Paris I


Políticas de integração social sensíveis à diferença cultural e promotoras de igualdade de oportunidades. Não me desagrada esta doutrina. Simples, só em aparência ― bem sei.
Ressalve-se que nela a sensibilidade à diferença cultural não equivale à benção acrítica de toda a diferença. Significa, outrossim, primeiro, a assunção da fertilidade de outras mundividências que acrescentam à nossa. Segundo, o reconhecimento de como as crenças e valores se podem tornar (e se tornam) entranhadamente estruturantes das coreografias existenciais. Terceiro, a impossibilidade de se operarem transformações culturais brandindo a iluminada superioridade dos de cá (como estratégia que vise, por exemplo, combater a subjugação feminina no mundo islâmico). Quarto, a insensatez de medidas discricionárias aplicadas em nome de uma identidade ou legado nacional (de que a relação entre laicismo francês e o véu é exemplo predilecto).

Dito isto, tem sido para mim bizarro notar como, mesmo nos discursos mais progressistas, o imperativo de acolhimento sábio aparece cumprindo, à vez: uma urgente engenharia social para minorar conflitos, um desígnio económico em face da necessidade do trabalho dos imigrantes, um imperativo de generosidade do primeiro mundo para com os das mais pobres origens.
Não obstante a valia destes argumentos, inegável, tenho para mim que a bondosa solidariedade e o calculismo dos custos-benefícios terão que se pôr na fila, bem atrás da imensa dívida histórica produzida pelos colonialismos (e seus sucedâneos) na exploração, subjugação e achincalhamento. Portanto, eis a desafiante questão que a Europa deveria pôr, uma questão que demonstraria alguma memória, para não dizer vergonha na cara : Não seria obrigação acolher os imigrantes mesmo que tal baixasse os nossos níveis de vida? (E sublinho o mesmo que, dada a inverdade que sustenta.) A justiça é um conceito histórico. Até passamos bem sem Wallerstein para perceber óbvio: aquilo que a riqueza europeia deve ao colonialismo não é mensurável com o que o que caberia à Europa propiciar às comunidades imigrantes. Não é dádiva, é dívida.



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