Vazios rituais

Nos transportes públicos tugas não é infrequente termos que correr atrás do autocarro para o perder em desespero sob os olhares caridosos da assistência. Em Moçambique, no pequeno-capitalismo desenfreado, exuberantemente representado pelas chapas (autocarros-toyta-hiace), são os transportadores que perseguem o cliente. Fazem marcha-atrás para os buscar, gritam, clamam, carregam as mercearias, disputam preços e chegam mesmo a lutar entre si para garantir que nenhuns 5 contos (de meticais) escapem. Há conflitos e acidentes iminentes a toda a hora, verdade. O conceito de lotação máxima inexiste, verdade. Mas, ainda assim, reconheçamos, é toda uma civilização que ironicamente se afirma quando nos salvam dessa cena emblemática do malogro quotidiano: um autocarro que, indiferente ao nosso dedicado o esforço, segue o seu inefável caminho, vagarosamente desenhando a curva do nunca mais. na verdade, essa é uma das cenas onde a minha vida se actualiza e representa, pelo que venho sentindo algo de um vazio performativo.



<< Home