Potlatch

O conceito de reasonable accomodation - adaptação razoável, grosseiramente traduzido - vem sendo usado em importante legislação americana para definir as transformações que se devem operar nos espaços públicos e nos locais de trabalho para acolher os indivíduos nas suas especificidades. Nesse sentido, as adaptações irrazoáveis seriam aquelas achadas incomportáveis do ponto de vista económico ou outro.

Quando duas pessoas se experimentam amorosamente, intentando uma relação, estão, no fundo, a pulsar esse mesmo conceito que a linguagem jurídica haveria de cristalizar. Experimentam as adaptações e transformações possíveis, mas temem as adaptações irrazoáveis, os ajustamentos biograficamente incomportáveis, as rupturas desestruturantes da ipseidade. Por outro lado, se aceitarmos o amor-ruptura não como uma das modalidades do amor, mas como a sua expressão cintilante, as ideias de razoabilidade vão para o espaço.

No entanto, ao mesmo tempo que intuímos, justamente, o amor como móbil de uma abertura mais total à alteridade, não descarto o valor de um certo "núcleo do eu" cuja descacterização pode ser a torrente da desgraça. Note-se, e isto é fundamental, que a apologia desse "núcleo do eu" nada se confunde com uma orgulhosa resistência à mudança ou com o terror da diluição self. Representa, isso sim, a ideia de que a "entrega amorosa" decorre da possibilidade de dádiva de algo que já tinha um nome:
Tu já tinhas um nome e eu não sei
se eras fonte ou brisa ou mar ou flor
nos meus versos chamar-te-ei Amor
(Eugénio de Andrade).

Como diria Borges, entregando-se: "Ofereço-lhe também aquele núcleo de mim mesmo que salvei - o íntimo coração que não se revela em palavras, não trafica com sonhos e que o tempo, a alegria e as adversidades não conseguem tocar."

Não acredito em núcleos fundos e imutáveis do ser, apenas alego, tentativamente, que no "Potlatch dos amores" as dádivas recolhem de fundas histórias de vida.



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