mística do Porto devia acabar a carreira no FCP.

O Fernandez pelo que treina, pelo que representa e pelo modo com fracassa em representar a mística do Porto não devia passar desta semana no Dragão.

Ainda vamos ouvir falar muito num génio do futebol, um génio que Mourinho pôs a brilhar na Liga dos Campeões e que Fernandez não conseguiu ou não esteve para se dar ao trabalho de disciplinar. Falo, claro, de Carlos Alberto. Fernandez pode saber de tática e de metodologoa de treino - duvidoso - mas não é um líder, não é um condutor de homens, não sabe domesticar a irreverência da genialidade. Com Fernandez a treinar, Maradona não tinha lugar no plantel do Porto. Estou certo.

Seio na noite


Foto: Christian Coigny Fonte: xupacabras
Ela estabeleceu como regra de vida evitar olhar para decotes sobre os quais tudo desconhece. E aguenta-se. Não quer conhecer novas pessoas, respiga as memórias dos leitos em que adormeceu. É fiel às mulheres que já teve. No fundo acredita na escatologia lesbo-feminista dos Baha'i: há um conjunto de mulheres que ao longo da história trazem toda a verdade de Deus. Ela crê de amor que foram aquelas mesmas que um dia a viram dormir. Aquelas que beijou e mordeu. Aquelas que lambeu pelas frinchas da pele. Aquelas cujos seios apertou contra os seus.

Explicou-me: o falo não faz falta, o que dói é não ter o seio na noite. Sem o quentinho de uma mama por perto é frágil a mais divina das verdades. Os decotes é vê-los passar num tentado alheamento. Por fidelidade. Por fé.

Ainda não vi e gostei


Sou um desastre com os eventos culturais fora de casa. Deixo passar tudo o que é agenda. Algo mais grave numa cidade como Coimbra que, por exemplo, só tem cinco cinemas. É o "visses". Já no recato do meu lar actividdade é intensa. Danço, leio e vejo filmes. As artes de palco é que ficam algo molestadas. Precisava de um agente. Sei de pessoas que iniciaram relacionamentos com o inconfesso propósito de se manterem actualizados com a agenda cultural da cidade. Mas eu não me presto a esses instrumentalismos. Ou estou In the mood for..., ou não. Não me faz mais nobre, apenas mais desactualizado. Sim, ao nível dos eventos culturais também. Bem vou dançar qualquer coisa dos brothers do outro lado.

Dor que não acaba

Há pouco a dizer. Não vale a pena rebuscar tiradas inteligentes. Mas é bom ir lembrando esse sofrimento nas margens do Índico. Nem que seja com um silêncio.










A Corte

Para ver como havia do arrumar as almofadas na cama recorri ao mais parecido que eu tenho a um livro de etiqueta: The Court Society do Norbert Elias. Está um pouco desactualizado, é certo, algumas das práticas da corte francesa parecem fazer pouco sentido na calmaria do meu quarto, verdade, nem estou muito interessado em ter alguém a dormir aos pés da cama, óbvio, mas sempre se aprende uma dica ou outra. Pouco encontrei sobre almofadas, confesso, mas lá vi um sublinhado meu que agora ganha novos matizes. Numa oportuna passagem Elias evoca Weber para afirmar: "A liderança carismática nasce da crise. Não tem permanência a menos que a crise, a guerra, e a desordem se tornem normais numa sociedade." Básico. Bem sei. Mas este revival muito me faz pensar na recente designação da Time: Bush como homem do ano. Talvez devesse haver uma adenda para as chefias que criam as possibilidades de partida para se afirmarem como lideranças carismáticas por muitos e bons anos, armando eles mesmos a puta da confusão, por muitos e bom anos. Não admira que o outro, o príncipe herdeiro, como dizia o VPV, não quisesse eleições antecipadas, nisto das lideranças que se querem afirmar: worse is better.

Cumplicidades

Obrigado, Carago!

Eles estão a olhar para ti, miúdo!*

A genealogia dos românticos trágicos: quando os deuses escolhem os seus.
Nuovo Cinema Paradiso
*A frase de Rick para Ilsa: Here's looking at you, kid.

A Urna de Maquiavel I

Dizem que a divisão mais fracturante no tecido eleitoral português é aquela que separa a esquerda da direita. Facto. Coisa relativa, afinal há uma larga margem de votantes que, consoante os momentos, tanto pende para o PSD como para o PS. Todavia, há uma outra cisão bem mais subtil que importará lembrar. Não é tanto uma divisão sociológica, embora o seja em certa medida. É uma divisão no mesmo, ou seja, na pessoa que ritualmente dilacera a sua identidade no momento do voto. Falo de um abismo que às vezes separa o que é a convicção política e o que é o voto, a tensão que leva Maquiavel à urna, o caminho que recebe o nome pomposo de voto útil. Voto. Não genuíno, mas útil. Diz-se.

Sabemo-lo, quem vota útil contra aquilo que crê está mais vocacionado para temer o pior do que para esperar o melhor. Há pessoas assim, pessoas que apesar desse sinuoso modus operandi lá dão descanso à consciência desenhando o pior dos cenários, tranquilas porque afinal deram um passinho para o evitar. Não mais, mas um passinho. Encontro, de facto, um abismo entre aqueles que tendo convicções políticas as seguem e que, por isso, procuram quem melhor as reflicta, e os outros, os que se entregam ao voto útil, acautelando o pior dos mundos. Existe convicção e voto útil à esquerda e à direita. Certo. Mas é naqueles que se afirmam de esquerda que mais me perturba determinado pragmatismo do voto, o voto num aparelho cheio de vícios, o voto num poder co-incinerado e reciclado, o voto ansiolítico para dar paz aos boys em pulgas pelos tachos, o voto em quem não é favor da guerra, mas também não se quer mostrar muito contra, o voto nos lobbies, o voto SA, o voto no José Lelo (não resisti). Na minha concepção, ser de esquerda pode significar uma coisa tão simples como acreditar que é possível construir lugares da vida humana em que todos podemos partilhar e democratizar as condições de possibilidade para os diferentes itinerários de realização pessoal. É acreditar que essa partilha não deve conhecer fronteiras ou nacionalidades. É acreditar em direitos humanos que incluam liberdades cívicas, culturais e garantias de bem-estar económico. Desistir disto não é deixar de ser generoso com a utopia. É deixar de ser generoso com um mínimo denominador comum para a construção de lugares onde justiça social seja um máximo referente. Quem, tendo firmes convicções de esquerda, se apresta a votar PS é coerente no seu modo de ser de esquerda. É coerente no seu modo de desistir. Vota em quem há muito desistiu também. O voto útil pode ser, afinal, o mais coerente dos votos. O pior dos cenários, esse, acho que já tivemos 4 meses de cheirinho.

Apontamentos

1- Muitos parabéns ao Blogue de Esquerda pelos seus dois anos.
2- Muito obrigado ao irritantemente erudito Almocreve das Petas - sim, a inveja - pela inclusão do Avatares nas suas escolhas anuais.
3- Acabou o ano e Jorge Sampaio, o homem que chorou pátrias lágrimas ao condecorar a selecção de Scolari - revista e actualizada pelos superiores conhcimentos técnico-tácticos do povo -, ainda não se dignou a agraciar o vencedor da Liga dos campeões e da taça intercontinental. Até lá, e para todos os efeitos, Jorge Costa é o meu presidente.

O filme do ano

Tento, rememoro, mas não vingo um desempate. Só me resta um primeiro lugar ex-aequo:

Manifestos

Por estes dias os simbolistas afectos às coisas do calendário andam às voltas com questiúnculas vizinhas da frase que Francisco José Viegas adpotou para o seu Aviz:
We have no more beginnings.
GEORGE STEINER
É bem Verdade. Mas na vida pessoal e política há outra frase que nos dá o aviso de sinal contrário: Play it again Sam É a linha que nunca foi dita no Casablanca e que fala do cativeiro da repetição, seja ela ela a repetição vivida ou a reiteração do passado, aquela destrutiva, que faz do vivo um cativo da memória. Por isso, muitas vezes a única coisa séria que se pode fazer em relação à verdade de Steiner é discordar sob a forma de um manifesto vivido.