Fins

Se houvesse algo parecido com um «Notícias da Blogosfera» lá constaria, estampado em letras garrafais: PEDRO MEXIA E FRANCISCO JOSÉ VIEGAS ABANDONAM. Mas a mim, a mim pouco me dizem os cabeçalhos ou os «notáveis» da praça. Indiferente a esta sangria? Longe disso. A visitação do Fora do Mundo e do Aviz ocupava lugar solene nas minhas derivações pela bloga. E isso sim, isso ocupa-me alguma tristeza. No entanto, ficando por apurar o quanto há nisto de wishful thinking, acredito que este êxodo redundará no «regresso de dois estranhos». Vejamos.

Cumprindo o desígnio da abraçada diáspora, no ritmo descompassado das suas viagens, FJV sempre retornou à escrita do Aviz. Mais belicoso na bola e nos arremessos da política brasileira, voz sempre indignada perante a «crueldade de acolhimento» servida aos emigrantes, atento e irresistivelmente militante na atenção prestada aos temas israelo-judaicos, sempre deixou, na espuma das letras, a ternura das palavras, a adivinhada candura de um charuto fumado sob a lua, esse jeito de quem sempre volta para perguntar pela noite. Esta será apenas mais uma viagem até que a noite convoque um dos seus eleitos ao lugar de ancoragem.

O Pedro, pelo «intimismo de risco» que pratica na continuada invenção/exposição de verosimilhanças pessoais, nos desabafos gizados como quem descalça a bota antes de ir para a cama, é talvez ─ quando considerada a genealogia com o Dicionário do diabo ─ o meu blogger preferido. O abandono de Mexia, por um lado surpreende, por outro não é de levar demasiado a sério ─ arrisco ciente que o meu tom assertivo mais favorece o efeito de uma profecia que não se cumpre. Mas explico. Aquando da publicação do livro que deu materialidade ao Dicionário do Diabo pôde-se temer que a escrita online havia terminado com esse epílogo na gala do papel. Perante essa perspectiva o fim dos posts diários e o delete do Dicionário dificilmente surgem separáveis da desconfortável sensação de que um «projecto curricular» se havia cumprido, sedimentado que estava no Fora do Mundo (livro). Ora, todo o registo do dicionário, longe de se tratar de um espelho de alma ─ ressalva importante ─ sempre cativou pelo modo como o seu autor ali parecia estar implicado num jogo sem chave de «semiótica biográfica», e numa reflexividade ─ fosse a pretexto de livros, cinema música ou transeuntes ─ ostensivamente passional no modo como parece germinar do profuso manto inspirador das angústias pessoais. Portanto, ao mesmo tempo que esse registo intimista de risco jamais poderá ser confundido com a exposição da intimidade, a possibilidade de após o livro ocorrer uma desvincução pessoal automática podia sugerir um pragmatismo excessivo na relação com a escrita. Portanto, os arquivos arriscavam ser apreendidos por um renovado olhar onde a noção de ficção biograficamente informada deixava lugar para um sentimento retrospectivo de «farsa». Ou seja, para o intimismo do Mexia resultar cabalmente é tão necessário que se perceba que o blog depende de perto da vida e dos estados de espírito de quem o escreve, como necessária é a persuasão de que, em certa medida, o próprio autor depende do blog como espaço para uma escrita pública não formatada, não constrangida do ponto de vista temático, e com uma forte compleição narcísica. Assim postas as coisas, a equação livro-publicado=fim-do-blog deixava um certo travo de farsa, dado estarmos perante o êxito de um registo cujo capital central era exactamente uma forte implicação pessoal.
Por isso, o Fora do Mundo, na assiduididade escrivinhadora do PM, veio repor, para lá de uma qualquer calculismo livresco, essa ideia de uma co-dependência entre blog e autor, ideia que o lastro da escrita sempre havia insinuado. Entendo que o atractivo da história de bloga do Pedro carece da ideia de que o blog cumpre um papel identitário importante como espaço para aleitamento de angústias, auto-depreciações, e reflexões biograficamente dotadas. Quando Mexia deixar de blogar ficaremos com a ideia que um homem razoavelmente resolvido foi à sua vida. Ora, essa hipótese molesta de morte a memória do Dicionário do Diabo e do Fora do mundo. Dependa ou não o Mexia de blogar, a verdade é que a sua estética depende da ficção dessa necessidade. Voltar será, por isso, um imperativo de estilo.

Até já, caros.



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