Descendentes

Não me perturbam as praças, ruas, paisagens e edificações que pronunciam as línguas de tantos anoiteceres distintos, intocáveis, exóticos, grandiosos. Desperto a paz noutras vestes: as pessoas, se as há, as que me desossam a alma. Não pelo que dizem, fazem ou aspiram, curriculando biografias e bibliografias, investidas de singularidades heróicas. Venero, outrossim, insignes transeuntes: os que, na fina quietude dos dias vividos na orla do lugar, comovem o frémito de uma Legião: o bíblico encantamento de mil vidas. Há pessoas que descem pela vida em tais trejeitos de verso que carregam num mísero punhado de passos mais mundos que o mundo. Nos seus corpos, hospedagem derradeira, descansa já a ânsia peregrina. Aprendemos nós a fortificar o ensejo, a dúvida e a desgraça nos poetas a quem devemos a vida, nos fins que escrevemos doutra forma, nas melodias loquazes e benquistas. Os que descem pela vida, discretos descendentes dos deuses, apartam nas músicas de Leandro e Leonardo o ardor da antologia poética da eternidade. A fenomenologia do encanto não carece de relativismos tanto como de vidas, diferentemente contadas e pesadas, mas que, no fim, valem, perdem e ganham o mesmo. Ali, junto ao muro, nas horas da noite, a cansar o chão de tão plácido assentamento. Vejo-a. Sem pressa de viver, no abraço à província dos começos, embalando romantismos, languidamente esquecendo esse dia em que a visão lhe levou as cores de Inhambane.
Os viajantes triunfais, sempre arvorando o prestígio da lonjura, fracassam em perceber como na noite de um lugar mora já a síntese de incontaveis idas e voltas. Há seres que carregam consigo o deslumbre de mil vidas sem terem principiado a viver uma só. Xamãs, curandeiros de passados, profetas da outra noite.
Lado a lado, a sabedoria das religiões e a verdura de todo o amor. Sentados no embalo arranhado uma emissora lamechas. Também nisto acredito.



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