Seu Julinho

(permita que assim responda aos seus comentários por motivo de afundamento de post a que se adenda alguma falta de pudor). O registo que seu Julinho generosamente elege retrata um certo negligé na palavra e, por consequência, uma constitutiva falta de tempo (carência que nutre estilo) para uma auto-flexividade que aquilate coisas como níveis de seriedade. Não podia estar mais de acordo: “os diversos patamares de seriedade, ao serem convocados ao mesmo tempo, auto-curto-circuitam-se, sendo a política total da seriedade a semente da sua dissolução”. A questão profunda é que o tal alheamento das consequências receptoras do texto sabe-se ser fingido, porque, como bem frisava, sob a forma de impetuoso disparate é possível o bem medido proselitismo atento às consequências da representação.
Nesse sentido, a reflexão que circunscreve paradoxalmente os termos de seriedade tanto implode um certo magma de genuinidade como, num outro sentido menos efectivo, inverte (sem subverter) os momentos de seriedade nomeados. Aliás, esta última acepção conforma-se mais com o cuidado de onde germina a escrita: “Eu no futebol sou mesmo assim, não vale a pena levarem-me demasiado a sério”. Ora, mas de facto, este cuidado merece ser percebido, até porque, a acreditar na imersão que o paradoxo visa, seria penoso esquecer que outros momentos existem em que a linguagem do exagero impede consensos acerca de uma razoabilidade crítica ou analítica. O facto viatal é que esse excesso impetuoso coloca-se amiúde em campos férteis para fomentar cumplicidades alargadas (crítica social e achincalhamento de cromos) e onde a forma de paródia pode ser mais valorizada que o conteúdo (política) defendendo-se o autor de responder à oposição normalmente justamente erigida a um discurso onde se denota proselitismo (acontece quando este realizado na costumeira forma proselita: o bem fundamentado argumento persuasivo).
O problema é que no futebol esse consenso e o gozo da paródia discursiva não é vivido da mesma forma. O futebol é levado a sério de uma tal forma que se pode temer a criação de antagonismos apaixonados onde, ao contrário de outros momentos, a forma “excessiva” do discurso irrita mais do que diverte. Portanto, a afirmação paradoxal da seriedade futebolística é ao mesmo tempo o reconhecimento do campo minado de paixões em causa e, como bem frisa, uma exposição à dissolução de seriedade de todos os conteúdos. Mas questione-se se esse risco não aparece ele também dissolvido pela reflexividade que manifestamente oi permite, senão promove, pelo que reitero a surpreendente eficácia discursiva do dito.
No entanto, é na afirmação de “efeitos que pretende extrair (mas que pos-modernamente não pode controlar)?” que reside o carácter mais importante da auto-reflexividade que assim se afirma impotente. Ou seja, a reflexividade que convoca diferentes níveis para diferentes tipos de escrita sabe-se agonística pela insubordinação barthesiana dos leitores sempre dispostos a matar o autor no processo de acolhimento interpretativo. O querer ser levado a sério numas instâncias e querer ser relativizado pelo lúdico noutras é, como provam as reacções ao flanar analítico dos seus comentários, o sonho molhado dos autores em busca da determinação dos efeitos do discurso. Portanto, Julinho, de exibicionista equivocamente chamado, totalmente de acordo: estas trocas que aqui se trazem são mais sobre impotência do que sobre outra coisa qualquer. Assunção a que não é alheia uma certa aspiração a um eunuco bem instalado perante as condições de impossibilidade que vida deliberou.



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