As violinistas de Varsóvia



Da sobrevivência à busca de público, os artistas de rua cumprem vários desígnios. Em Varsóvia três raparigas adolescentes tocavam violino sentadas no passeio. Era óbvio que, alheadas de algum fito maior, as raparigas ali estavam meramente como forma de amealhar trocos para férias ou investidas na Zara. O propósito seria mundano, mas, indiferente às motivações das suas criadoras, os violinos, magistralmente tocados, lá gemiam, mágicos, chorosos. A música tinia fundo e eu, disfarçadamente atento, ouvindo-a, preparava o imperativo ético de uma moeda. Entretanto passou um senhor, maltrapilho, alcoolizado, ar vagabundo. Demorou-se. Emocionou-se. Deixou uma moeda. Provavelmente uma das poucas que teria. Provavelmente amealhada na porta de uma qualquer igreja.

Estranha transacção: um mendigo que subsidia férias e echarpes de três adolescentes. Mas a transacção fundadora foi bem outra. No enleio da música algo de bem fundo e insólito se terá comerciado nas memórias daquele senhor mal vestido.

Para quem se habituou viver pedindo, a moeda deixada num aparente despropósito de possibilidades financeiras constituiu a reposição cénica de uma dignidade perdida.
A coragem de embalar a desgraça, uma moeda no bolso, a nossa música, a dignidade de tomar parte na dádiva. Tudo aquilo que a biografia definitivamente rouba, às vezes volta, assim, por instantes, em golpes de asa.



<< Home