José Peseiro: a alma de um tempo

O modo José Peseiro se arrastou no cargo de treinador do Sporting é para mim paradigmático. Ali se marca o fim de uma era nos jogos de honra que um dia cingiram o mundo do futebol. Tempos houve em que os treinadores vigiavam atentos o infeliz curso das coisas para, quais amantes ciosos da sua auto-estima, agirem em antecipação: importava pedir a demissão antes que se abatesse a humilhação de ser demitido. Nem sempre um gesto nobre no campo dos amores, digníssimo no que toca a futebol. Mas hoje, mister supremo, vemos treinadores, esmagados pelos resultados, despojados de sopro de fé, que se deixam ficar, indecorosamente, acenando aos lenços brancos, tudo para que a demissão penosamente imposta venha permitir chorudo encaixe financeiro. Mas, calma. Lembro mais. Lembro essa dignidade que nem aos amantes. Recordam? A expressão mais comum quando um treinador se afastava era "pôr o lugar a disposição". Um amante pode acabar, fugir, desaparecer, matar-se, mas nunca pôr o lugar disposição. É demasiado doloroso pensar que depois de nós virá alguém prometendo, e quiçá cumprindo, melhores resultados. Mas era essa a consciência que guiava os treinadores a que aqui presto homenagem, e essa consciência representa uma tocante forma de humildade. A humildade de perceber a incapacidade própria, a humildade de perceber que o lugar e as circunstâncias ja não consentem qualquer golpe de asa.
Lembro ainda. Lembro mais. Lembro a narrativa sublime. Um treinador injustamente demitido voltar ao leito do amor para revelar a flor nascida da ferida, flor cujo germe afinal sempre lá esteve. Falo, claro, do título que Bobby Robson foi selar ao Estádio de Alvalade depois de Sousa Cintra o ter sido trocado por Carlos Qeiroz. Nem sempre a dignidade se recupera no lugar onde a perdemos. Com Bobby Robson aconteceu e foi dos enredos mais bonitos que já segui em futebol. Mas perdoem, paro aqui: afasto-me desenfreadamente dos compassos que zurzem os tempos de José Peseiro.



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