Partimpim

Apesar da interessante montagem do espectáculo e do lúdico que confere sentido à escorrência musical e performativa de Partimpim, é difícil assistir a um concerto de Adriana Partimpim sem um suspiro "Calcanhotto volta!". Bem distante do sentimento geral do público que -- sem nunca se deixar levar cabalmente por aquele novo espólio musical -- parecia oscilar entre o completo desalento e o conformismo de esperar apenas por aquela música ("Fico assim sem você"), eu aprecio o registo Adriana Partimpim. Ouço o cd e iria, como fui, a um concerto para a ouvir. A questão é que gosto mutíssimo mais da Adriana Calcanhoto. Por isso, por muito injusto que soe, percebo a tentação de se cobrar a um heterónimo pela ausência do outro. Nestas coisas ia reflectindo até que, depois de uma passagem pelos arquivos do Carlos Vaz Marques na TSF, fui obrigado a ceder à apologia da liberdade artística, a liberdade de "ser uma outra" que Adriana assim clama, citando Matisse:
O sucesso é uma prisão e o artista jamais deve ser prisioneiro de si mesmo, prisioneiro do estilo, prisioneiro da reputação, prisioneiro do sucesso etc. Não escreveram os irmãos Goncourt que os artistas japoneses do grande período mudavam de nome várias vezes na vida? Amo isso: eles queriam salvaguardar
suas liberdades.
Calou-me. Mas o que eu gostava mesmo era da Calcanhotto.



<< Home