Ligia*

Há tempos um amiga minha contou-me que acabara com o namorado após uma relação de anos. Não aguentava mais. Demasiada exigência, demasiada pressão, demasiado conflito, demasiada incompatibilidade. A verdade é que a inevitabilidade desse desfecho era há muito exuberante. A única dúvida para mim, como para os demais conhecedores das danças do casal, estava em perceber como é que ela tinha aguentado tanto tempo de irremediável infelicidade. Mas, já se sabe, quando o amor é invocado os esquemas de inteligibilidade são outros, liças onde as questões do costume deixam de fazer o mesmo sentido. Quem descreve um sentimento ou uma relação socorrendo-se do ideário romântico -- o idioma da moda nos últimos séculos -- logo deve à coerência narrativa o imperativo de dar tudo por um amor. Tudo bem. O problema é outro: muitos há que, quando já não conseguem honestamente acreditar nesse amor, se obrigam a lutar; lutam aquele suficiente para poderem desistir com a consciência tranquila. Era por isso que a minha amiga lutava há muito, pela sua consciência. Uma consciencia exigente. Ficou-lhe a dor e essa estranha paz: a paz romântica de ter dado mais do que podia.

*nome ficcional



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