O Captain! my Captain!



O Captain! my Captain! our fearful trip is done;

Walt Whitman





A crise de identidade que nos últimos anos o Porto vem condecendo, a mim e a muitos dos portistas que um dia se entregaram a esse belo mitopoema de alma, gentes e bola, obriga a novas leituras interpretativas. Dolorosas. E assim, por essa nova luz, esconsa, poderemos dizer que aquela braçadeira um dia atirada à relva em aparente despropósito terá sido afinal a cintilante declaração simbólica: as vidas que seguram símbolos forçosamente se diluem com eles, na glória, na agonia. Tanto e de tal modo que quando aquilo que é simbolizado lentamente naufraga, apenas o exílio da vida-estandarte pode salvar algo da ficção original. Jorge Costa é o primeiro exilado de um clube que soube aproveitar os ares da democracia para tudo vencer. Naturalmente vivi muitas saídas de jogadores nobres e talentosos, mas nenhuma me mereceu tamanha revolta e, também por isso, nenhuma se imiscuiu tanto na afeição biográfica que me liga ao Porto. A nostalgia revoltada é agora uma marca incontornável da minha forma de ser portista. O tempo das grandes vitórias lembra-se com saudade, o tempo de homens como Jorge Costa, assim tratado, lembra-se com terrível amargura. É muita história aspergida de mágoa. Demasiada. Se ao fim de ano e meio não forem buscar o Jorge Costa para a equipa técnica eu tudo farei por esquecer que um dia fui portista. Percebam, isto para mim é novo, não sei ser de um clube que não me merece lágrimas.



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