És tudo aquilo que foste perdendo.

                                       JLB

Esta linha roubada a um verso de Borges poderia bem ser consagrada como o epitáfio salvífico, aquele que nos permite resistir à angústia do que se foi. "És tudo aquilo que foste perdendo." No entanto, este dito, que também pode ser lido como cruel mandamento, não é, nem pode ser, príncípio de vida. Afinal Borges tinha mais de 80 anos quando ditou estes versos. Com tão inflamada idade ele ensaiava, isso sim, o príncípio da sua morte: "sei que perdi tantas coisas que não poderia contá-las", "nossas são as mulheres que nos deixaram". No fundo é um generoso ancião que nos deixa por testamento a riqueza do que já não tem. Ora. Eu não tenho 80 anos. Nem tantas coisas perdidas. Bem vistas as coisas, talvez seja novo demais para assim o citar. Mas, creio bem, esse nem chega a ser o maior problema. O problema é que me socorro dessa linha com alguma batota. Uso uma metonímia, essa bela figura de estilo que também serve para dizer a parte pelo todo. Uma metonímia sentimental, perceba-se. Ou seja, se esta frase me aperta ao canto da cama o "tudo" é "uma só coisa", uma só pessoa, que realmente sinto como "tudo". As perdas não se escolhem, nem se acumulam para revisitação memoriosa. Impõem-se na sua absurda singularidade. De outro modo não nos detinhamos nelas. A menos claro, que fôssemos um sábio octagenário em tempo de balanços. Na maior parte das vezes somos assim mais como a Audrey Hepburn naquele momento do filme, estamos sempre assolados a viver o "antes" ou o "depois" de um "tarde demais".



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