Piratarias

Saco da net a gravação vídeo de um debate histórico. Chomsky vs Foucault. Local: Holanda. Ano: 1974. O KO assume proporções de escândalo. Vejo-o umas 7 vezes seguidas, deliciado. (É mais ou menos como fazer replay de uns certos 5-0 de uma certa supertaça num certo estádio da Luz.)

Chomsky insiste nos conceitos universais de bem e justiça fundados na natureza humana. Bem se pôs a jeito: a partir daí só gaguejou. Foucault, risonho, numa voz que eu só tinha ouvido em delírio, rebate (primeiro sonante, depois já condescendente perante o adversário no tapete): a justiça não é uma verdade auto-evidente, é, sim, o produto da luta política e epistemológica dentro de determinadas constelações de sentido. Nada podemos fundar na "natureza humana": a contingência sócio-histórica assola-nos: "na ilha da Páscoa as coisas são diferentes". Os operários não lutam pela justiça, como algo prévio, abstracto. Lutam pela sua definição de justiça, ideologicamente e culturalmente caregada, como qualquer outra definição estará carregada pelos desígnios dos seus porta-estandartes.

Faltou a Foucault dizer que determinadas constelações de sentido podem aspirar à universalidade como "ideias que viajam bem" (Harding) sofrendo mutações/articulações pelo caminho. E assim abrimos a porta aos direitos humanos fora dos seus usos imperialistas. Mas Foucault não estava para aí virado. Ele era mais do estilo de deixar tudo em cacos: não há significado sem poder, nós somos já o produto de poderes carcerários e temos uma irresistível tendência para os reproduzir. Já sem inocência, os utopistas que interessam sabem-se, nalguma medida, dignos respigadores dos cacos do pós-estruturalismo.



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