Paris V


Numa leitura que se ancora na mitologia dos lugares, o destino de Rick e Ilsa pouco teve a ver com o que se passou no aeroporto de Casablanca. Agora percebo. Tudo havia ficado escrito naquela estação parisiense onde uma despedida os consagrou para todo o sempre como exilados de Paris. O modo como deixamos certos lugares deverá acautelar a sua aspiração mística, passível de se revelar na ideia de eternidade negativa: o nunca mais. Casablanca é a representação sublime desta geografia da transgressão; o "we'll always have Paris" é a identificação trágica das fronteiras que recusam levantar cerco à memória. Como no episódio do Sena que vos contei, há sempre um risco mitológico em certas passagens rituais. Por isso, os outros, os que abandonam a estação de mãos dadas, podem com alguma propriedade ser chamados sobreviventes de Paris.



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