Uma estranha inibição

Como imaginarão, algumas poucas pessoas acumulam a visitação deste blog com a fatalidade de me conhecerem, por assim dizer, enquanto gajo corpóreo. Se por sortilégio saio de casa e alguma dessas pessoas me encontra na rua -- normalmente nas minhas idas para deixar o lixo --, não é infrequente perguntarem-me a clássica: Não achas que te expões demais no blog? Ora, quando comecei a escrever os avatares do meu desejo quis pensá-los fazedores de um espaço intimista, onde perpassassem., directa ou difusamente, as minhas efusões, infortúnios, amores e desaires Obviamente isto seria menos problemático no iniciático Verão, altura em que era lido por umas quantas almas caridosas. Reparo, não sem orgulhoso agrado, que sempre me mantive algo alheio, senão inconsciente, perante a visibilidade acrescida paulatinamente consagrada à minha teimosia escrivinhadora. De facto nunca os dados do sitemeter calibraram a minha verve insuportavelmente confessional, tornando-me mais cuidado, menos impetuoso. O “projecto de blog mantém-se incólume”. Poderia intentar, solene. Falso. A verdade é que não consiguiria evitar fazer disto um espelho de alma mesmo que quisesse. Preciso de quem atenda em regime voluntário aos meus devaneios e conspirações de querer. Por isso não estamos no campo da coerência, estamos no âmbito da fatalidade. Não estamos apenas no domínio da leitura, estamos também no território do baby-sitting.

Ora. Toda esta conversa, porque, habituado que estou a “despir-me” por aqui, etnografei em mim uma curiosa inibição. Cabe percebê-la. Aconteceu quando me endossaram testes para que lhes desse resposta pública. Fosse para falar dos meus livros, fosse para revelar algo do meu quotidiano, senti-me estranhamente invadido prefigurando as minhas respostas. Reflectindo, concluo que esses testes, mais do que a ameaçarem uma reserva pessoal, ameaçam, isso sim, a possibilidade de sermos os coreógrafos do nosso próprio strip-tease intimista, ameaçam dar à personagem que se expõe, e se cria, uma inusitada densidade de real.

No fundo isto é apenas um variação da morte anunciada pelo pós-modernismo. A morte do autor-deus. A morte que surge da ideia que cada leitor é um autor no modo como interpreta subjectivamente o texto; o autor "é" muitos e não o "deus-autor" criativo do sentido último das coisas. Portanto, à fatalidade de ninguém ser lido nos seus próprios termos apenas deverá juntar-se a ideia pós-estruturalista: ninguém escolhe o texto tanto quanto os textos – da cultura, da sociedade, do poder - escolhem e definem o “quem” que os diz. Por isso, se nunca escolhemos completamente o que somos, absurda é a ideia que alguma vez escolhemos o que escrevemos. Tudo sereno, portanto. Venham esses testes.



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