Cataclismo e réplica

Permitam-me então umas palavras sobre o self emocional pós-romântico. Como já aqui disse noutros momentos, tanto quanto me diz respeito, tal ideia é uma ficção terapêutica, uma hipótese que em determinados momentos importa criar como parte do projecto biográfico de fuga aos sofrimentos irredimíveis. No entanto, e tanto quanto a minha biografia o permite dizer -- insisto na natureza pessoal deste aporte -- o pós-romantismo é uma "narrativa do eu" que fracassa em desalojar a prótese da origem: o amor romântico, essa violenta ficção persuasiva. Acredito, por isso, na esteira da personagem de Casablanca, que a constituição do self pós-romântico, é menos self-constitutive do que self-deceiving. Fronteiras ténues que vão da história de cada um.

Já agora, Afonso, partindo desta minha hipótese reflexiva, e dado que o "pós" sempre transporta algo daquilo que procura transcender, poderíamos dizer, irónica e pradoxalmente, que o conceito que mais jus faz à violência da invenção romântica não é o de self emocional pós-romântico, mas sim o conceito de self pós-romântico. Em causa, estão, obviamente, as ambições totalitárias do amor romântico na definição de pessoa, na formação da subjectividade e nos ensejos de realização acolhidos.



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