Paris II

E Portugal? Aconselho este oportuno texto de Eduardo Pitta com excelentes pistas (aproveito para elogiar o esmero e qualidade que ali perpassam em cada post).

De facto minimizar Carcavelos foi importante para temperar o oportunismo dos media e refrear possíveis escaladas de ressentimento. No entanto, num país que se dá ao insólito simbólico de ter um parlamento sem um unico negro, minorar sinais e continuar a assobiar para o lado é a mais pura estupidez. Independentemente da real dimensão de Carcavelos, poucos terão duvidas que as condições estruturais vividas pelas segundas gerações de imigrantes são lenha para uma cultura do ressentimento. Os carros queimados e a violência desmesurada não são meros constituintes de um código comunicacional ao contrário do que a boa-vontade de muitos gostaria de pensar. São sim a expressão da sua falência. Estes eventos acontecem quando os diálogos ruem, eles já não representam a voz dos excluídos, o clamor pela inclusão. Agora é mais a voz da raiva a que se junta o frémito do poder das ruas e muita testosterona. Os sinais foram sendo dados em crescendo. Um deles ia-me dando cabo do ouvido. Estive em Paris, este ano, coincidindo a minha passagem com as comemorações da tomada da Bastilha. Após os festejos e o fogo de artifício, oficiais, inúmeros jovens quiseram acabar a festa à sua maneira: com perigosíssimos rebentamentos pirotécnicos numa comemoração irónica que hostilizava transeuntes e forças de segurança. Mas estes já foram os últimos sinais. Na base de tudo: racismo (bem sucedido na marginalização dos filhos dos imigrantes) e fracasso semiológico (desgraçadamente só Le Pen percebeu o filão da falta de encaixe social). Isto já não é conversa, é ferida. Agora, cabe começar das ruínas e tentar ler as feridas.



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