Soares e Alegre

Entendo que o que se passou com Manuel Alegre só poderá ser cabalmente entendido à luz da interpretação messiânica. Vejamos. Para muitos Soares constitui algo próximo a um messias da democracia. Demos de barato para gosto do argumento. Ora, Alegre, a voz de Argel, surge assim numa situação liminar. Ele poderia incorporar tanto o papel de apóstolo como o papel de profeta. É nesta indecisa tensão que podemos captar os eventos recentes. Ao apóstolo caberá assumir o devido protagonismo após o ocaso do Messias. Já do profeta espera-se apenas abnegação pessoal em prol do eleito. Até ao fim. Foi o que fez João Baptista, o profeta contemporâneo de Jesus, que, malgrado os seus seguidores, cedo entronizou Jesus como o maior que ele, logo se remetendo à condição de anunciador.

A questão é que a certa altura Alegre leu-se como apóstolo e, portanto, sentiu que era chegado o momento de desempenhar o lugar que lhe cabia, consumada que estava morte política do messias. Não soube perceber, ou percebeu tarde, que a fatal eleição de Cavaco Silva germinou no PS uma expectativa messiânica. E assim sucedeu a ressurreição de Soares. Neste cenário a voz de Alegre ficou condenada a ser uma voz profética: a voz que na longa história é presságio anunciador de uma outra. Ficou ferido o orgulho do apóstolo que Alegre julgou ser. Quanto a Soares, Messias reempossado por amplos seguidores, veremos se consegue assumir o sentido literal do eleito.



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