Crocodilo

Leio a fotobiografia Lobo Antunes da autoria de Tereza Coelho. A coisa agarra bem sobretuo porque a intertextualidade (testemunhal e "documental") posta ao serviço dos diferentes momentos e temas da vida está bem gizada. A omissão dos "amores" é demasiaddo cintilante, tanto mais que a intimidade relacional é fortemente explorada por via das amizades (Vitorino, Daniel Sampaio, Melo Antunes, Cardoso Pires) e família (a frieza das respostas da mãe é impressinante). Pediam-se mais fotografias entre os trintas e quarentas, altura em que o "sucesso reprodutivo"* do artista devia estar no auge, supõe-se. Uma coisa deveras interessante de reparar, e foi isso que me levou a escrever esta nota, é o modo como a autora, no seio do registo laudatório de um ego que este exercício sempre constitui, lá encontra espaço para deixar escapar algo de uma exasperação para com a displicêcia negligente das respostas do biografado. Apesar da ode, em pequenas passagens nas páginas finais temos a sensação que a autora leva do trabalho feito uma ligeira antipatia para com o biografado. É o insinuar dessa revoltada tristeza da autora que enternece:

[Na entrevista com Maria Luisa Blaco, jornalista espanhola] foi das raras vezes que o autor mostrou que, em dadas circunstâncias, é um excelente conversador e contador de histórias.

- Porque é que as suas entrevistas em Portugal são como são?
- Isso depende de quem faz as perguntas.
- Em Portugal já foi entrevistado por pessoas que sabiam muito bem como fazer perguntas. Já deve ter sido entrevistado por toda a gente.
- Penso que nos outros países o espaço funciona como o tempo.
- ?
- Se eu fosse por exemplo espanhol aconteceria o mesmo quando desse uma entrevista em Espanha.



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