Fétiches culturais

Um amigo meu falava-me do efeito de atracção em si produzido pelas aparições televisivas da Anabela Mota Ribeiro. “Eu sei que ela não é assim tão especial”, dizia, “mas mexe comigo… acho que é todo aquele ambiente livresco, os óculos de massa, as entrevistas em francês…”
Tentando perceber as raízes de tão tortuoso fascínio, não pude deixar de pensar nas continuidades entre o efeito Anabela Mota Ribeiro e um fenómeno mais amplo que vai ganhando significativa relevância. Refiro-me ao crescente recurso a motivos culturais/intelectuais no comércio sexual.Prova? Basta abrir os jornais e ver a profusão de sociólogas, filósofas, e leitoras de Barthes (pronto, estas nunca vi) que aparecem nos anúncios de encontros sexuais pagos.
O património cultural ou o ambiente cultural em que alguém está inserido aparece-nos cada vez mais como chamariz para a coisa libidinal -- naquilo que é um interessante revivalismo da lógica das mulheres de Atenas. Findo o tempo em que a opinião pública e política dos intelectuais respeitados, a la Satre, era dramaticamente ouvida, cumprindo um proeminente papel no curso da sociedade, hoje o vago papel das pessoas da cultura aloja-se muitas vezes no epíteto acusatório de masturbação intelectual. No entanto, agora que o capital da cultura e da intelectualidade migra para o capitalismo sexual, assumindo cada vez mais o papel de fétiche sexuais, a masturbação intelectual dá lugar a uma dimensão convivial do sexo. Temo que os livros e os óculos de massa venham a assumir na nossa sociedade uma função semelhante aquela que é hoje ocupada pelos chicotes e pelas algemas.



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