Ironias pós-coloniais

Por grande preguiça e vago desinteresse pelas linhagens de sangue, pouco sei da vida do meu avô materno. Aliás, com a excepção da minha mãe, retinta guiniense feita cidadã portuguesa, sei o mínimo da minha ancestralidade, dispersa que está entre a Guiné e Cabo-Verde. Mas, dizia, do tal avô materno conhecia o essencial: foi um administrador colonial português que trabalhou na Guiné e que nessa passagem teve uma filha com uma jovem nativa, a minha avó. Descobri há poucos dias, porque a minha mãe insistiu comigo numa ida ao google, que o esse meu avô escreveu uma série de livros etnográficos sobre a Guiné e Angola, ao melhor estilo africanista da ida Antropologia colonial. Descobri também, curiosa ironia histórica, que um livro dele consta do espólio da biblioteca do departamento de Antropologia onde me licenciei. Na mesma biblioteca onde tanto li sobre o pós-colonialismo; instado superação da tradição colonialista da antropologia, passou-me ao lado esta genealogia histórica com insuspeitos matizes disciplinares. Uma asserção interessante me ficou desta descoberta, os livros, pelo mero facto de serem livros, conferem irresistível solenidade à mais anónima das existências.



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