0-2

Respigue-se pois uma daquelas frases bem feitas: o resultado pecou por escasso. O Benfica, ou os que vestem de vermelho por ele, dando prova da sua trágica falta de ambição, encolhidos na inalienável mediocridade pós-25 de Abril, arruinou a sublime oportunidade de vingar os 5-0 com que aqui há uns anos foi humilhado em plena luz. Ao invés, ganharam por 0-2 e ficaram eufóricos, choraram, ganiram osanas, bendisseram os deuses, persuadidos de que, após tantas malhas, a vitória no Dragão surgia enfim como assinalável reversão da história. Comove o patético. Será que a insigne nação Benfiquista não percebeu que poderia ter enfiado, sem insulto, sem demasiado empenho, uns sete secos? Claro que não. É pena. A história não se repete, e é triste que os tais 0-5 de há anos fiquem assim, incólumes, a ribombar na memória colectiva. Será que eles não perceberam que, por sumptuosa dádiva, jogavam contra uma defesa incapaz de se impor numa qualquer equipa distrital e, quem sabe, no Sporting? Vamos lá, gentes benfiquistas: enxuguem as lágrimas de alegria, curem a ressaca, levantem os joelhos do chão, dêem descanso ao CD da Fafá de Belém, dispam a camisola do Simão colada a suor. Percebam. Este é o facto: em pleno estádio do dragão perderam uma irrepetível oportunidade histórica para limparem a humilhação cavada pelas décadas últimas. Será que não se deram conta que a defesa escalonada por Co Adrianse é a mais sublime ode alguma vez composta à estupidez humana? Jaz no Porto um homem com obra feita para eventuais candidaturas ao património mundial da humanidade. Um homem que quando sofre dois golos diz que o problema foi não se terem marcado três. Uma questão cultural, ressalva o aprumado relativismo do comentador: “é toda uma outra forma de entender o futebol”. Ó meu amigo, relativista sou eu e paro à porta da excisão do clítoris.
Será que não repararam nesta quadra apocalíptica entrada em campo?: Bosingwa, Ricardo Costa, Bruno Alves, César Peixoto. Percebam: a inclusão de um qualquer destes senhores baixa para o nível sofrível, só por si, só pelo choque moral que provoca, uma defesa de luxo. Agora, os quatro juntos representam a suprema porosidade de que uma equipa endinheirada é capaz em tempo da globalização. Para lá dos seus outros méritos, dizem os manuais da matéria não ser de todo despiciendo que os jogadores da defesa saibam fazer coisas como… defender. Ora, desta matula que só a misericórdia permite que se chame defesa, apenas o Ricardo Costa poderia tapar uns buracos, como fez no passado, ao pé de defesas a sério. Mas, sejamos justos, Adrianse não é o único culpado. Como denunciei, em tempo, a negligência da política de contratações em relação ao sector defensivo chamava desgraça. Devo conceder: Adrianse foi um surpreendente visionário, explorando com maestria todas as possibilidade de fracasso auguradas pelo plantel portista. Facto cintilante da sua estupidez: o tratamento dado a Jorge Costa, jogador e símbolo, oportunamente filmado na bancada pelo realizador do jogo, sabiamente lembrado por quaisquer dois dedos de testa capazes de perceber que vale a sua influência e experiência - ainda que o físico possa estar algo molestado pelos danos dos anos (a rima é de Camões). Esqueçam, tarde demais, apesar das messiânicas iniciais do capitão, por mim já não há salvador nem salvação para Adrianse. O meu polegar aponta o chão.
Quanto aos Benfiquistas, esses, gloriosos, segundo a reza, tiveram a sua oportunidade de glória. Percebe-se, esmagar já não lhes dá prazer. É interessante ver como os medíocres viram as costas à história heróica, à goleada memorável. Bastando-se. Quando a propalada grandeza ulula em sorver a passagem do transe fleumático no ocaso da vitória mísera, podemos dizer que a identidade de um clube se cristaliza pujante. Aqui reside a ironia suprema: a história recente da mediocridade benfiquista recolhe do jogo de sábado o seu momento simbólico mais eloquente.



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