Idas e Voltas


Depois de uma fascinante incursão etnográfica por Changara ― norte/interior do País, redondezas de Cahora Bassa ― regressava eu de Tete rumo a Chimóio. Pensava que o inenarrável calor de Tete era inédito bastante. Não era. O autocarro que me deu lugar havia de se despistar valeta adentro.
É assombrosa a clareza cinematográfica com que vi ser arquitectada a inevitabilidade da desdita. Uma vez desfeita a curva erige-se um autocarro ocupando a nossa via, enquanto que no sentido oposto um camião de carga hipotecava a hipótese de uma ultrapassagem de recurso. Escolha atroz. Choque frontal ou choque frontal. O motorista, quiçá trabalhista adepto da terceira via, não teve alternativa senão desviar-se para a berma. Ainda tentou esboçar uma guinada de volta à estrada, mas a inclinação foi fatal e virámos.

Aqui os acidentes nos transportes de longo curso até são bastante raros, mas, de facto, um autocarro avariado, detido na curva sem sinalização, não podia redundar noutra coisa. Dentro do autocarro não tardaram os gritos de antecipação. Sentimos primeiro um reclinar suave e depois uma queda relativamente forte. Quando dei por mim estava caído no meio de tralhas, cadeiras, estilhaços, pessoas. A partir daí tudo no meu comportamento foi insólito, para mim mesmo, creiam-me. Qual capitão do barco, levantei-me, repreendi calma a um rapaz disposto a pisar moribundos para salvar a pele, clamei às pessoas para saírem devagar. Indagando pelas as situações mais aflitivas fui recolher dos braços da mãe prostrada uma bebé ensanguentada. Incapaz de fazer o que quer fosse com ela nos braços passei-a pela janela ao tal tipo que entretanto havia conseguido sair. Recebeu-a como não tivesse outro remédio e levou-a dali. Chamei uns quantos braços para ajudar a libertar um senhor que tinha ficado preso, mas a nossa força não bastou e só o macaco havia de o soltar. Andei nestas deambulações salvíficas e às tantas no autocarro só restava eu e o homem que à falta de melhor sorte se ficou a aguardar pelo macaco. Fui em resgate da mochila e saí do autocarro com impossível frieza de sangue.
Cá fora fiquei a saber que só houve dois feridos, ambos muito ligeiros: Flávia, aquela bebé, e uma anciã a quem o motorista implorava em lágrimas: “não se preocupe mamã, vá ao hospital que as suas coisas ficam connosco”. Regressei ainda ao autocarro em busca de água para limpar a ferida da Flávia.
Naqueles poucos instantes, quatro minutos no máximo, agi como os heróis dos filmes: concedi gritos, dei colo a uma bebé, organizei forças, inquiri pelo estado dos mais combalidos. Mas uma coreografia heróica pode bem ser uma dança que busca a redenção. Pelo menos foi-o naquele dia. Suspeito que sim.
Explico. Um dos meus primeiros pensamentos quando o autocarro virou remeteu-me para mochila onde tinha alojados inúmeros materiais juntamente com o portátil. Em tal situação: pueril, bem sei. No fundo, desconfio, deambulei em busca de perdão, acolhida que foi a má consciência desse pensamento vil. Três horas depois estava a fazer entrevistas em Chimóio. Sem um arranhão. A bebé ajudou-me mais a mim do que eu a ela. À luz da narrativa narcísica, aquela que mais explica, as gotas do sangue dela que me ficaram nos calções substanciam uma outra versão daqueloutro sangue redentor. Ou o próprio.



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