Goza Peugeot, goza

É um dos spots publicitários mais bem conseguidos dos últimos tempos. Refiro-me àquele em que um rapaz indiano aparece a reproduzir artesanalmente as formas de um peugeot 206, para depois, triunfante, passar à porta da discoteca celebrando em bom som os olhares invejosos. E seria só isto que eu teria a dizer se a Peugeot não voltasse a repetir a fórmula num novo anúncio.

O enredo, desta feita passado numa localidade africana ou no caribe -- deduz-se --, conta como é que o sucesso de um autocarro se inflaciona depois de pintados os contornos do peugeot 206sw.

A repetição é óbvia e o padrão não deixa de merecer uma leitura sociocultural. O esquema de base é simples. Parodia-se o desejo e a impossibilidade de consumo de pessoas pobres em zonas empobrecidas do planeta, pessoas que apesar de terem acesso à publicidade dos itens de prestígio de origem ocidental não têm a veleidade de os consumirem. O consumo é um privilégio que em ambos os spots se remete, implicitamente, para o primeiro mundo, exactamente onde estão os possíveis compradores a que os spots se dirigem. A ideia que se quer transmitir é que, havendo pessoas que desesperadamente sonham com um peugeot, carro que obviamente nunca terão -- a menos que o pintem num autocarro ou o moldem com o peso de um elefante --, os que no primeiro mundo podem comprá-lo devem mais é execer o seu privilégio. No fundo, o anúncio dirige-se aos que não precisam de se socorrer do patético da imaginação consumista e que podem bendizer a sua sorte para comprar aquilo que outros ficarão sonhando. Tudo numa lógica de sentido que oprera na divisão de riqueza do mundo. Não uso o politicamente correcto numa paranóica patrulha ideológica à criatividade, mas não podia deixar de me distanciar desta estratégia, algo triste, da Peugeot.



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