As mamas da senhora do caju

Não sei se padeço de logocentrismo. O caso é bem prosaico: tenho o incontrolável impulso de fixar os olhos nos dizeres que as pessoas ostentam nas suas vestes. Aconteceu há cerca de uma semana. O último statement que me arrebatou a atenção. Envergava-o uma vendedora de caju (sou um aficionado de sempre, em Portugal ia comprá-lo ao Lidl de propósito). Na t-shirt, sobre o peito da anciã, li, tão simplesmente: “This is not a perfect world”. E com esta dura constatação tapava a senhora as magnas mamas já amolecidas pelos anos e pela adivinhável prole. Enquanto amanhava uns meticais para pagamento pensava eu como as mamas e o texto sugeriam uma sintonia, emparelhando significados em torno da passagem do tempo e da fragilidade das humanas carnes. Fiquei a zurzir o quão sublime e irónico seria o paradoxo se a mesma frase “This is not a perfect world” ocultasse hirtas e jovens mamas. Cem metros nisto, já nutrido por uns quantos cajus, é que se me fez luz: aquelas mamas caídas e envelhecidas não corroboram a imperfeição deste mundo. São, ao invés, um adversativo à citação. Um adversativo mamário. Isto não é um mundo perfeito, “mas”…
De tanto wishful thinking até forjei um amante dedicado para a senhora do caju, o homem que tem naquelas mamas a maior razão para sobreviver à imperfeição do mundo. Fiquei convencido: as mamas da senhora diziam “mas” replicando à T-shirt, Como diriam “mas” se fossem as tais mamas jovens e hirtas. Aquilo que assim olhamos e amamos, cientes da precariedade que a tudo assola, não é um texto sobre a imperfeição mas sobre as possibilidades de redenção. Neste mundo imperfeito, cada qual elege a singular forma do seu “mas”.



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