Ganges neste mar


Um dos mais interessantes fenómenos paralelos com que flirtei em Moçambique refere-se às migrações encetadas por apelo ao ordenamento dos espíritos. Não é infrequente uma pessoa ir ao curandeiro e chegar à conclusão que os males assoladores se prendem com uma situação geográfica pouco abonatória, no que respeita as intervenções das forças espirituais. Já por mais de uma vez ouvi o relato biográfico de pessoas que mudaram de distrito ou de província em busca de coordenadas mais favoráveis; muitas vezes fugindo de incumprimentos rituais aquando da estabelecimento da família no lugar pretérito (por exemplo, se a casa não foi “fechada”, i.e. protegida, de acordo com o ritual local), outras vezes apenas sustentados na sedimentada ideia de que ali Morungo (Deus, nalgumas das línguas locais) e os espíritos não haveriam de ajudar. Estas migrações comovem-me, pela desestruturação a que as pessoas se sujeitam em nome da crença, pela subterrânea convicção de que em algum lugar a vida se compadecerá de tanta caminhada. Mas sobretudo, porque, como o sugere o eterno retorno das peregrinações, cobardes na escala biográfica, apenas os perdidos, desalojados da espera, podem fazer morada nos lugares onde crêem conspirar a benquerença do além. Na verdade, tudo isto me toca pelo que há muito me comove o conselho que, num qualquer cruzamento, alguém deixou à personagem de Marguerite Duras: “No seu lugar, menina, eu ia para o sul, onde dizem que Deus é melhor”. Devidamente desgraçada e perdida, ela assim fez.



<< Home