Da falta de apoios ao romance

-- Então e a tese?
-- Qual tese? Vê se percebes. Aquela mulher é maravilhosa!
Ao ouvir a resposta do meu amigo sedimentou-se em mim a persuasão antiga de que uma paixão arrebatadora deveria ser razão suficiente, com moldura institucional, para o indefinido atraso na entrega de uma tese. Duvido é que as entidades financiadoras e as faculdades estejam dispostas a contemplar estas urgências. Mais, uma pessoa perdidamente apaixonada deveria merecer aumento no ordenado, bonificações no IRS, no empréstimo da casa, no seguro do carro. Benesses a que se adendaria o direito a sacos de plástico grátis no Lidl. Infelizmente as paixões disruptivas são pouco compensatórias na sociedade do fazer carreira e ser "bem sucedido". Como diria uma personagem destes rapazes, neste país não há apoios para a paixão.

Resultado: só os resolutamente sediados no "encanto instalado" e/ou imunes ao encantamento por vir conseguem ater-se a um projecto de vida. Os outros, escravos do bricolage existencial, são belíssimos anti-heróis fadados à margem.



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