Sejamo-lo

É de todo em todo desanconselhável ler poesia antes de ir jogar à bola. Percebi-o no último jogo. A certa altura, depois de ter deixado dois defesas para trás com a finta 17, confronto-me com o guarda-redes. No preciso momento em que vislumbro a baliza expectante, um assomo de lirismo pessoano invade-me: "Eis o momento, sejamo-lo, para quê o pensamento?". Lembro este chamamento e sou acometido por uma vontade de ser o momento. A vontade de coreografar a minha existência num golo merecedor. Ironia. É que ao evocar tal linha já estava a pensar, e o momento... foi-se. A bola foi recolhida pelo guarda-redes que se atirou com sucesso aos meus pés. Mal saberá que foi salvo por um verso.

É claro que eu podia ter falhado a baliza no curso natural das coisas (muito provável). Mas, se as palavras cintilantes não nos salvam do fracasso -- e não -- pois então que nos ajudem a dar-lhe redentor sentido.



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