Maradona e Ronaldinho




Começa a surgir para aí, qual murmúrio, uma cobarde tentação de comparar Ronaldinho Gaúcho a Diego Armando Maradona. Calma. Aqui e ali convém um pouco de juízo. Incomensurabilidade é a palavra. Além de insuperável génio - não estou disposto a discutir, e por favor poupem-me ao Pelé - Maradona nutria-se de uma épica vontade vencer, de um absurdo sentido de limite, de uma tenebrosa intimidade com o sublime; todo o seu futebol, cada pequeno gesto, coreagrafado na improvisada esteira de Artaud, escorria, órfico, para abismo do impossível. O futebol, o jogo, era a mera forma expressiva de algo bem mais fundo, algo que as efabulações da bola sabiam indizível.

Reverencio o deleite que Ronaldinho concede, assombroso, impressionante, lúdico, mas, perdoem, falta ali algo de uma aparição profética. Maradona foi um avatar hegeliano, o fim da história no que ao futebol diz respeito. Perdeu contra os Camarões e eliminou a Itália. Deixou o futebol e voltou para fazer aquele golo contra a Nigéria (não há doping que faça aquilo). Convulsivamente chorou ao receber a medalha dos vencidos sob o gáudio italiano. Convulsivamente chorou nos States ao ver, da bancada, a Roménia acabar-lhe com a vida. A Ronaldinho não faltam só golos e fintas, falta a incapacidade, a frustração e a dor de fracassar os desígnios que só os deuses decifram. A morte e a ressurreição. Falta-lhe essa distância que no seu futebol jamais se sente. Maradona vivia o frémito de uma cena que só ele via escapar-lhe. Ronaldinho compraz-se nas mais belas fintas, consola-nos com devaneios mirabolantes. Poucos desassossegos nos deixa: não sabemos como reagiria à cocaína, não sabemos como seria se fosse argentino. É tudo.



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