De Salazar a Scolari

Depois da ditadura e do colonialismo, é Scolari que leva a violência do despotismo autoritário para a iconografia da nação. Este país já merecia que as pessoas fossem respeitadas pelo seu valor, independentemente das suas origens. A exclusão de Baía da selecção é, pois, representação emblemática de um país onde a meritocracia e a justiça social capitulam perante o compadrio, um país onde tantas vezes parecemos perder a capacidade de nos indignarmos com a pulhice instalada. Baía, ao contrário do que lhe chegou a sugerir Mourinho, nunca renunciou à selecção, assim mantendo vivo, no seu silêcio, o ideário de uma "legalidade ferida". Há valores maiores que a nação, ou por outra: a nação merece valores maiores. Seria tempo de eles estarem representados nos símbolos que mais fortemente representam o imaginário (ou a imaginação) nacional. Recusar acompanhar o hino que agora embala o épico da injustiça scolariana não é anti-patriotismo, é a assunção solene (e exuberantemente simbólica, bem sei) de que é outra a pátria que sonhámos. No dia em que o Scolari der uma razão válida para não convocar Baía, calamo-nos. Até lá sejamos, alternativamente, atenienses, gregos, e cidadãos do mundo.



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