Sophie Marceau


Foto encontrada aqui.
Leitores impacientes pedem que comente algo sobre a "aparecida" mama de Sophie Marceau em Cannes. Isso é lá coisa que se comente?! Mas, reconheçamos, não deixa de ser cativante perceber o impacto mediático provocado por aquela alça fugidia. Sobre isso discorrerei umas palavras. O dado mais interesante é que há uns quantos filmes em que Marceau aparece integralmente nua. Portanto, os seus seios há muito fazem parte das topografias familiares do cinema contemporâneo. Logo, cabe perguntar: porquê tanta avidez por umas poucas frames de seio? Vamos por partes.

1- O que marca simbolicamente a exposição de uma mama é a aparição do mamilo. Perceber este simbolismo é decisivo uma vez que os decotes e as transparências conferem, muitas vezes, de modo deliberado, uma visibilidade quase total da mama. O "quase" é fundamental para aquilo que é publicamente sancionado. De facto, estas coreografias vestuárias da mama têm como único princípio a recusa da exposição crua do território corporal demarcado pela auréola do mamilo.(Nas passerelles de moda e na praia esse princípio é frequentemente quebrado. Mas esses espaços públicos são de outro tipo. O primeiro detém a legitimação da arte, e o segundo é moldado pelo afrouxamento estival das regras de pundonor.)
2- O quadro de fundo da cena é o tapete vermelho de Cannes pejado de gente. A aparição de um elemento íntimo, a mama, num espaço de hipervisibilidade cria uma flagrante incoerência público-privado. (Numa cena de cinema a nudez, embora produzida no aparato semi-público da filmagem, sugere quase sempre o recato intimista de uma cena de amor). Esse não ajuste entre o público e o íntimo cria um evento visual raro de onde decorre muito do interesse erótico que os media vislumbraram naquele seio esquerdo.
3- O facto da aparição da mama ter resultado de um momento acidental é crucial. Um dos elementos estruturantes de um certo deleite voyeurista é o facto de ele decorrer de uma invasão não consentida do espaço íntimo de outrem. O carácter acidental do momento e o não consentimento de Marceau sobre a exposição do seu corpo contribui para a generalizada sensação de privilégio não autorizado. Mais uma vez encontramos aqui uma demarcação em relação aquilo que acontece quando a actriz ou modelo é paga para se despir.
4- O último elemento prende-se com a própria Marceau. Não está só em causa a eventual beleza da sua mama. Fosse outro corpo bonito e o impacto seria menor. A sua figura e a sua carreira, apesar de ter sido Bond Girl, inspiram uma rara respeitabilidade artística em tudo congruente com as pretensões mais intelectuais de Cannes. De novo se insinua um contraste. Desta feita entre a cultura da banalização do corpo e um contexto artístico nobre onde o corpo é sempre um signo; onde o corpo só aparece para dizer mais do que a carne de que é feito. Nesse sentido este nip slip aparece como uma acrescida transgresão.



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