Carta aberta à mamas de silicone

É um tema antigo, mas cabe esclarecê-lo de uma vez por todas. A razão porque eu "não vou à bola" com os implantes de silicone ficará clara neste texto. É muito simples.

Se eu me apaixono, o querer do meu amor pode ser metonimicamente representado no desejo de ter para mim os seios da mulher amada, para o resto da vida (lá está, o romantismo ultra-romântico e o fascínio por seios como parte do mesmo paradigma estético-emocional). No fundo, por saber as moléstias que o tempo tantas vezes faz ao amor e por me querer me subtrair à angústia das partidas, eu anseio, secretamente, que os seios amados sejam meus, parte do meu corpo, parte da minha carne. Nutro a insólita ideia: "se as mamas fossem minhas poderia repousar na certeza de acordar, adormecer e tomar banho com elas por todos os dias da minha vida”. E se isto não é romantismo não sei o que é.

Mas a questão crucial é que o poder mito-poético do meu estranho anelo reside na sua impossibilidade. Eu nunca terei por certos os seios de quem amo. Eles nunca serão parte da minha carne por mais que com eles me tente confundir “nas travessuras das noites eternas”. E é isso que faz o amor belíssimo. Tortuoso, mas belo. O encanto dos amantes jaz na custosa persuasão de que há uma vontade que nos escapa e que a qualquer momento pode partir levando consigo as mamas que a devoção apaixonada um dia tomou por altar simbólico. E assim, podendo esta versão do amor ser descrita pelo desejo impossível de uma eternidade incorporada, é óbvio que a aparição do silicone desestrutura tudo. Se eu me apaixonasse por mamas de silicone podia sempre tê-las para mim, na minha carne, para todo o sempre, bastaria para tal que recorrese ao mesmo cirurgião da mulher amada. Ora, isso, além de poder ficar um pouco estranho nas minhas carnes modestas, constitui a negação do amor enquanto o inconsumível desejo do impossível. Siliconizadas, perdoem, mas o meu amor está tomado pelas mamas do antigamente.



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