Virgindade

Sigo o isco até aqui e detenho-me na virgindade. Permitam-me um desassossego alado ao tema. As últimas décadas criaram espaço discursivo para que as mulheres possam emular algo do triunfalismo masculino sobre a perda da virgindade ou pelo menos falar despudoradamente desse evento nas suas modalidades mais populares: juvenil e extra-marital. Curiosamente uns e outras insistem em falar da virgindade perdida, da perda da virgindade ou da perda dos três. Ora, se realmente acham que a experiência deixa um lastro de soma positiva ou de passagem não dramática não faz sentido continuarem a falar em perdas. É uma questão linguística, bem sei, mas, com excepção de “perder a vergonha”, poucas são as expressões em que a palavra perda é desagrilhoada das suas conotações negativas. Entendamo-nos. Ao querer libertar a inauguração sexual do ónus da perda não me move qualquer triunfalismo sobre a libertação sexual, tampouco um entendimento da virgindade como uma cruz de que as pessoas se tenham que libertar qual estigma da castidade. Cada um a seu tempo, com seus valores e as suas carnes. Respeito. A minha questão é outra. Estimo demasiado a palavra perda para a ver banalizada em experiências que (porventura pelas melhores razões) não a merecem.



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