O meu Road Movie

Central do Brasil

"A professora destruía as cartas para, autoritariamente, proteger as pessoas das suas próprias ilusões(...)

O caminhoneiro, um crente evangélico, era um homem solitário. Segundo ele, a sua mulher era a estrada. Quando percebe que Dora começa a sentir um interesse romântico, foge no caminhão e abandona os dois num restaurante de beira de estrada. O naufrágio é um tropo frequentemente associado ao simbolismo da viagem da vida e, em partricular, dos momentos de mergulho órfico. Hans Blumenberg (1997) explora o assunto com a idéia de que, muitas vezes, nós somos espectadores dos naufrágios dos outros sem nada podermos fazer. Mas uma imagem frequente nas declarações dos náufragos no alto mar é que, quando depois de dias à deriva, vêm chegar uma embarcação esta lhes parece a coisa mais bonita que viram na vida. Foi com estes olhos de náufrago que Dora amou César. (...)

"Desta forma, repetir o seu amor pelo pai (Deleuze) é [para Dora, mulher marcada pelo pai que a abandonou na infância], na verdade, uma re-dramatização do trabalho do luto, agora como o adeus ao pai"

Afonso, Carlos Alberto, 1999, "O Poder do Adeus na Central do Brasil", Religião e Sociedade, 20 (2), pp. 9-37.

No último trecho que aqui cito deste sobebo artigo, somos seduzidos para a ideia atordoadora de que só podemos dizer adeus a quem amamos - a quem reconhecemos amar ou ter amado. O flagelo da perda tende a engendrar a resignação mentirosa: a menorização do que nos foi negado. Portanto, concordo inteiramente, Pedro, quando se trata de lembrar amores idos o presente não tem direito de veto sobre o passado (o mesmo veto valeria para as situações em que o presente acolhe temeroso os amores difíceis, menorizando-os por antecipação). Ou por outra, o poder de veto existe, mas como garante de um malogro no diálogo com o post fácio. Por isso, a tentativa de auto-persuasão "Eu na altura pensava que gostava dela" só encontrará paz num entendimento do passado mais próximo dos seus termos «Eu na altura gostava dela". O luto, o poder do adeus, é dizer pela última vez "amo-te" para assim submergir sem pejo acolhendo na devida medida a magnitude o que se foi. Depois. Depois poderá bem ser que um dia um barco venha. Poderá bem ser que "o olhar do náugrago" seja já mero resíduo na vontade de acolher quem se apruma no horizonte. Talvez essa conversa honesta com a perda custe demais, mas as formas decentes de voltar a amar podem esperar.



<< Home